domingo, 5 de fevereiro de 2017

Juan Gabriel Vásquez: O barulho das coisas ao cair

   Da página 90 à página 101 do romance que estou a ler, sublinhei, risquei, reli umas quantas vezes excertos que ainda agora penso neles, de tão marcantes que são. Numa intensidade crescente, o protagonista, Antonio Yammara, descreve, ou melhor, imagina o que teria pensado, como se teria comportando, sentido Elena Fritts, que ia a caminho da Colômbia, minutos antes de o avião se despenhar. Descreve, com uma certa candura, uma descrição bela, o que Elena teria vestido, o caminho que teria percorrido desde casa até ao aeroporto e "... pergunta-se o que está a fazer aqui, se terá sido um erro vir à Colômbia, se na realidade o que disse a sua mãe com aquele seu tom de pitonisa do apocalipse: «Voltar para ele será o último dos teus idealismos.». Elena Fritts está disposta a aceitar o seu carácter idealista, mas isso, pensa, não tem por que condená-la a uma vida inteira de decisões erróneas: também os idealistas acertam de vez em quando."


     Entretanto, na cabine, o comandante e o piloto têm dificuldade em controlar o avião,  mas ela desconhece que algo está a dar para o torto (nas palavras no protagonista, enquanto continua a ouvir a gravação das caixa negras).
   E, de repente, há o barulho.
   "Há um barulho que não consigo, que nunca consegui identificar: um barulho que não é humano ou é mais que humano, o barulho das vidas que se extinguem mas também o barulho dos materiais que se partem. É o barulho das coisas ao cair, um barulho interrompido e por isso mesmo eterno, um barulho que não termina nunca, que continua a ressoar na minha cabeça desde essa tarde e não dá sinais de querer desaparecer, que está para sempre suspenso na minha memória, pendurado nela como uma toalha num cabine."

   
    Depois, surge aquela poderosa frase que se grava na minha cabeça: "Não há nada tão obsceno como espiar os últimos segundos de um homem: deveriam ser secretos, invioláveis, deveriam morrer com quem morre...".
    Finalmente, na página seguinte (97) e no início da página 98, pode ler-se: "A gravação teve, para além disso, a virtude de modificar o passado, pois o pranto de Laverde já não era o mesmo, não podia ser o mesmo que eu tinha presenciado na Casa da Poesia: tinha agora uma densidade da qual antes tinha carecido, devido ao simples facto de que eu tinha ouvido o que ele, sentado naquele sofá de cabedal macio, ouviu naquela tarde. A experiência, aquilo a que chamamos experiência, não é o inventário das nossas dores, mas a compaixão aprendida com as dores alheias."




   O barulho das coisas ao cair, do colombiano Juan Gabriel Vásquez, nascido em 1973 e a viver desde 1999 em Barcelona, venceu o Prémio Alfaguara de Romance em 2011.

   Juan Gabriel Vásquez, O barulho das coisas ao cair, AlfaguaraEditora Objectiva, Carnaxide, 2012 e traduzido por Vasco Gato.

10 comentários:

  1. A citação dos últimos momentos da vida de um homem é realmente poderosa!

    um beijinho.

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  2. Sem palavras e com vontade enorme de o ler :)

    Bjs

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  3. Passagens muito interessantes. Fiquei curiosa com o mesmo.

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  4. Ainda bem que partilhaste estas passagens. Dão que pensar.
    Beijinhos ^^

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    1. há mais umas quantas frases fortes, mas não tanto como estas. São, mesmo, o clímax deste romance.
      bjs.

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  5. Olaré!
    OMFG! Tu riscas livros? Eu sou incapaz... fico sempre com peso na consciência! =/
    Beijinhos e porta-te mal!! ;)

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    1. mas porquê? o livro é meu, risco, risco muito, só assim amo os livros :) e volta e meia abro-os e recordo as passagens.
      bjs.

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