quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O conto do Neko-chan

   Porque nunca lá fui, embora...

   Tenho um saco de plástico na mão esquerda e giro-o, como se se tratasse de um acrobata que, suspenso de cabeça para baixo por uma faixa de pano, rodopia sem parar. Minutos antes, passara por uma mercearia ao pé de casa. Com o indicador e o polegar, faço rodar a asa à volta do dedo médio, cada vez mais apertado; anseio pelo formigueiro que perdura muito tempo depois de soltar a asa.
   Estaco diante de uma estranha porta velha, ao lado do meu prédio. Com curiosidade, abro-a e começo a subir uma escada em caracol, amparando-me a um ferrugento e periclitante corrimão. Cortando o silêncio dilatado pela escuridão, os degraus rangem. Olho para cima e vejo uma ténue claridade que penetra por uma pequena janela rectangular. Não conheço a casa, mas continuo a subir até chegar ao fim das escadas. O dedo lateja de tão apertado. Desenrolo a asa e deixo cair o saco das compras no degrau. Chego a um patamar, segurando-me ao corrimão, mas ele cede subitamente.
   Grito e acordo. O meu coração bate desenfreadamente. Viro a cabeça, olho a janela aberta, o cortinado a esvoaçar para dentro do quarto, e fixo o tecto branco. A tremer, puxo os cobertores até ao queixo. Nada é real, sei que nunca aconteceu, porque nunca lá fui, embora conheça a rua onde moro como a palma da minha mão.
   Levanto-me e, devagar, caminho até à porta. Abro-a, dou um passo em frente e mergulho no vazio.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O conto do Good blog, Bad blog

   Eu e as mitocôndrias do amor

   A caixa rectangular metálica está dentro da tua mochila. Lá dentro, guardas o estetoscópio que te ofereci há mais de uma década. O meu amor vive no gesto delicado com que pegas nele, o colocas ao redor do teu pescoço e o apertas suavemente, enquanto trabalhas no hospital, tão longe de mim.
   Estás de bata branca, com as canetas a atafulhar o bolso, não páras um minuto; imagino as lágrimas de alegria e os beijos de agradecimento, mas também as cabeças inclinadas e os soluços de derrota. Lutas sem cessar, carregas a dor todos os dias, mas também suspiras de alívio e sorris por salvares uma vida.
   Meu amor, para lá do bater da porta da entrada que ressoa na casa vazia, para lá do meu corpo tolhido sob os cobertores, fico à tua espera, abraçando com força a tua almofada e aspirando o teu cheiro. E muitas horas depois, por vezes até dias, escuto, por fim, uns pés cansados que se arrastam pelo corredor, uns sapatos que são lançados para um canto do quarto e estendo os braços. O teu corpo estafado atira-se para cima de mim e eu aperto-te com força.
   Sim, para lá de noites solitárias e de dias compridos, para lá do teu rosto abatido e do meu cabelo cada vez mais grisalho, continuamos juntos tantos anos depois. Deposito um beijo nas tuas pálpebras que tremem mesmo antes de adormeceres, passo a mão pelo teu cabelo e fecho os olhos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

O conto do Fragmentos Repartidos

   Se não fosses meu amigo
   
   A praia estava vazia àquela hora, enquanto esperávamos que o sol nascesse, sentados ao fundo das escadas, as bicicletas encostadas no pilar do passadiço lá no alto. À nossa frente, ouvíamos o incessante ribombar das ondas coroadas de espuma que rebentavam na areia. Esperávamos pela primeira aurora do mês de Dezembro, com as pernas encolhidas e o queixo assente nos joelhos. Tiritavas de frio, a gola levantada do casaco de bombazine e o gorro não eram suficientes. Por baixo do camisolão de lã, espreitava a tua camisola de pijama. Quinze minutos antes, tinha-te acordado com meia dúzia de pedrinhas atiradas ao vidro da janela do teu quarto. Abriste um pouco, consegui vislumbrar uma manga azul, acenaste e alguns minutos depois, arrastando a bicicleta, apareceste nas traseiras da casa.
   Não tiravas os olhos da grande bola laranja que começava a crescer num céu de Inverno sem nuvens. Sem o saber, guardavas um tesouro no bolso de dentro do casaco. Na semana anterior, tinhas-me pedido o canivete emprestado. Encontraste um pedaço de madeira no pinhal ao pé da tua casa e talhaste uma âncora, o meu nome e a data do meu nascimento. Nesse dia, eu fazia quinze anos.
   Durante muito tempo, eu não consegui dizer uma palavra, apertando-o até os nós dos dedos ficarem brancos. 
   Se não fosses meu amigo, hoje não estaria neste navio, no outro lado do mundo, onde é Verão. Faço quarenta anos e vejo o teu rosto no sol que agora nasce.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O conto da Só eu

   Só eu... e os outros

   Os meus olhos fixam-se no espelho rectangular pendurado na parede do bar. Pelo reflexo, observo um casal abraçado no terraço. A porta está entreaberta e os cortinados afastados para os lados. A cabeça da rapariga poisa num ombro largo, a outra figura está de costas, os seus braços envolvem-na delicadamente e ela sorri, tem um sorriso tranquilo num rosto que reconheço. Ela devolve-me o olhar; não pára de sorrir. E sou eu.
   Aceito um copo numa mão que poisei há instantes no balcão e bebo um gole. Conhecidos, amigos, estranhos seguram-me, mas, com uns abanões, liberto-me e, agitada, aproximo-me do terraço.
   Oiço-os a chamar por mim e, antes de desviar o olhar por um instante, reparo numa faúlha a extinguir-se no céu. Quando viro a cabeça, o terraço está vazio.
   Abro mais a porta e o vento atinge-me com força. Há segundos, sei que estávamos aqui, tu e eu, mas, agora, só existe a escuridão.
   Sinto os ouvidos a latejar e a cabeça a andar à roda e sento-me num banco corrido com o copo na mão. Atrás de mim, o ruído é ensurdecedor, gargalhadas, música, escuto o meu nome várias vezes.
   Oiço o copo a estatelar-se no chão e olho para a mão vazia, depois para baixo e, por fim, para o céu estrelado com a lua em quarto minguante.
   Quero mais do que um reflexo num espelho, mas o meu coração está tão partido como o copo e, com força, espezinho os cacos.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O conto do Zehtoh

   Fome e amargos de boca

   Caminha pelo jardim sem rumo, as mãos fechadas com força, mordisca o lábio inferior sem dar por isso, o olhar perde-se no céu cinzento. Tem a cor da sua alma. Os pingos desabam naquele instante e abriga-se no coreto. Senta-se no chão e poisa o rosto nas mãos geladas.
   Como nos filmes, foi tão previsível, pensa, afastando as mãos húmidas. Abana a cabeça, um desamparo tão grande, tem de se agarrar a algo, como ao encanto do primeiro olhar cruzado ao balcão do bar repleto; recordar-se-ia dele para sempre, tal como a música que passava naquele instante, seria banda sonora do que poderia acontecer, do futuro que, afinal, nunca aconteceria.
   Horas atrás, um sorriso escondido atrás do copo, uma conversa que se estendeu, como um arco-íris, até ao nascer-do-sol desfrutado no cais. E, ao contrário da história, houve mesmo um pote de ouro no fim, naquele instante cristalizado na barra do molhe, agarrada com tanta força quando se sentiu esmagado pelo seu peso, o suor a escorregar pela nuca.
   Deixou-se ir e caiu sem rede; era um novo ano, um recomeço, merecia um momento assim. Desejou um abraço, suspirou por um beijo, quis um futuro, mas recebeu umas palavras de despedida, um abanar de cabeça, escutou uns passos a afastarem-se e viu-o a desaparecer aos primeiros raios de sol de Janeiro.
   A chuva pára. Levanta-se e sai, não olhando para trás. No coreto, palco de bandas, deixa a balada de uma noite de ano novo.