sábado, 30 de agosto de 2014

Velha sabedoria

'Os que vão para fora e regressam não se sentem melhor por terem ido à aventura, bem pelo contrário, enganam-se, porque não perceberam a velha sabedoria de que não é possível fugir de si próprio.'

Henning Mankell, A Leoa Branca, p. 288.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Intervalo

   Naquela sala, fazia os deveres, sentada numa cadeira de rodas de madeira. A secretária era de madeira escura, com três gavetas. De vez em quando, no meio de uma tabuada, girava o corpo. Todos os dias havia uma tabuada. Engraçou na dos sete, por se lembrar da brincadeira ‘sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, sete macacos…’ Levantou um pouco a cabeça quando a campainha tocou. Três e meia. Intervalo da tarde. Tinha aulas de manhã ali em frente, no Magistério Primário. Não, naquela altura, já não se chamava Magistério Primário, mas hoje ainda ainda usa essas palavras. Ali, estudou da primeira à quarta classe. Foram cinco anos, contando com a pré-primária.
   Achou que, tal como os outros meninos, merecia um descanso. Abandonou a secretária, disse à D. Elizete, a mãe estava noutra parte do Laboratório, que ia para o jardim. A D. Elizete ocupava um grande espaço atrás da secretária em frente à sua, era uma senhora gorda dentro de uma bata branca e tinha uns óculos redondos e grandes, que lhe ocupavam grande parte do seu rosto corado. Ela acenou com a cabeça, sorriu e voltou ao mapa enrolado no carreto da máquina de escrever Mesa. A alcatifa cor de rato abafou os seus passos, mas caminhava devagar, consciente de que era o serviço da mãe, não podia fazer barulho, e na sala em frente estavam os seus chefes. Os dois médicos veterinários apanharam-na um dia na cave do Laboratório, sítio proibido, que cheirava a clorofórmio ou parecido. Faziam as autópsias ali. Ficou assustada com os olhares deles, mais do que com as suas vozes, ao ordenarem que subisse e nunca mais ali fosse.
   Assim, passou em frente da sala deles, desceu as escadas, deslizou pela porta de vai-vem, desceu os degraus de granito e virou à direita. Ouvia as crianças a gritarem. Gritos, risos, que ecoavam do alto, por entre as frondosas tílias, e começou a falar sozinha. Encostou-se ao muro de tijolos cor-de-laranja e espreitou para a rua. Os carros passavam, as vozes chegavam, agudas, e ela respondia que estava ali e que queria brincar com eles. Afastou-se, insatisfeita, virou-se para os canteiros e agarrou numa flor. ‘O teu pai é careca?’, murmurou. Depois, soprou. O suave algodão soltou-se. Desconhecia que era um dente-de-leão. Para sempre, até hoje, é ‘o-teu-pai-é-careca’.
   Baixou-se, agarrou numa pedra e desenhou uma macaca. Um quadrado, outro, mais dois lado a lado, mais outro… Numerou-os, atirou a pedra para o quadrado número um e, ao pé-coxinho, o pé esquerdo no chão, a perna direita encolhida, começou o jogo.
   A mãe surgiu na entrada, deu-lhe um pão com marmelada embrulhado num saquinho de pano, como um envelope, e uma garrafa de sumo de laranja, verde escura com letras brancas gravadas no vidro, já aberta. A carica?, lembra-se de perguntar. A mãe enfiou a mão no bolso da bata, tirou-a e depositou-a no bolso do peitilho das jardineiras. Tinha as mãos ocupadas, a boca cheia com pão, mas quando queria agradecer já a mãe voltara para dentro. 
   Sentou-se no banco de madeira, balançando os pés, enquanto mastigava o pão com marmelada e bebia goles de laranjada. Quando acabou, poisou o envelope do lanche e a garrafa no banco, sacudiu as migalhas e tirou a carica do bolso. Procurou a pedra, apagou a macaca do chão e desenhou uma pista comprida e curva como uma cobra. Escreveu a palavra partida numa ponta e meta na outra e colocou a carica no início. Ajoelhou-se, o polegar segurou o dedo indicador, largou-o e a carica deslizou na terra batida. ‘Ali vai ela, em primeiro lugar, uma curva apertada, uma rasante, mas conseguiu! Ganhou! Ganhou!

domingo, 17 de agosto de 2014

Viseu VI

Há uns dias, no âmbito destes pequenos textos sobre Viseu, mencionei que gostaria de trabalhar num local. Pois chega a hora de vos mostrar: é a Casa do Miradouro. A Casa do Miradouro, requalificada pela Câmara Municipal de Viseu, é um palácio quinhentista e alberga a colecção arqueológica 'Dr. José Coelho, A Paixão pelo Passado' (aconselha-se a visita à página da C.M. de Viseu, aqui).

Esta exposição pretende revelar o importante legado de um dos percursores da arqueologia de Viseu e está patente em três salas. A primeira sala é dedicada à sua vida e obra: Dr. José Coelho, Vivências e Percursos, mostrando um espaço intimista, humano, sentido. A segunda sala é denominada As escavações arqueológicas: o cuidado com o pormenor, dando-se a conhecer as principais intervenções arqueológicas efectuadas pelo arqueólogo e explica-se como estas foram determinantes para o estudo da pré e proto-história da região. Na sala 3, expõe-se um vasto conjunto de peças arqueológicas, algumas por ele encontradas, outras oferecidas, que reflectem, sobretudo, uma tremenda curiosidade e uma atenção permanente a tudo e a todos os que o rodeavam.

Este espaço pertence à C.M. de Viseu, estando integrado na rede municipal de museus (este é um texto adaptado do folheto da exposição). Aconselha-se a leitura das páginas dedicadas a esta exposição no site da C.M. de Viseu, aqui.

No jardim da Casa do Miradouro, fui recebida por um simpático gato preto. Vénia, bichano :)


Apresentam-se algumas fotos da exposição e da vista da varanda. Por alguma razão se denomina Casa do Miradouro. Não é um local de sonho para trabalhar? ;)

Antes da exposição, patente no primeiro andar, junto às escadas, recebe-nos esta lápide evocativa:

Lápide evocatia: lápide com inscrição latina primitivamente colocada numa das portas da cerca gótica (século XV) da cidade de Viseu, que foram demolidas entre finais do século XIX e inícios do século XX.

A lápide evoca a proclamação de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira do reino de Portugal, após a Restauração da Independência, por iniciativa de D. João IV nas cortes de Lisboa de 1646.

A lápide recorda-nos a luta de José Coelho pela preservação das portas e troços da muralha da cidade, atestada em numerosos textos publicados até 1950 (excerto do texto informativo).








Desafio-vos a conhecerem a minha cidade e esta magnífica Casa do Miradouro.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Viseu V

Quero regressar à minha cidade. Desde há duas semanas que desejo isso. Cada vez mais. É uma ideia que está a criar raízes. Implica uma grande mudança na minha vida, sem dúvida. Uma coisa é ir de férias, outra é mudar-me de vez. Aos dezoito anos, o que ansiava mais era sair de lá. Fi-lo, não sem custo. Era muito ligada à minha mãe e os primeiros anos foram difíceis. Depois, acostumei-me a Lisboa, ao bulício, às multidões, adoro Lisboa. Mas eu não vivo em Lisboa. Diabo, nem sequer trabalho em Lisboa. Para chegar ao meu serviço, demoro mais de uma hora. Isto é, a contar da hora em que saio de casa, 7:05. Marco o cartão do relógio de ponto às 8:25 (mais ou menos, se não houver trânsito na A5). Que qualidade de vida é esta? Passo o tempo em transportes. Chego a casa depois das 7 da noite, isto quando não fico por Lisboa para um programa, cada vez mais raro. No dia seguinte, o despertar é antes das 6.

Estou cansada. Escolhi esta terra, Seixal, por a minha mãe aqui viver depois de vender a casa de Viseu. Mas, com excepção de uns familiares chegados, nada me liga ao Seixal. É bonita, calma, mas é só isso (e nem vivo no Seixal, a minha freguesia é a Arrentela).

Mudar-me para Viseu implica pedir a mobilidade para um serviço de lá. Sou funcionária pública, da administração central, pelo que teria de enviar uma candidatura espontânea (ou concorrer a um pedido de mobilidade, se tal for publicado no Diário da República, como fiz para o actual serviço onde estou, há cinco anos). Esse será o primeiro passo. Não sei se demorará muito ou pouco tempo. Não faço a mínima ideia, de facto. Parece que todos os pedidos têm de ter o aval da Direcção-Geral do Orçamento, embora não haja verba extra, apenas mudança de orçamento de Ministério. Se encontrar trabalho, o segundo passo será colocar esta casa no mercado de arrendamento. Conversei com a minha irmã. Foi a única pessoa com quem falei mais a sério.  Aconselhou-me a arrendar a casa e não a vender. Desde que comprei esta casa, ela mudou cinco vezes de casa, sempre arrendada. Eu conseguiria arrendar o andar mobilado por 350 €. O mesmo valor de um apartamento T2 mobilado, como o meu, no centro da cidade de Viseu. Melhor seria se encontrasse um trabalho ao lado de casa :)

Claro que só conheço o centro de Viseu. As novas urbanizações são-me totalmente desconhecidas. Há novas ruas que nem no Google Earth consigo visualizar. Nunca lá passei. E essa zona já é cidade. Tudo cresceu. Mas o centro ficou igual, a minha cidade renovou-se. Certamente que há prédios que precisam de obras, e muitos, o antigo trabalho da minha mãe está fechado há anos e fica numa rua central da cidade. Um enorme casarão, com jardim, estacionamento, cave, primeiro andar e sótão. Lindo, sóbrio e abandonado. Fechado. Não sei se pertence à Câmara se a privados. Enfim, foi um aperto no coração quando passei por lá.

Apesar disto, Viseu é uma cidade jovem, linda, verdejante, rica em cultura, história. E Lisboa, de tanta oferta, uma pessoa dispersa-se e acaba por não ver grande coisa. E eu também não desejo muita coisa: um teatro, uns museus, passeios, enfim, o normal.

Eu sou uma pessoa sossegada, quero paz, qualidade de vida, respirar ar puro e voltar às minhas raízes, pois sei que a minha vida não é aqui.

Será 2015 um ano de mudança?

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Such a perfect day

O dia corre devagar. Não há planos. Passei a manhã a ler 'Manhattan Transfer'. O César acompanha-me, as gatas preferem a poltrona.



Almoço: massa com atum, abóbora e courgette. Não sou grande cozinheira, mas não morro de fome. Para a sobremesa, um batido de maçã.


À tarde, cinema. Estreia aqui no centro comercial o novo filme da Helen Mirren, 'A Viagem dos Cem Passos'. Vi a apresentação. Gostei.

Deslizam de mansinho estes últimos dias de férias. Oficialmente, hoje é o último. Para a semana, recomeço a labuta.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014



Lídia

A Lídia é exactamente como a tinha imaginado: doce, delicada e muito simpática. Recebeu-me com um grande sorriso e um abraço que me comoveu e fez-me sentir como se fôssemos amigas há muito tempo. É extraordinário o poder da blogosfera, através dela, conheci pessoas fenomenais. A Lídia comenta no blogue do Miguel, foi aí que comecei a lê-la, depois em outros blogues, mas no innersmile a Lídia encontrou, como eu, porto seguro.

Foi com um imenso orgulho, orgulho na instituição onde trabalha há tantos anos, profissionalíssima, ocupando um lugar de destaque - e com uma vista linda sobre Lisboa - que a Lídia me mostrou as instalações, apresentou-me os seus colaboradores, colegas e conversámos, conversámos muito. Depois, fui ao dentista (que, coincidência, fica ao lado do trabalho da Lídia), e combinámos que nos reuniríamos novamente após a consulta, para terminar o dia em beleza.

Esqueci-me da anestesia e da boca dorida, na companhia da Lídia. A conversa fluiu, entre um chá e bolinhos de queijo dos Açores, depois de outra visita guiada. Tal como aconteceu de manhã, fomos acompanhados pelo funcionário responsável pela respectiva área de trabalho. Como eu adoro livros, frisava a Lídia, não poderia deixar de conhecer um acervo espectacular.

E assim conheci a Lídia. A pequena, enorme Lídia, que me recebeu de braços abertos, com um doce sorriso e que me ofereceu este lindo gato de porcelana.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O dia em que Júpiter encontrou Saturno (nova história colorida)

   - Vou tomar chá de ayahuasca e ver você egípcia. Parada ao meu lado, olhando de perfil.
   - Vou tomar chá de datura e ver você tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol.
   - Vamos nos ver?
   - No teu chá. No meu chá.
   (Silêncio)
   - Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.
   - Quando estiver muito quente, me dará uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com você.
   - Vou te escrever carta e não mandar.
   - Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir.
   - Vou ver Júpiter e me lembrar de você.
   - Vou ver Saturno e me lembrar de você.


Caio Fernando Abreu, Morangos Mofados, ebook.

domingo, 10 de agosto de 2014

Viseu IV

Do adro da Sé, é um pulinho até ao Rossio, onde está um bonito painel de azulejos.


Construído em 1931, constitui-se como um apelativo painel em tintas azuladas, do azulejo fabricado em Gaia, fazendo o enquadramento da Praça do Rossio e criando uma ambiência festiva e convidativa ao lazer. Joaquim Lopes (1886 - 1956) soube captar neste friso azulejar a vivência própria da cidade e das suas gentes num tempo em que se vivia gostosamente. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

No Rossio, temos acesso a vários parques. Assim, mesmo ao lado do painel de azulejos, encontra-se o lindíssimo Jardim da Mães.


Um simpático espaço ajardinado que recebe o toque afectuoso de um menino que dorme no colo de sua mãe, que o escultor Oliveira Ferreira soube captar num bronze artístico e de singular beleza, homenageando desta forma a terra de sua mãe.

Do outro lado do Rossio, podemos apreciar outro jardim, o Jardim Tomás Ribeiro.


A deslado do Rossio, contra a fachada poente da Câmara Municipal, o Jardim Tomás Ribeiro, recentemente renovado, oferece-se à cidade como um local ajardinado, de sossego, com um recanto mais intimista e que desta forma romântica homenageia Tomás Ribeiro. Um espaço também de encontro entre convivas, onde nos podemos demorar e observar como a cidade vive. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).

O Parque Aquilino Ribeiro, local onde passei tanto tempo em criança, estende-se no outro lado da Praça do Rossio. Naquele tempo, existia uma biblioteca infantil, com o mesmo nome do ilustre escritor, que foi um dos meus locais preferidos.

 
O Parque Aquilino Ribeiro, vulgarmente chamado Parque da Cidade, apresenta-se como um aprazível espaço de fruição da Natureza. Um parque onde existem grandes árvores, diversas espécies botânicas, lago e zona relvada, tendo feito parte da quinta do antigo Convento de St.º António dos Capuchos (doado aos franciscanos em 1635). No parque, pode ainda visitar-se a Capela de N.ª Sr.ª da Vitória (século XVII) e observar-se a estátua de João de Barros. (texto retirado do site da C.M. de Viseu, aqui).