domingo, 26 de fevereiro de 2017

Jantar com Cruzeiro Seixas

   Na sexta-feira da semana passada, dia 17, fui, com a Magda e uma sua amiga, à tertúlia-jantar no Café Martinho da Arcada, que teve como convidado Artur do Cruzeiro Seixas.
   Foram bastantes e pertinentes as perguntas do organizador destas tertúlias (que regressaram este ano para celebrarem mais um aniversário deste famoso local). Da infância à adolescência, passando pela amizade com Cesariny, a ida para África, não esquecendo a homossexualidade e alguns casos tristes, como a situação das suas obras na Fundação Cupertino de Miranda, e, mesmo, a sua velhice, Cuzeiro Seixas respondeu com franqueza, lucidez, com humor, resignação e tristeza, às questões que lhe foram colocadas pelo organizador desta iniciativa.
   Aos 96 anos, Cruzeiro Seixas recitou de cor, de olhos fechados, vários poemas, que encerraram em beleza a tertúlia (Mário de Sá-Carneiro, José Régio, Fernando Pessoa). Fica o registo de dois deles:

O Lord

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso --- em dúvida iludida...
(--- Por isso a minha raiva mal contida,
--- Por isso a minha eterna impaciência.)

Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas ---
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...

(--- Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido ---
E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...)

Mário de Sá-Carneiro


Quási

Um pouco mais de sol - eu era brasa, 
Um pouco mais de azul - eu era além. 
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído 
Num baixo mar enganador de espuma; 
E o grande sonho despertado em bruma, 
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido... 

Quási o amor, quási o triunfo e a chama, 
Quási o princípio e o fim - quási a expansão... 
Mas na minh'alma tudo se derrama... 
Entanto nada foi só ilusão! 

De tudo houve um começo... e tudo errou... 
- Ai a dôr de ser-quási, dor sem fim... - 
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim, 
Asa que se elançou mas não voou... 

Momentos d'alma que desbaratei... 
Templos aonde nunca pus um altar... 
Rios que perdi sem os levar ao mar... 
Ansias que foram mas que não fixei... 

Se me vagueio, encontro só indicios... 
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas; 
E mãos de herói, sem fé, acobardadas, 
Puseram grades sôbre os precipícios... 

Num impeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí... 
Hoje, de mim, só resta o desencanto 
Das coisas que beijei mas não vivi... 

. . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . 

Um pouco mais de sol - e fôra brasa, 
Um pouco mais de azul - e fôra além. 
Para atingir, faltou-me um golpe de aza... 
Se ao menos eu permanecesse àquem... 

Mário de Sá-Carneiro


Agradeço à Magda os apontamentos que tirou ao longo da tertúlia e de me ter incluído nos singelos presentes que oferecemos ao convidado (uma pequena palete e um caderno de desenho), que agradeceu, emocionado, tendo, inclusivé, brincado com a palete.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

As Asas do Desejo

  

   Que filme magnífico! Nunca o tinha visto no cinema e está em exibição no Monumental. A versão é restaurada (tal como Paris, Texas, que vi na semana passada) e é um dos grandes filmes da minha vida, agora. Não tenho grande jeito para descrever tudo o que senti, mas aqueles desejos de Damiel (extraordinário Bruno Ganz), de sentir, ver, amar, como os humanos, tão bem filmado, na Berlim do pós-guerra, bem, o filme é lindo, triste, caótico, mas, também, muito poético . E consegue, por fim, Damiel consegue amar, como humano.
   Ah, e um muito jovem Nick Cave (& The Bad Seeds) aparece no fim.
   A não perder, sendo que é um dos filmes que a Medeia Filmes está a apresentar em versões restauradas, num ciclo dedicado a Wim Wenders.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Três tipos de solidão: um filme, uma tertúlia, uma entrevista

   O filme é o 'Paris, Texas', em exibição no Nimas, inspirado em Edward Hopper, um grande pintor da solidão, que vi na quinta-feira.
   O jantar-tertúlia foi no Martinho da Arcada, na sexta-feira, e teve como convidado Cruzeiro Seixas. A dado momento, ele descreve uma situação que lhe aconteceu quando estava em Veneza. Entrou numa pequena galeria para se proteger da chuva e estava lá uma exposição de De Chirico. Ele ficou tão impressionado que queria mais informações sobre o autor e perguntou à senhora da galeria onde ele estava. Ela apontou o endereço e disse-lhe: "Vá visitá-lo, que ele está tão sozinho". E depois continuou: "Se De Chirico se sentia assim, imaginem eu..."
   Por fim, a entrevista no Expresso online de António Lobo-Antunes, publicada hoje, em que o escritor responde: «...É mau. É mau entrar numa casa e ouvir o eco da nossa tosse. Todos os homens têm muita dificuldade em estar sozinhos... Não é? Se eu escrever muito estou ocupado.»

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Juan Gabriel Vásquez: O barulho das coisas ao cair

   Da página 90 à página 101 do romance que estou a ler, sublinhei, risquei, reli umas quantas vezes excertos que ainda agora penso neles, de tão marcantes que são. Numa intensidade crescente, o protagonista, Antonio Yammara, descreve, ou melhor, imagina o que teria pensado, como se teria comportando, sentido Elena Fritts, que ia a caminho da Colômbia, minutos antes de o avião se despenhar. Descreve, com uma certa candura, uma descrição bela, o que Elena teria vestido, o caminho que teria percorrido desde casa até ao aeroporto e "... pergunta-se o que está a fazer aqui, se terá sido um erro vir à Colômbia, se na realidade o que disse a sua mãe com aquele seu tom de pitonisa do apocalipse: «Voltar para ele será o último dos teus idealismos.». Elena Fritts está disposta a aceitar o seu carácter idealista, mas isso, pensa, não tem por que condená-la a uma vida inteira de decisões erróneas: também os idealistas acertam de vez em quando."


     Entretanto, na cabine, o comandante e o piloto têm dificuldade em controlar o avião,  mas ela desconhece que algo está a dar para o torto (nas palavras no protagonista, enquanto continua a ouvir a gravação das caixa negras).
   E, de repente, há o barulho.
   "Há um barulho que não consigo, que nunca consegui identificar: um barulho que não é humano ou é mais que humano, o barulho das vidas que se extinguem mas também o barulho dos materiais que se partem. É o barulho das coisas ao cair, um barulho interrompido e por isso mesmo eterno, um barulho que não termina nunca, que continua a ressoar na minha cabeça desde essa tarde e não dá sinais de querer desaparecer, que está para sempre suspenso na minha memória, pendurado nela como uma toalha num cabine."

   
    Depois, surge aquela poderosa frase que se grava na minha cabeça: "Não há nada tão obsceno como espiar os últimos segundos de um homem: deveriam ser secretos, invioláveis, deveriam morrer com quem morre...".
    Finalmente, na página seguinte (97) e no início da página 98, pode ler-se: "A gravação teve, para além disso, a virtude de modificar o passado, pois o pranto de Laverde já não era o mesmo, não podia ser o mesmo que eu tinha presenciado na Casa da Poesia: tinha agora uma densidade da qual antes tinha carecido, devido ao simples facto de que eu tinha ouvido o que ele, sentado naquele sofá de cabedal macio, ouviu naquela tarde. A experiência, aquilo a que chamamos experiência, não é o inventário das nossas dores, mas a compaixão aprendida com as dores alheias."




   O barulho das coisas ao cair, do colombiano Juan Gabriel Vásquez, nascido em 1973 e a viver desde 1999 em Barcelona, venceu o Prémio Alfaguara de Romance em 2011.

   Juan Gabriel Vásquez, O barulho das coisas ao cair, AlfaguaraEditora Objectiva, Carnaxide, 2012 e traduzido por Vasco Gato.