Por volta das cinco e um quarto, acordei com um barulho de uma das gatas no quarto-de-banho. Pensei logo na Joaninha que, com imensa força de vontade, lá se arrastava até à areia. Ouvi-a a remexer nas pedrinhas, as pernas bamboleantes, a ofegar, cansada. Levantei-me, abri a porta do quarto e lá estava ela, à porta do seu WC, sentada, respirando com muita dificuldade. A custo, levei-a até à taça da água, mas não conseguiu beber nada. Custa-lhe muito baixar o pescoço. Peguei na taça e levei-a ao focinho, esperei um pouco e lá deu umas lambidelas.
Piorou. Há dias, ainda comia, embora deixasse de preferir a mousse gourmet e optado pelo atum ao natural. Assim, abria uma lata, colocava num pires um pouquinho e lá comia. Todos os dias tinha que abrir uma embalagem nova, que a Joana não comia nada depois de aberto e guardado no frigorífico. A Alice a a Elvira engordaram bastante, até ter começado a congelar a comida que ela não comia. Tentava alternar entre atum, mousse, pedaços com molho, mas ela preferia sempre o atum. Até há uns dias. Deixou de comer. Debicava, simplesmente. Começaram a aparecer altos na parte de trás do pescoço, os da frente aumentaram muito de tamanho. Emagreceu imenso, perdeu massa muscular, os olhos são imensos no rosto miudinho, as pupilas dilatadas. A medicação já não faz efeito. Esta manhã cheguei ao extremo de colocar água numa seringa e pingá-la na boca, tentando que ela bebesse algo. Lambuzei-a de Nutrigel-Plus, a pasta vitamínica, e coloquei-a na sua cama. Pouco a pouco, lá se deitou.
Está a despedir-se. Sabe que é uma questão de horas. Sofre imenso, eu sofro por a ver assim e não posso fazer nada para minimizar a sua dor. Quando noto que se ergue um pouco, vou à cozinha, tiro o atum do armário, coloco no pires e aproximo-o do focinho. Lambe mais um pouco, depois afasta a cabeça. Espero, insisto novamente, ela repete um pouco e volta a afastar-se. Depois, nega-se, determinada, volta-me as costas. Só quer que a deixem em paz.
Penso que chegou a altura de dar o derradeiro passo. Ela é o último laço com a minha vida passada. Foram catorze anos, mais ou menos catorze anos. Nem sei bem quando nasceu, talvez algures no Verão de 2000. Anos atrás, estipulei que Agosto seria o seu mês. Não chegará lá.
Pedi a tarde de hoje e, após o almoço, vou buscar o César a casa da minha colega, a mesma que me deu a Alice. Ela não se quer ligar muito ao gato, embora o adore, já. Fala-me dele com ternura, imensa, diz que é um mimado, que adora colo, que a segue para todo o lado. Já foi castrado no sábado passado, mas ainda não levou as vacinas. Estou ansiosa e um pouco receosa. Como se portará com as outras gatas e elas com ele?
Esta tarde, vou com a Joana e o César ao veterinário. Ele levará as vacinas, ela, bem, provavelmente despedir-me-ei da minha menina hoje. Não faz muito sentido adiar o momento. Custa, sim, custa muito, mas de que adianta esperar? Regressar a casa por mais dois, três dias, tentar mais uma vez e na próxima semana voltar lá e deixá-la definitivamente? Ela não melhorará. Não. Chegou a altura.
O César chega na mesma altura que a Joaninha se prepara para nos deixar. Não substitui, nenhum dos meus gatos actuais substitui os outros, são tão diferentes. Passei por tantos momentos, alegres e tristes, muitas mudanças na minha vida. Esta é mais uma.
Adeus, Joana. Olá, César.