A propósito do poema de Ruy Belo que publiquei ontem, somos sempre olhados, sempre. Seja por deus / igreja católica (ou outra), seja pelos outros. Mas o peso de algo divino é o que terá mais valor, penso eu, mesmo que nos afastemos ao longo da vida. Podemos não orar, a missa pode não contar com a nossa presença, mas o que subsiste será a crença no divino.
Assim, ou há um afastamento total e a pessoa se torna ateia, e no futuro, nada é inculcado aos seus filhos (isto se os tiver), ou continua a crer numa entidade superior, benevolente ou castigadora, consoante a interpretação que se queira fazer.
E todas as inquietações, questões, dúvidas, fazemo-las no nosso íntimo. 'Somos sempre olhados' somos nós, quando duvidamos, questionamos, aceitamos.
Bom, este blogue não é canto para questões metafísicas. Apenas associei o poema ao catolicismo e à igreja. Certo é que ainda há muitos passos para dar, pese embora o esforço do Papa Francisco para mudar os comportamentos. Sabemos bem como as mentalidades perduram e o facto de o Sínodo dos Bispos não ter aceite o acordo sobre o divórcio e os homossexuais é um bom exemplo.
Para terminar, deixo-vos com um excerto de uma peça de Bernardo Santareno, incluída no livro '
Os marginais e a revolução', publicado em 1979.
A peça é '
A confissão' e tem como protagonistas, neste caso (porque há mais duas mulheres), um padre e um travesti, uma mulher no corpo de um homem, a que só falta, apenas, ser operado.
"CONFESSOR
Entre os pecados do homem, o pecado contra a natureza, o pecado nefando, é um dos piores. Lembre-se de que, em todo o Evangelho, não há uma palavra, uma só!, com que Deus queira lembrá-lo. É o silêncio absoluto, infinito, eterno. E Jesus perdoou à prostituta Maria Madalena!
FRANÇOISE
Jesus tapa o nariz, cerra os olhos e esgueira-se muito ligeiro para que eu não lhe toque: Antes o leproso, não é? O Padre diz que Ele me ama... Que raio de amor!? Em toda a eternidade, não teve uma palavra, uma única palavra para me dizer! É o silêncio mais negro: Aquele silêncio que contém todas as recriminações, todos os castigos, todas as acusações, todos os desprezos! Está-se nas tintas, o Cristo: Encolhe os divinos ombros, faz vista grossa, pira-se! Que raio de amor!?...
CONFESSOR
Pschiu! Fale mais baixo. Está a blasfemar. Vá-se embora! Volte amanhã ou outro dia em que esteja mais calmo. Assim não posso...
FRANÇOISE
Tem de poder, Padre! Agora, vai-me ouvir até ao fim. É hoje que eu preciso de si, é hoje que eu quero a absolvição! Estou desesperado, já não sou homem nem mulher, sou um aborto, um monstro! Tem de me absolver hoje, agora! O Padre quer recusar-me um sacramento?!
(Pausa. Exausto.) Deus abandonou-me...
(Num arranco de alma:) Mas eu não tenho culpa! Já quando era pequeno, com dois ou três anos, a minha mãe me chamava a sua «menina»... mais tarde, na escola, todos os miúdos me gritavam aquele «maricas!» que tanto me fazia doer... E eu todo ferido, a sofrer, sem compreender nada...! Que culpa tive eu, diga-me Padre? Depois, na padaria... Esquecia-me de lhe dizer que estive empregado numa padaria, entre os doze, treze anos... Na padaria, todos os fregueses me chamavam a «padeirinha de Aljubarrota!» A loja ficava perto de Alcobaça, em Aljubarrota. Era eu a «padeirinha de Aljubarrota»! Depois... depois vim para Lisboa e, num instante, fiquei a «bela Françoise»! Tive amigos influentes, ensinaram-me muitas coisas, instruiram-me, fiz exames, aprendi francês e inglês... mas depois vieram os chulos. Habituei-me à crueldade dos chulos. Não sei viver sem um.
(Silêncio dorido.) Mas tudo isto é letra morta para si, Padre: Não vem no Evangelho. Deus teve vergonha.
(Gargalhada nervosa.) E eu que vim aqui, a esta igreja, pela primeira vez, porque me disseram que o senhor era um bom confessor, muito compreensivo! Isto é o carnaval, é o carnaval da minha vida que continua... !
(Riso estridente.)
CONFESSOR
Pschiu! Cuidado, fale mais baixo, não faça escândalo!?...
FRANÇOISE
(falando alto)
E porque não hei-de fazer? Eu sou o escândalo! Porque não hei-de gritar a verdade?...
CONFESSOR
(furioso)
Porque eu não quero, porque eu lhe proibo...!"