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sábado, 4 de outubro de 2014

Estilo

'Luce chegou inclusivamente a analisar o estilo da minha prosa para ver se eu escrevia de um modo linear e masculino ou, pelo contrário, num estilo circular e feminino.' - p. 29.

Jeffrey Eugenides, Middlesex, Dom Quixote, 2004.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Outono

O tempo virara, o Verão passara; o Outono caíra sobre Bly e apagara metade da claridade dos dias. O sítio, com o seu céu cinzento e as grinaldas murchas, os seus espaços desnudos cobertos de folhas mortas, era como um palco depois de um espectáculo - juncado de programas amachucados. - p. 111.

Henry James, A Volta no Parafuso, Relógio D'Água, 2003.

sábado, 30 de agosto de 2014

Velha sabedoria

'Os que vão para fora e regressam não se sentem melhor por terem ido à aventura, bem pelo contrário, enganam-se, porque não perceberam a velha sabedoria de que não é possível fugir de si próprio.'

Henning Mankell, A Leoa Branca, p. 288.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O dia em que Júpiter encontrou Saturno (nova história colorida)

   - Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada ao meu lado, olhando de perfil.
   - Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
   - Vamos nos ver?
   - No teu chá. No meu chá.
   (Silêncio)
   - Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
   - Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
   - Vou te escrever carta e não mandar.
   - Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
   - Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
   - Vou ver Saturno e me lembrar de você.


Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, ebook.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Imaginação


'Faça a anatomia da realidade, para mostrá-la ou entendê-la, negá-la, ou melhor ainda, para entender o que a realidade está fazendo com todos nós. Mas o escritor não pode prescindir da sua imaginação, da capacidade de criar, inventar o que não viu, não ouviu, não tocou, não cheirou, não sentiu jamais.' (...) 'Sem imaginação não há literatura. A imaginação é a mãe da ficção, é a mãe da poesia, é até mesmo, como disseram Mommsen e Burckhardt, a mãe da História.'

Rubem Fonseca,  E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto, 1997, ebook.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Flaca

   'Tu eras a rapariga branca que dançava bachatas, que pertencia às Señoritas Latinas Unidas e que já tinha ido três vezes a Santo Domingo.
   Recordo: costumavas oferecer-me boleia para casa no teu Civic.
   Recordo: à terceira eu aceitei. As nossas mãos tocaram-se entre os assentos. Tentaste falar comigo em espanhol e eu disse-te para parares.
   Hoje falamos um com o outro. Eu digo: Podíamos passar mais tempo com os miúdos, e tu abanas a cabeça. Quero passar mais tempo é contigo, dizes. Talvez na próxima semana, se ainda estivermos bem.
   Isto é o máximo que podemos esperar. Não desistimos de nada, não dizemos nada que possamos recordar durante anos. Olhas para mim enquanto passas uma escova pelo cabelo. Cada fio que se parte é tão comprido como os meus braços. Tu não queres desistir, mas também não queres sair disto magoada. Não estamos no melhor dos barcos, mas que queres que te diga?
   Vamos de carro até Montclair, onde a estrada do parque está quase deserta. Tudo está silencioso e escuro, e as árvores brilham da chuva de ontem. Num dado ponto, a sul das Oranges, a estrada atravessa um cemitério. Milhares de lápides com cenotáfios de ambos os lados. Imagina, digo eu, apontando para a casa mais próxima, que tinhas de viver num sítio destes.
   Aqueles sonhos que tu tinhas, digo eu.
   Estacionamos em frente ao vendedor de mapas e entramos na nossa livraria. Apesar da proximidade da faculdade, somos os únicos clientes, nós e um gato com três patas. Tu sentas-te num corredor e começas a esquadrinhar as caixas. O gato vai directo a ti. Eu percorro a secção de história. És a única pessoa que conheço que consegue passar tanto tempo como eu numa livraria. Uma espertinha; algo que não se encontra facilmente. Quando volto para perto de ti, vejo-te sem sapatos e a arrancar com as unhas calosidades dos pés, enquanto lês um livro para crianças. Eu ponho os braços em volta dos teus ombros. Flaca, digo. O teu cabelo esvoaça e prende-se à minha barba por fazer. Não me barbeio as vezes suficientes, para ninguém.
   Isto pode resultar, dizes. Se a gente quiser.'


Junot Díaz, É assim Que a Perdes, Relógio D'Água, 2013.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Justine

«Não preciso de nada: é uma simples constipação. As doenças não se interessam por aqueles que desejam morrer.» Depois, por uma dessas associações desconcertantes, como uma volta de andorinha em pleno voo, acrescentou: «Oh!, Nessim, tenho sido sempre uma mulher forte. Será que isso me tem impedido de ser verdadeiramente amada?»

Lawrence Durrell, O Quarteto de Alexandria, Parte I (p. 120 de 244 no Kobo)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Tampa do ralo da banheira

'Durante algum tempo vivemos felizes. A minha mãe, que pastoreava sempre o triplo dos nossos sonhos, já se entretinha a desocupar mentalmente o Chinelo do quarto onde este dormia, um cão minúsculo e escuro, enrolado sobre si próprio exactamente a meio do quarto, como a tampa do ralo de uma banheira, e dava a sensação, quando eu passava por lá, de que quando o cão se levantasse toda a casa seria sorvida por aquela fenda imaginária de que o Chinelo nos defendia, e que reapareceríamos, dias ou semanas mais tarde, do outro lado do mundo...'

Valério Romão, Quando se pôs o meu irmão fora de casa, Granta Portugal 3.


Surpreendeu-me esta história bizarra, triste; o pai que expulsa o filho de casa, a mãe que deseja o seu regresso, o Rui à janela, olhando-os desamparado, e o irmão que ficou contente por lhe ter calhado o quarto do outro, além de se ter vingado da porrada que apanhou em miúdo. Um ricochete de emoções entre os de dentro e o de fora de casa. Gostei muito.

terça-feira, 22 de abril de 2014

A Gata do Bairro de Lata


 VIDA IV

   Isto foi o princípio de uma nova era. Agora, quando se sentia atacada pela fome, dirigia-se à porta do prédio e aquela boa impressão que o negro lhe provocara ia aumentando. Até então nunca tinha compreendido aquele homem. Agora era um amigo, o único que tinha.
   Um dia apanhou uma ratazana. Ia a atravessar a rua em frente do edifício novo quando o amigo abriu a porta para deixar sair um homem muito bem vestido.
   - Bolas! Olha-me só para aquele gato! - exclamou o homem.
   - É verdade, senhor - respondeu o negro. - É a minha gata, senhor. É um verdadeiro terror para os ratos. Já deu cabo de quase todos. É por isso que está tão magrinha.
   - Bem, não a deixes morrer à fome - disse o homem com o ar de um proprietário. - Não podes alimentá-la?
   - O homem da carne vem cá regularmente, senhor. Um quarto de dólar por semana, senhor - disse o negro, achando que tinha direito aos quinze cêntimos extra pela «ideia».
   - Está bem; eu pago.


   Desde então, o negro já a vendeu várias vezes, sempre com a consciência tranquila porque sabe muito bem que é só uma questão de dias até a 'Analostan Real' voltar. Ela aprendeu a tolerar o elevador e até a subir e a descer nele. O negro afirma convictamente que um dia ela ouviu o homem do talho quando estava no último andar e conseguiu carregar no botão e chamar o elevador que a levou para baixo.
   Está outra vez lustrosa e linda. Não é apenas um dos quatrocentos gatos que formam o círculo íntimo em roda do carrinho do homem da carne - é também reconhecida como a rainha dos pensionistas.
   Mas, apesar da sua prosperidade, da sua posição social, do seu nome real e do falso pedigree, o maior prazer da sua vida é escapulir-se para o bairro de lata quando anoitece, pois agora, tal como nas vidas anteriores, no fundo não passa, nem nunca passará, de uma gatinha suja de um bairro de lata.

Ernest Thompson Seton 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ápice

Ainda em 6 de julho, permiti-me anotar: “De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia de cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura”, mas em seguida eu mesmo me dei bofetadas de alerta: “Tenho certeza de que o ápice é um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações.” No entanto, escrevi isso hipocritamente, agora sei. Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto. Mas não havia direito a prorrogações, claro que não. Depois escrevi aquilo sobre a palavra “Avellaneda”, sobre todos os significados que ela possuía. Agora penso: “Avellaneda”, e a palavra significa: “Não está, não estará nunca mais.” Não agüento.

Mario Benedetti, A Trégua

'Porque, no fundo, eu tinha fé em que houvesse prorrogações, em que o ápice não fosse somente um ponto, mas sim um longo e interminável planalto.' - tão belo! (5* no GR)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Letra

Vinte e cinco anos. Cinco lustros. Ou um quarto de século. Não. Parece muito mais assustador dizer, pura e simplesmente, 25 anos, e como minha letra foi mudando! Em 1929, eu tinha uma caligafia escarranchada: os “t” minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado que os “d”, os “b” ou os “h”, como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. Em 1939, as metades inferiores dos “f”, dos “g” e dos “j” pareciam uma espécie de franjas indecisas, sem caráter nem vontade. Em 1945, começou a era das maiúsculas, meu capricho em adorná-las com amplas curvas, espetaculares e inúteis. O “M” e o “H” eram grandes aranhas, com teia e tudo. Agora minha letra se tornou sintética, regular, disciplinada, clara. O que prova, apenas, que sou um simulador, já que eu mesmo me tornei complicado, irregular, caótico, impuro. De repente, quando o inspetor me pediu um dado correspondente a 1930, reconheci minha caligrafia, minha caligrafia de uma etapa especial. Com a mesma letra que usei para escrever: “Relação de salários pagos ao pessoal no mês de agosto de 1930”, com essa mesma letra e nesse mesmo ano, eu tinha escrito duas vezes por semana: “Querida Isabel”, porque Isabel morava então em Melo, e eu lhe escrevia pontualmente às terças e sextas. Essa, portanto, havia sido minha letra de noivo.

Mario Benedetti, A Trégua, (ebook).

domingo, 9 de março de 2014

Liberdade


"É um engano catastrófico pensar que só se pode estar a favor ou contra a liberdade, porque a liberdade tem muitos rostos. A imensa quantidade de russos que se mudou para cá para se misturar com o povo letão e lentamente obrigar-nos a submetermo-nos, não teme apenas pelo facto de a sua presença ser questionada. Receiam naturalmente perder todos os privilégios e a história não conhece exemplos de ninguém que voluntariamente desista dos seus privilégios." (...) "Para nós, a liberdade é sedutora, como uma bela mulher irresistível, mas para outros, a liberdade é uma ameaça que tem de ser combatida com todas as armas."
p. 120.


Não cesso de me maravilhar com a coincidência de anteontem ter começado a ler um livro escrito em 1991, há pouco ter lido este trecho e o que está a acontecer neste momento na Ucrânia.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O princípio do amor

  Falarei das estrelas. Desse céu imenso e desvelado. De como a água em frente era de estrelas. Do seu corpo deslizando ao encontro do meu. Da sua mão voando lentamente entre o meu ombro e o céu por cima. E de como, voando, pousou sobre o meu ombro, leve junto ao ouvido.
   Como disseste, a cabeça voltada até à dor, e elas permaneciam, fixas e derradeiras, as estrelas. Mas bastou-me voltar o rosto um pouco para o seu rosto em brilho. E não havia dor nesse voltar. A noite de luar não teve lábios, mas foi feita de estrelas e de espanto, de dissonâncias claras sobre a água. O fim para o princípio do amor.
p. 25.

Ana Luísa Amaral, Ara, Sextante Editora, 2013.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Formação política

   O Comandante deu-lhe uma palmada no ombro.
   - Tens de te habituar aos homens e não aos ideais. O cargo de Comissário é espinhoso, por isso mesmo. O curioso é que vocês, na vossa tribo, até esquecem que são da mesma tribo, quando há luta pelo posto.
   - O que não quer dizer que não há tribalismo, infelizmente. Aliás, não me venhas dizer que com os kikongos não se passa o mesmo.
   - Eu sou kikongo? Tu és kimbundo? Achas mesmo que sim?
   - Nós, não. Nós pertencemos à minoria que já esqueceu de que lado nasce o Sol na sua aldeia. Ou a confunde com outras aldeias que conheceu. Mas a maioria, Comandante, a maioria?
  - É o teu trabalho: mostrar tantas aldeias aos camaradas que eles se perderão se, um dia, voltarem à sua. A essa arte de desorientação se chama formação política.
p. 21.

Pepetela, Mayombe, D. Quixote, 12.ª edição, Agosto de 2013.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Notas

'Os rótulos violentam os indivíduos. É impossível tratar o rótulo. Temos de tratar a pessoa por trás do rótulo'.

Irvin D. Yalom, Mentiras no Divã.


Os livros da editora 'Saída de Emergência' têm páginas muito condensadas. Mal dá para tirar notas.


Gatas a analisar o título original deste livro: 'Lying on the Couch'.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Invisível

'Permanecer invisível, tornar-se um mestre na arte do auto-apagamento, mesmo perante alguém que conhecia havia tanto tempo, era algo que o deixava satisfeito. Estava pronto para escutar, sempre pronto para escutar, mas não estava preparado para revelar o funcionamento da sua mente, os produtos da sua imaginação ou a profundidade dos seus sentimentos.'
p. 284.

Colm Tóibín, O Mestre, Dom Quixote, 2007.

Vou auto-flagelar-me por só agora estar a ler este magnífico e tocante romance sobre Henry James.  E estou a demorar imenso tempo, porque volto atrás, sublinho e anoto nas margens.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A fingir

'Às vezes acho que toda a gente anda só a fingir ter coragem, e nenhum de nós a temos mesmo. Se calhar é a fingir que arranjamos coragem, não sei.'

George R.R. Martin, A Tormenta de Espadas, p. 425.