terça-feira, 22 de julho de 2014

É assim Que a Perdes


Yunior, de 'A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao' está de regresso. Yunior é um jovem dominicano que cresce num arrabalde, oriundo de uma família emigrante e dono de uma linguagem cáustica, ordinária, onde os palavrões abundam com naturalidade.

As histórias retratam a perda de amores, relações falhadas, e Yunior, o garanhão dominicano, faz sexo, não, ele não faz sexo, mas eu omito o palavrão, a torto e a direito, engana a namorada, uma, outra e outra vez.

Díaz tem estilo, se tem, não ficamos indiferentes, rimos com os palavrões, porque é assim que falam os machos latinos, e há uma ironia que perpassa pelos vários contos, mesmo quando estão carregados de tristeza (a morte do irmão, o sofrimento da mãe, a sua ligação à Igreja).

«Olhas para as suas pernas incríveis e para o seu entrepernas, para essa ainda mais incrível pópola que amaste de forma tão inconstante nos últimos oito meses. Só quando ela avança furiosa na tua direcção é que tu sais finalmente do carro. Atravessas descontraidamente o relvado, propulsionado pelo derradeiro gás da tua revoltante sinverguënceria. Hey, muneca, dizes, prevaricando até ao fim. Quando ela se põe aos gritos, tu perguntas: Querida, que se passa? Ela chama-te:

brochista
reles filho da puta
intrujão dominicano

Declara que.
tens um pénis pequeno
não tens pénis sequer
e pior do que tudo, que gostas de ratas em caril

(o que é muito injusto, tentas dizer, já que a Laxmi é da Guiana, mas ela não te ouve.)» 


Em Agosto do ano passado fiz uma directa a ler 'A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao' e escrevi este post. Antes, tinha-o descoberto numa colectânea de histórias sobre a infância e adolescência, de Richard Zimler e Rasa Sekulovic, mencionada aqui. O conto de Díaz, intitulado 'Invierno' é repetido em 'É assim Que a Perdes' e foi aqui que me apaixonei pela sua escrita brutal.

Querem saber quem é Junot Díaz: basta escutarem com muita atenção (e darem umas gargalhadas no fim) este conto lido pelo próprio. Sim, reconhecem a personagem? :)


Junot Díaz: 'How to Date a Brown Girl (Black Girl, White Girl, or Halfie)'

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Always look on the bright side of life - Monty Phyton Live

 

E assim terminou o espectáculo 'Monty Phyton Live (mostly), com transmissão ao vivo da Arena 02 de Londres para todo o mundo em diversas salas de cinema. Era previsível este número final, faltava a memorável canção. Comovi-me, claro. Cinco septuagenários que apresentaram os sketches dos MP que todos conhecemos, que vimos na televisão há décadas, que revemos no youtube vezes sem conta e que sabemos de cor. Sim, já não estão na sua melhor forma, enganaram-se em algumas palavras, riram noutras tantas vezes, retomaram os diálogos deixados a meio depois de uns improvisos, mas que importa? São os Monty Phyton! John Cleese, Terry Gillian, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin e Graham Chapman, que apareceu em diversos clipes. Chapman que desapareceu tão precocemente (1941-1989). Quatro décadas após a sua separação - eu tinha meses - juntam-se e trazem Carol Cleveland, uma actriz que participou na maioria dos seus sketches.

E que momentos hilariantes. Chorei a rir, um dos improvisos que mais me deu gozo foi o boneco dos dois juízes gays que, no momento em eles despem a toga e ficam em lingerie feminina, um deles pergunta se foi o colega quem tratou do divórcio do Cleese. 'Qual, um dos quatro, os quatro?' (sem legendas, os improvisos surgiam inopinadamente). Que delícia! :)

Numa justa homenagem a Chapman, brincaram com a sua ausência, intitulando também este espectáculo de 'One Down, Five To Go'.

E, a não ser que Cleese volte a divorciar-se nos próximos tempos e gaste outra pipa de massa - uma das razões pelas quais eles se juntaram, disseram na brincadeira em conferências de imprensa, mas a brincar, a brincar... - esta foi a derradeira oportunidade de os ver a actuar juntos. Um mimo!

domingo, 20 de julho de 2014

Na Terceira Pessoa

Um filme com excelentes actores: Liam Neeson, Adrien Brody, James Franco, Maria Bello. Mila Kunis tem um papel consistente. Olívia Wilde é a amante, jornalista, futura escritora (e que mulher num estonteante Valentino encarnado, capaz de provocar uma síncope do miocárdio ao coração mais saudável); Kim Basinger a ex-mulher da personagem de Liam, um escritor que, num hotel em Paris, escreve o seu próximo romance. Uma história de perdas, traições, enganos, ou melhor dizendo, várias histórias que se desenrolam em simultâneo, tendo como ponto comum a perda de um filho. E no meio tomamos consciência do que está a acontecer, uma ideia muito interessante, que, dado o naipe de actores vencedores, deveria ter sido mais desenvolvida. Achei as personagens masculinas ocas, sem sentido, as femininas são as únicas que manifestam emoção (amor, dor, tristeza). Paul Haggis realiza, a acção passa-se entre Paris, Roma e Nova Iorque, ou assim o deseja o escritor.

E deixei-me de preconceitos contra o cinema do RioSul Shopping, graças à promoção da Promofans. Até ao fim do mês, os filmes estão a 2 €. Raramente o frequentava, pois apanhei algumas desilusões, mas, ou porque o filme não tinha interesse para a miudagem ou porque fui à sessão do fim da tarde, na sala (vá, nada más as salinhas de cinema, quais cine-estúdios, pequeninas e com écrans bastante bons), éramos meia-dúzia de pessoas. E claro, cinema que é cinema tem intervalo. A foto comprova.

O kobo está sempre na mala. A ler 'Dois Mundos - Um Inimigo', do Pedro Xavier. Acabei-o esta noite e gostei muito.

sábado, 19 de julho de 2014

A Verdadeira História de Barbi

 

Cumpriu o esperado. Uma hora de bom humor, na qual três actores interpretam personagens femininas, a Babá, a Tuxa e a Kika, com os seus tiques de 'tias' de alta sociedade, venenosas, ambiciosas e frustradas. Através de um texto corrosivo, de José Pinto Correia, é criticado um estilo de vida fútil, uma falsa moralidade, que vive dos favores, das cunhas, do 'faz-de-conta' e da ostentação.

Passaram mais de vinte anos desde a sua estreia, em Maio de 1993, no teatro Maria Matos, em Lisboa, e o elenco continua o mesmo: F. Pedro Oliveira, Miguel Abreu e Paulo Ferreira.

É a temporada final das tias mais mordazes do país e o último espectáculo é amanhã às 22 horas. Mais informações aqui.

Letras felinas



Tenham um excelente fim-de-semana :)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

O livro do João Roque: Ilha de Metarica - memórias da guerra colonial

Em boa hora o João Roque reuniu as suas memórias do tempo militar neste pequeno livro, editado pela Index ebooks, editora do João Máximo e do Luís Chainho, que li num abrir e fechar de olhos e que eu gostei muito, pois aguardava com muito interesse o seu lançamento.

Dono de um discurso muito intimista, comovente em algumas situações, divertido noutras, pautado por reflexões sobre a guerra colonial, entre exilar-se no estrangeiro e ficar longe da família, e cumprir o serviço militar em África, o João preferiu a segunda e muito difícil escolha. Anos marcantes da vida de um jovem adulto, 'quase quatro anos da minha vida gastos inutilmente; anos importantes, dos 25 aos 29 anos, em que teria feito coisas boas e em que, com certeza, teria definido o meu futuro.' (...) 'Saí da tropa com quatro anos perdidos, é certo, mas munido de algo que não tinha - a capacidade, que desconhecia antes em mim próprio, de resolver questões graves e delicadas.' (...) 'ganhei uma autoestima e um respeito por mim próprio que ainda hoje se mantêm e que muito me tem ajudado ao longo da vida.'

Muitos parabéns ao João Roque, ao João Máximo, ao Luís Chainho, à Patrícia Relvas e, segundo li num comentário no blogue do João, parece que teremos outro livro brevemente. É verdade? :)

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Aristogatos XXXVI




Ainda não passou uma semana e já partilham o sofá. A dormir, o César é um anjinho, um comprido anjinho, como podemos ver, e a Alice suporta-o, tanto que dorme abraçada à cauda amarela :)

As fotos foram tiradas ontem à noite.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Flaca

   'Tu eras a rapariga branca que dançava bachatas, que pertencia às Señoritas Latinas Unidas e que já tinha ido três vezes a Santo Domingo.
   Recordo: costumavas oferecer-me boleia para casa no teu Civic.
   Recordo: à terceira eu aceitei. As nossas mãos tocaram-se entre os assentos. Tentaste falar comigo em espanhol e eu disse-te para parares.
   Hoje falamos um com o outro. Eu digo: Podíamos passar mais tempo com os miúdos, e tu abanas a cabeça. Quero passar mais tempo é contigo, dizes. Talvez na próxima semana, se ainda estivermos bem.
   Isto é o máximo que podemos esperar. Não desistimos de nada, não dizemos nada que possamos recordar durante anos. Olhas para mim enquanto passas uma escova pelo cabelo. Cada fio que se parte é tão comprido como os meus braços. Tu não queres desistir, mas também não queres sair disto magoada. Não estamos no melhor dos barcos, mas que queres que te diga?
   Vamos de carro até Montclair, onde a estrada do parque está quase deserta. Tudo está silencioso e escuro, e as árvores brilham da chuva de ontem. Num dado ponto, a sul das Oranges, a estrada atravessa um cemitério. Milhares de lápides com cenotáfios de ambos os lados. Imagina, digo eu, apontando para a casa mais próxima, que tinhas de viver num sítio destes.
   Aqueles sonhos que tu tinhas, digo eu.
   Estacionamos em frente ao vendedor de mapas e entramos na nossa livraria. Apesar da proximidade da faculdade, somos os únicos clientes, nós e um gato com três patas. Tu sentas-te num corredor e começas a esquadrinhar as caixas. O gato vai directo a ti. Eu percorro a secção de história. És a única pessoa que conheço que consegue passar tanto tempo como eu numa livraria. Uma espertinha; algo que não se encontra facilmente. Quando volto para perto de ti, vejo-te sem sapatos e a arrancar com as unhas calosidades dos pés, enquanto lês um livro para crianças. Eu ponho os braços em volta dos teus ombros. Flaca, digo. O teu cabelo esvoaça e prende-se à minha barba por fazer. Não me barbeio as vezes suficientes, para ninguém.
   Isto pode resultar, dizes. Se a gente quiser.'


Junot Díaz, É assim Que a Perdes, Relógio D'Água, 2013.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Teco Sem-Rabo

Na sequência deste post do Horatius, o primeiro livro que recordo de ter foi uma prenda da minha mãe. Teria uns seis anos e o livro, uma banda-desenhada infantil, claro, chamava-se, se não estou em erro, 'Teco Sem-Rabo na feira popular''.

Lembro-me da capa, mas não posso confirmar se era, de facto, este o título correcto. Encontrei-a neste site, apenas, não há outra imagem em páginas portuguesas.

Fazia parte de uma colecção do Círculo de Leitores. O meu irmão recebeu o 'Teco Sem-Rabo arranja um amigo'. Se não me falha a memória - afinal, já passaram mais de três décadas -, o cachorro chamava-se Max. Aqui está a foto da capa e o link do sítio da literatura infanto-juvenil onde o encontrei.

Memórias de 1979... :)

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Morte em Pleno Verão e outros contos

 
 Comprei o pequeno livro 'Morte em Pleno Verão e outros contos', de Yukio Mishima, na Feira do Livro de Lisboa deste ano. Aliás, comprei vários livros deste autor.

Que escrita maravilhosa. Não há outro adjectivo. Delicada, todavia de uma grande força e capacidade de nos mergulhar nas emoções das personagens.

Este livro reúne três contos: 'Morte em Pleno Verão', 'Patriotismo' e 'Onnagata'. A primeira história centra-se à volta de Tomoko e Masaru, um casal que perde os dois filhos mais velhos, um menino e uma menina, de seis e cinco anos, respectivamente, juntamente com a cunhada Yasue. Yasue era irmã da Masaru e tomava conta das crianças; sem sucesso, tentou salvá-los e, igualmente, perdeu a vida. Culpa, revolta, tensões que surgem no casal e a necessidade de proteger a todo o custo o filho sobrevivente, Katsuo, de três anos, são sentimentos que afloram constantemente em Tomoko. Mas aos poucos, à medida que o tempo passa, o esquecimento da tragédia começa a surgir, cobrindo a dor de Tomoko, e a sua recente gravidez ajuda a mitigar a sua dor.

O meu conto preferido é 'Patriotismo'. Mishima desenvolve uma história absolutamente magistral! Um jovem tenente comete seppuku e a sua esposa acompanha-o. Face a uma revolta, o militar recusa-se a combater e prefere morrer pela pátria, pelo imperador. Cientes de que não há outra saída, encaram a morte com naturalidade, com alegria, até, cumprindo os rituais com determinação. Amam-se, sabendo que será a última vez. 'O tenente puxou a mulher e beijou-a com violência. As línguas misturaram-se na húmida e lisa caverna das bocas; as dores ainda desconhecidas da morte exacerbavam-lhe os sentidos, do mesmo modo que o fogo tempera o aço. As dores que ainda não sentiam, os longínquos horrores da agonia, tornavam mais aguda a sua percepção do prazer'.

Por fim, temos 'Onnagata'. É um conto maravilhoso e conta a história de Masuyama, que ficara fascinado por esta arte de teatro, em que um actor interpreta sempre papéis femininos. Temos, assim, Mangiku como o actor por quem Masuyama se deslumbra.  Mangiku é belo, delicado, incapaz de representar papéis masculinos com sucesso. A sua expressão feminina transmite toda uma miríade de emoções humanas. Um conto que termina de uma forma surpreendente, entre desilusões e ciúmes.

À semelhança do jovem tenente da história, também Mishima cometeu seppuku.

Cinco estrelas no Goodreads e aconselho vivamente a sua leitura.

domingo, 13 de julho de 2014

César, o imperador das alturas

 No armário da cozinha

 No estúdio do 'quarto dos gatos'

 Na estante da sala


Chegou há dois dias e já conquistou três locais. Veni, vidi, vici.

O César do tio Camilo



Esta é a última história do meu livro 'Instantâneos - fragmentos de memória'. Podem ler as restantes 41 aqui.

'Instantâneos' é publicado pela Index ebooks. Mais informações aqui.