quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O conto do Mark

   Quando Me Lembro De Ti

   Levanto-me devagar da cama e caminho até à janela. Olho para a rua iluminada pelos candeeiros. A noite caiu de repente, acompanhada por uma chuva grossa. Tremo, embora o quarto esteja aquecido. É como se o frio do outono atravessasse as frinchas e se instalasse dentro de mim. Na estante junto à janela, agarro no comando e subo a temperatura do ar-condicionado. Esfrego os braços, gelado.
   Nestas noites cinzentas, penso demasiado em ti. Içaste a âncora e rumaste para o sul, sem peias. E eu? Bem, as minhas amarras são demasiado grossas para o barco vogar no mar encapelado que é a vida. Estas quatro paredes são o meu porto de abrigo.
   Perante a insistência deles, Sejamos práticos, que a vida não se compadece com sonhos, encolhia os ombros. De todas as vezes.
   Naquele dia, encostado a um canto da sala, tu observaste a minha inércia e crispaste os lábios, zangado. Na ausência de uma palavra minha, apertaste as mãos, rangeste os dentes e viraste-me as costas. Comportamento leviano, disseram eles, com um sorriso cruel.
   Fora demasiado para ti; era normal para mim. A vida toda ouvira as mesmas palavras. Permaneci sentado muito direito. No silêncio da sala, dei-me conta que desapareceste de vez da minha vida.
   Resignei-me há muito tempo. No vidro embaciado, desenho uma grade, quatro traços na vertical. Repito o gesto, engrossando-os. Suspiro.
   Quando me lembro de ti, estás a galgar vagas encrespadas, qual capitão intrépido. Sorrio, melancolicamente, e afasto-me da janela.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O conto do Miguel

   Uma vida roubada

   Estancou. Agarrou na camisola como se, com esse gesto, apertasse o próprio coração. Fechou a mão com força, os nós dos dedos tornaram-se brancos, salientes, a mão cadavérica tremendo. Lágrimas afloraram nos olhos baços. Pregas de pele pendiam do rosto. Via-se ao espelho do salão do hotel, não se reconhecia. Quem era ele? Como tinha ali chegado, quantos anos tinha?
   O homem surgiu no espelho. A voz suave roçou-lhe nos ouvidos:
   - Vamos, Pai.
   Pai? Virou a cabeça e mirou o estranho. Quando fora pai? Quando amara para ter um filho, quando o embalara, embevecido?
   Como tinha mirrado tanto? Tinha de esticar o pescoço para poder olhar aquele grande homem. Houve um tempo, sim, recordava-se, que era alto, tão alto que tinha de baixar a cabeça sempre que entrava em casa, para não bater na trave da entrada. Quando deixou de bater? Quando é que a sua vida começou a encolher, a cabeça a sobrar?
   Tantos espaços vazios dentro de si tinha agora.
   - Onde vamos? – perguntou, por fim.
   - Trouxe-o para almoçar, Pai. Lembra-se? Era aqui que costumava trazer a Mãe todos os anos, no seu aniversário.
   - A Mãe está aqui? – ainda tremia.
   Cinco anos passados e ele repetia a mesma pergunta.
   - Está, filho? A Mãe está aqui?
   Entraram na sala de jantar. Parou, assustado. Ao longe, uma mesa de dois lugares, com um arranjo de rosas brancas ao centro.
   Recordou-se, por fim. Chorando, murmurou:
   - A minha vida, filho. Roubaram-me a minha vida…

domingo, 2 de novembro de 2014

Bette Davis 2014 - o meu conto

   No céu há sereias, tia?

   Durante a cerimónia, o menino permanecera de cócoras, brincando com os crisântemos da jarra à sua frente. De vez em quando, murmurava algo baixinho e eu baixava os olhos.
   Ele pedira para vir comigo e, apesar das longas horas de viagem, acedi.
   Depois, ficámos junto à campa uns momentos. Ele olhava as fotos e perguntava que eram. Os bisavós e a avó, respondi, dizendo os nomes. Ele apertou-me a mão com força e eu contive as lágrimas.
   Eram horas. Tínhamos de regressar a casa. Despedimo-nos dos familiares e partimos.
   No carro, estranhei o silêncio do meu sobrinho, normalmente uma criança bem-disposta e tagarela.
   - No céu há sereias, tia?
   A pergunta apanhara-me de surpresa.
   - Sereias, meu amor? – inquiri. Pensei na conversa que tínhamos tido nessa manhã, sobre os bisavós e a avó e aquele dia.
   - Sim, ali – virei a cabeça. Ele tinha o dedo encostado ao vidro. – No céu, além – repetiu, concentrado.
   Olhei para cima. A nuvem esticava-se como um pedaço de algodão-doce e terminava num fiapo quase transparente.
   Tentei adivinhar a forma de uma sereia. Com uma barbatana de escamas que resplandecia ao pôr-do-sol, a sereia estava sentada numa rocha coroada de espuma, penteando os longos cabelos molhados.
   Sorri, por fim, afastando a tristeza.
   - Sim, meu querido. Está ali uma sereia, sentada na nuvem, com uma barbatana brilhante. Também a vês?
   - Vejo, sim, tia! Ela está a sorrir e a dizer-nos adeus! Adeus! - acenou, encantado.
   - Adeus! – exclamei, rindo.

- - - - - 

E assim, dou início à terceira edição do 'Bette Davis - Contos das 250 palavras'. A fórmula é a mesma. Se quiserem participar, dão-me um título até cinco palavras e eu escrevo um micro-conto com 250 palavras, incluindo o título. :)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Negócios de César

"BISPO
   Verdade. Pelos frutos é que se conhece a árvore. O Cortiçal, antes de si, era um meio pacífico e obediente. Hoje, é um fervedoiro de divisões e hostilidades. Minto?

PADRE MARTINHO
   (Rígido.) Com todas as minhas imperfeições e impotências, mais não fiz do que seguir o apelo de Cristo: «Tive fome e deste-Me de comer, tive sede e deste-Me de beber, era peregrino e recolheste-Me, estava nu e vestiste-Me, enfermo e visitaste-Me, prisioneiro e vieste ver-Me.»

BISPO
   (Irritado.) Esse é o programa de todos nós. Mas o senhor fomentou a rebeldia, atirou os operários contra os patrões, os camponeses contra os donos da terra! Acha que serviu assim a Igreja? As queixas que, por causa da sua conduta, tenho aqui recebido são um nunca-acabar: o padre Martinho destroçou a paz do Cortiçal.

PADRE MARTINHO
   (Triste, gravemente.) Vivemos num país em que, como disse Sua Santidade João XXIII, «às condições de extrema miséria de muitíssimos se opõe, em gritante e ofensivo contraste, a abundância e o luxo desenfreado de poucos privilegiados». Num país em que «enorme percentagem do rendimento é absorvida para fazer valer ou alimentar um mal entendido prestígio nacional». Como poderá um sacerdote de Cristo acomodar-se e manter uma paz destas? Sem trair? Sem trair a Cristo Nosso Senhor?! Sim, é verdade: Eu levei a desordem ao Cortiçal.

BISPO
   Tomou parte em actividades políticas.

PADRE MARTINHO
   Lutei pela justiça.

BISPO
   (Gelado.) Chegámos ao fim desta audiência.

PADRE MARTINHO
   Mas eu protesto, senhor Bispo! Porque é que só ouvem a voz dos ricos? Os pobres também falam e devem ser escutados.

BISPO
   Mais nada, padre Martinho. A Igreja considera prejudicial a sua presença no Cortiçal. Pelo menos na hora que este país atravessa. Mais que nunca se deve dar a César o que é de César e a Deus o que for de Deus: O padre Martinho - contra a minha orientação! - meteu-se nos negócios de César, pessoalizou coisas que nunca deviam ter sobressaído da atitude geral e sempre prudente da Igreja, desrespeitou a hierarquia. Sobejas razões estas para que seja retirado dessa paróquia. Para que, afastado, medite, estude e cuide de se moderar. A seu favor, tem a juventude. (Levanta-se.) Adeus, padre Martinho."

pp. 38-40.

Bernardo Santareno, A traição do padre Martinho, Edições Ática, 1973, 3.ª edição (1.ª edição, 1969).

domingo, 26 de outubro de 2014

Desafio literário XII


Três, quatro e cinco estrelas no Goodreads, mas a maior parte quatro e cinco. E se houvesse pontuação mais alta, sem dúvida que seria dada a uns quantos. Duas * ao livro 'A Caminhada', recheado de lugares-comuns, sobre um executivo que perde tudo (a mulher, o negócio, a casa), e resolve ir de Seattle à Florida a pé. 

Basicamente, é isto que eu tenho feito nos últimos tempos. Cinema, teatro, exposições? Não, nada. Livros, caminhadas (ahah!), à beira-rio, visitas à biblioteca, onde retiro uns quantos das prateleiras, faço uma pilha, leio umas páginas, escolho dois ou três (ou quatro, como este sábado) para ler em duas semanas (se necessário, renovo), enquanto que em casa tenho um monte simpático de comprados, oferecidos e emprestados para ler.

sábado, 25 de outubro de 2014

Deus

A propósito do poema de Ruy Belo que publiquei ontem, somos sempre olhados, sempre. Seja por deus / igreja católica (ou outra), seja pelos outros. Mas o peso de algo divino é o que terá mais valor, penso eu, mesmo que nos afastemos ao longo da vida. Podemos não orar, a missa pode não contar com a nossa presença, mas o que subsiste será a crença no divino.

Assim, ou há um afastamento total e a pessoa se torna ateia, e no futuro, nada é inculcado aos seus filhos (isto se os tiver), ou continua a crer numa entidade superior, benevolente ou castigadora, consoante a interpretação que se queira fazer.

E todas as inquietações, questões, dúvidas, fazemo-las no nosso íntimo. 'Somos sempre olhados' somos nós, quando duvidamos, questionamos, aceitamos.

Bom, este blogue não é canto para questões metafísicas. Apenas associei o poema ao catolicismo e à igreja. Certo é que ainda há muitos passos para dar, pese embora o esforço do Papa Francisco para mudar os comportamentos. Sabemos bem como as mentalidades perduram e o facto de o Sínodo dos Bispos não ter aceite o acordo sobre o divórcio e os homossexuais é um bom  exemplo.

Para terminar, deixo-vos com um excerto de uma peça de Bernardo Santareno, incluída no livro 'Os marginais e a revolução', publicado em 1979.

 A peça é 'A confissão' e tem como protagonistas, neste caso (porque há mais duas mulheres), um padre e um travesti, uma mulher no corpo de um homem, a que só falta, apenas, ser operado.

"CONFESSOR
Entre os pecados do homem, o pecado contra a natureza, o pecado nefando, é um dos piores. Lembre-se de que, em todo o Evangelho, não há uma palavra, uma só!, com que Deus queira lembrá-lo. É o silêncio absoluto, infinito, eterno. E Jesus perdoou à prostituta Maria Madalena!

FRANÇOISE
Jesus tapa o nariz, cerra os olhos e esgueira-se muito ligeiro para que eu não lhe toque: Antes o leproso, não é? O Padre diz que Ele me ama... Que raio de amor!? Em toda a eternidade, não teve uma palavra, uma única palavra para me dizer! É o silêncio mais negro: Aquele silêncio que contém todas as recriminações, todos os castigos, todas as acusações, todos os desprezos! Está-se nas tintas, o Cristo: Encolhe os divinos ombros, faz vista grossa, pira-se! Que raio de amor!?...

CONFESSOR
Pschiu! Fale mais baixo. Está a blasfemar. Vá-se embora! Volte amanhã ou outro dia em que esteja mais calmo. Assim não posso...

FRANÇOISE
Tem de poder, Padre! Agora, vai-me ouvir até ao fim. É hoje que eu preciso de si, é hoje que eu quero a absolvição! Estou desesperado, já não sou homem nem mulher, sou um aborto, um monstro! Tem de me absolver hoje, agora! O Padre quer recusar-me um sacramento?! (Pausa. Exausto.) Deus abandonou-me... (Num arranco de alma:) Mas eu não tenho culpa! Já quando era pequeno, com dois ou três anos, a minha mãe me chamava a sua «menina»... mais tarde, na escola, todos os miúdos me gritavam aquele «maricas!» que tanto me fazia doer... E eu todo ferido, a sofrer, sem compreender nada...! Que culpa tive eu, diga-me Padre? Depois, na padaria... Esquecia-me de lhe dizer que estive empregado numa padaria, entre os doze, treze anos... Na padaria, todos os fregueses me chamavam a «padeirinha de Aljubarrota!» A loja ficava perto de Alcobaça, em Aljubarrota. Era eu a «padeirinha de Aljubarrota»! Depois... depois vim para Lisboa e, num instante, fiquei a «bela Françoise»! Tive amigos influentes, ensinaram-me muitas coisas, instruiram-me, fiz exames, aprendi francês e inglês... mas depois vieram os chulos. Habituei-me à crueldade dos chulos. Não sei viver sem um. (Silêncio dorido.) Mas tudo isto é letra morta para si, Padre: Não vem no Evangelho. Deus teve vergonha. (Gargalhada nervosa.) E eu que vim aqui, a esta igreja, pela primeira vez, porque me disseram que o senhor era um bom confessor, muito compreensivo! Isto é o carnaval, é o carnaval da minha vida que continua... ! (Riso estridente.)

CONFESSOR
Pschiu! Cuidado, fale mais baixo, não faça escândalo!?...

FRANÇOISE
(falando alto)
E porque não hei-de fazer? Eu sou o escândalo! Porque não hei-de gritar a verdade?...

CONFESSOR
(furioso)
Porque eu não quero, porque eu lhe proibo...!"

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Teoria da presença de deus


Somos seres olhados
Quando os nossos braços ensaiarem um gesto
fora do dia-a-dia ou não seguirem
a marca deixada pelas rodas dos carros
ao longo da vereda marginada de choupos
na manhã inocente ou na complexa tarde
repetiremos para nós próprios
que somos seres olhados

E haverá nos gestos que nos representam
a unidade de uma nota de violoncelo
E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura
com os ao longe por muito tempo estudados
perfis do monte mário ou de qualquer outro monte
o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Um quarto as coisas a cabeça

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida
à volta da cabeça pronta a rebentar
mesmo que fossem quatro apenas as paredes
quatro paredes são demais para uma vida
e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade
pura pura negação da vida três palavras onde
se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar
e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal
há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo
que substituo por razões de métrica mas são palavras como
por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância
coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa
e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida
que não leva talvez gravata mas que tem vida privada
gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho
e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ó meu deus
ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida
Talvez haja a janela haja árvores e céu
talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor
que talvez una uns com os outros estes dias
talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída
Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?
Sempre entre mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras
e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas
mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida
onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano
e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe
é mãe por profissão por pose pela posição da tão tonta cabeça
multiplicada pelas capas das estúpidas inúmeras revistas
forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real
cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa
criança que se sabe quantos quilos pesa que cor tinha
a primeira e menos metafórica das merdas que cagou
e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional
como marido inteiramente a par das regras da mulher
meu deus que merda metafórica esta merda desta vida
E ter eu de passar a vida à procura da chave
e procurar abrir e não saber da chave
e não existir nunca porta ou chave
e chave ser palavra ambígua ter sentido
e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos
e a vida ser só uma e ser a vida
e haver mãos para as coisas gestos para as mãos
e não haver que porra uma saída
E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista
e tudo quanto faço interpretado e comentado
e haver nomes e eu ser isto e não aquilo
e eu sentir-me em nomes encerrado
Quero dormir não ter esta doença de pensar
estender-me sob o céu o mais possível ao comprido
e que bastante terra cubra o meu comprido corpo
e eu seja terra apenas e a terra nada seja
Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só
para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

Ruy Belo, Transporte no Tempo

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Liberdade

'Nunca se pode ser tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se teme, quiçá tanto quanto se vive. Médico, alquimista, pirotécnico, astrólogo, envergara resignadamente a libré do tempo; deixara o mundo impor ao seu intelecto alguns entorses.' - p. 138.

sábado, 18 de outubro de 2014

Génese e desenvolvimento do poema

Vozes vizinhas vindas da infância
através do sotaque de quem fala aqui ao lado
o sol inexorável sobre as águas
pressentimentos vindos com o vento
a velha fortaleza a vista da baía
a maré cheia a tarde as nuvens o azul
memória disto tudo noutro verão noutro lugar
e pelo meu olhar visivelmente vitimado
tudo possível pela mesa e pela esferográfica
pelo papel desculpa ó minha amiga pelo bar
a solidão assegurada pela multidão
a luz a hora as férias o domingo
o cruzeiro de pedra o largo o automóvel
tudo isto não importa importam só
as mínimas e únicas palavras que me ficam disto tudo
e tudo isto fixam: «tempo suspenso» ou «mar imóvel»
ou «sinto-me bem » ou - que sei eu? - «alguém morreu»

Ruy Belo, Transporte no Tempo