sexta-feira, 19 de maio de 2017

Mãe; Fausta

   Faz hoje sete anos e um mês que a minha Mãe faleceu. Há quase um ano escrevi um conto, que dei o título de Fausta. Poderia explicar o quanto esta história me diz tanto, tendo mascarado a sua morte nas duas mortes ali escritas. Assim, com excepção de uns pequenos ajustes, está como a publiquei inicialmente.
   A imagem referida na história existe, embora não tão grande. Terá, talvez, trinta e cinco anos e continua na mesinha-de-cabeceira do quarto da minha Mãe.

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Fausta

   Quando a minha avó morreu, aos noventa e seis anos, deixou uma figura da Nossa Senhora de Fátima de um palmo e meio de altura, que brilhava no escuro, e uma bíblia com as páginas enrodilhadas, por ter ficado a secar na eira, sob a canícula do Verão dos meus nove anos. Lembro-me de, numa noite, estar deitada na eira, com os braços cruzados atrás da cabeça, fitar a noite estrelada e pensar que Deus estava lá em cima, mas também ao meu lado, naquele livro que horas antes tinha caído no tanque de lavar a roupa, um velho livro com as páginas escancaradas como se fossem braços abertos, e que se mirava a si próprio na abóbada celeste.

***

   Eu e o meu irmão íamos para casa da avó Fausta logo que terminavam as aulas e por lá ficávamos quatro semanas, enterrados numa aldeia perdida num vale, junto a um rio; dizia a nossa mãe que ali podíamos andar à vontade, que não fazia mal, que a aldeia era quase um éden e nós, quais querubins, podíamos correr praticamente nus; na verdade, passávamos os dias com os pés descalços, ou enfiados no rio, lavando-os da lama e da porcaria dos caminhos de terra batida por onde passava o gado, eu sempre de calções e camisola de alças e o meu irmão quase despido.
   O meu irmão, aos sete anos, era um pequeno exibicionista. Colocando em prática as palavras da mãe, tirava a camisola, os calções e as cuecas e andava em pelota pelas ruas. Resoluto, subia a um muro cheio de musgo, empinava a barriga e punha-se a mostrar a pila às meninas que passavam. As mães afastavam as garotas, refilando de tanta sem-vergonhice, e dirigiam-se à quinta onde a avó era criada; gritavam-lhe, zangadas, que o neto estava outra vez naqueles preparos. Ela, não se desmanchando, respondia-lhes de uma janela, que, pelo menos, olhavam para uma pila. Até que, um dia, a patroa beata ficou com os olhos esbugalhados do espectáculo e a avó Fausta lá foi obrigada a puxar, de vez, o neto de cima do muro. Aborrecida por ter sido chamada à atenção, a avó apertou-o com força e disse que, se não parasse com aquilo, teríamos bife de cabeça chata ao jantar.
   Em vez de andar em pelota pela aldeia, o meu irmão passou a mentir com tantos dentes tinha na boca (menos os dois dentes de leite da frente, uma autêntica baliza quando sorria, depravado, às meninas, do alto do muro). Contou que tinha avistado o pai atrás de um penedo, junto ao rio. Depois, viu-o sentado na eira, até lhe tinha sorrido e tudo; era ele no café do Fundo do Lugar; numa outra altura, estava com um machado e ia para o pinhal onde a avó tinha uns quantos pinheiros.
   Tamanha foi a mentira que a avó respondeu que, se ele tivesse o nariz do Pinóquio, passaria os dias a fazer o pino. O rapazola franziu o nariz, segurando o ranho que lhe escorria até ao lábio superior e a avó assoou-o com tanta força que quase o desencaixou da cara. Isso não o impediu de continuar a fantasiar pelo regresso do pai.
   E foi daquela forma, no Verão dos meus nove anos, que a ausência do pai foi exteriorizada pelo meu irmão mais novo. Ele sentia tanto a sua falta que criava enredos fabulosos nos quais o pai regressava para o apanhar e lá iam eles pelos caminhos fora, quais andarilhos sem eira nem beira, cúmplices em fugas precipitadas, cujo sucesso ele celebrava assobiando com as mãos nos bolsos dos calções, quando os tinha.

***

   Eu e o meu irmão dormíamos num quartinho dos fundos da casinha da avó. Ela tinha um velho cão chamado Joli, com as orelhas sempre em ferida, e um gato zarolho e de pêlo crespo chamado Camões, que dormiam connosco numa desengonçada cama de ferro. A casa grande onde a avó Fausta trabalhava ficava numa quinta, que tinha outros animais, patos, galinhas, coelhos, que ela engordava, decapitava, depenava, esfolava e ajudava a cozinhar. Trazia-nos o que sobrava das refeições, dava-nos o almoço à pressa e voltava para a casa grande, deixando-nos a partilhar a comida, muitas vezes, com o Joli e o Camões.
   Todos os dias, ao fim da tarde, quando chegava da quinta, a avó Fausta sentava-se num banco de madeira e bebia um copo de vinho branco. Sobre a bancada de um velho louceiro, num canto escuro da cozinha onde se guardava a cesta de vime com as cavacas para o fogão a lenha e se penduravam os alhos e o louro, havia um pequeno pipo. Com o cotovelo no tampo e a cabeça apoiada na mão, a avó suspirava enquanto sorvia devagar, em pequenos goles, o vinho, olhando em frente sem fixar nada. Eu espreitava pela frincha da porta semi-aberta, tentando não trilhar os dedos, se ela, de repente, se fechasse. Tinha um olhar cansado, o cabelo curto, todo branco a cair numa cara chupada e enrugada, o queixo saliente, e estava completamente só, viúva e abandonada pelo único filho.
   A avó suspirava, então, bebericando o vinho branco, o meu irmão efabulava e eu devorava livros e vivia as minha próprias aventuras em mundos imaginários durante um mês.

***

   O pai nunca nos apareceu vivo. Muito anos depois, vimo-lo morto, após um ataque cardíaco fulminante; a vida de errante parara, abruptamente, num manhoso quarto de uma pensão da capital. Num casaco pendurado num velho guarda-fatos, estava uma agendazinha com o número de telefone da casa grande, onde a avó Fausta trabalhara mais de meio século. O filho do antigo patrão recebeu o telefonema do dono da pensão e foi chamá-la. A avó Fausta, já com oitenta e muitos anos, exigiu dar chão ao filho; ele ia, por fim, descansar, após tantos anos afastado, ao lado do pai, e lá fizemos trezentos e cinquenta quilómetros com o féretro, até à aldeia. Ela, desdentada, silenciosa e minguada, foi sentada no banco da frente do carro funerário ao lado do motorista-cangalheiro, com a bíblia enrugada no regaço, e eu e o meu irmão, no banco de trás.

***

   Após todos se terem ido embora do enterro da avó Fausta, enquanto eu segurava a velha bíblia de encontro ao peito, o meu irmão, desprovido de qualquer pudor, abriu a braguilha e fez um derradeiro aceno genital. Novamente composto, cavámos um pequeno buraco no monte de terra e enterrámos a figura da Nossa Senhora de Fátima. Como brilhava no escuro, ficámos descansados, porque, assim, a avó teria o caminho iluminado até aos braços do Senhor.
   Depois, saímos do cemitério. Ele abriu a bagageira do automóvel, colocou o pipo em cima do tejadilho e tirou dois copos de um saco.
   Brindámos aos nossos mortos.

8 comentários:

  1. Deixo-te um grande beijinho e acompanhado com uma grande abraço cheio de amizade :)

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  2. O texto é uma belíssima homenagem Margarida. Um abraço daqueles.

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  3. Que o brinde seja erguido. E seja às vidas, bem vividas, marcadas de saudade e de felicidade. Beijos a você e à Mamãe e a toda inspiração pra este texto lindo.

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  4. :) belas palavras. Sentidas de uma forma que só tu saberás.

    Beijinhos grandes

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