Sexta-feira. cinco de dezembro, faltam dez minutos para as sete. O intercidades para a Covilhã parte às 19h16 de Santa Apolónia. Sento-me no meu lugar, sete janela, bilhete comprado duas semanas antes, com desconto. Alguns minutos depois, senta-se ao meu lado, de sandes e garrafa de leite com chocolate na mão, um homem. Lá abriu a mesa da cadeira à sua frente e poisou a comida.
Depois de comer, uns momentos de silêncio; o comboio permanece, ainda, na estação. A dada altura, o homem mete conversa: '
É da Covilhã?' Eu respondo que não, que não conheço, que tenho lá amigos. Resposta muito simples. Não quero conversa, confesso. Depois de um dia de trabalho, de me levantar às 5h15, de deixar os gatos sozinhos, não me apetece conversar com um estranho durante a viagem. Mas ele continua: '
Eu sou da Covilhã'. Saca de um cartão plastificado, a amostra que lhe deram para apreciação, e prossegue: '
Salão Rubim,
no centro da Covilhã. Só trabalho com produtos de topo, só de topo'. Eu olho para o cartão com o nome e a cara de um homem, sem rosto definido, apenas os contornos com barba. Aponta para três marcas no canto inferior esquerdo, em círculos. Vai tapando um a um, conforme fala da marca: '
L'Oreal. A segunda melhor. Revlon, a primeira mundial. Crew, produtos para homem, a primeira a nível mundial para homens. Só produtos de topo'. Eu abano a cabeça a sorrio. Lá pergunto: '
Cabeleireiro unissexo?' '
Unissexo', confirma o homem '
Salão Rubim. Eu sou o Rubim', aponta para si próprio.
Sorrio um pouco e volto para o livro. Não quero conversar, mas o homem insiste: '
Tinha boleia muito cedo da Covilhã, mas falhou. Saí ao meio dia e meio. E já fiz Ansião, Leiria, Lisboa. Este foi o meu jantar'. Momentos antes, deitara o lixo no pequeno caixote de metal junto ao chão, no meio das cadeiras. Não dou resposta. Que poderia dizer? Aliás, só quero que ele se cale. Estou cansada.
O Rubim, a páginas tantas, pergunta-me qual é o meu lugar. Respondo que é o sete. '
O meu também é o sete. Venderam o mesmo lugar a duas pessoas.' '
Eu comprei o meu bilhete há duas semanas', retorqui. '
E eu agora.', responde ele.
'Não tenho culpa que eles se tenham enganado e não saibam o que estão a fazer'.
Começa a saga do bilhete. Até chegar a passageira que está no lugar dele, o seis, a CP é alvo de todos os comentários, incluindo pedir o livro de reclamações. Por fim, o comboio lá parte. Na estação Oriente enche. Fim-de-semana prolongado. O Rubim procura o revisor, levanta-se, pois já não tem lugar e anda de um lado para o outro. Vai para outra carruagem, volta com cara de poucos amigos e nada de revisor. Por fim, lá os vejo. Rubim e um senhor de meia-idade, a ouvir a reclamação, paciente. Aproxima-se de mim e pede-me o bilhete. Confirma e devolve. Depois, vira-se para o Rubim: '
O senhor comprou bilhete para o dia seis'. O Rubim olha para ele. '
Então eu vou para a Covilhã hoje e iria comprar um bilhete para amanhã? Na bilheteira perceberam mal'. O revisor, já calejado com episódios semelhantes, explica: '
O cliente tem direitos, mas também deveres. Deve confirmar todos os dados, o troco, a data, hora, local de chegada'. O Rubim continua a reclamar, o revisor continua a explicar, com uma voz calma. Por fim, termina: '
Eu já lhe expliquei tudo, Se não quer aceitar, não há nada a fazer.', enquanto mexia no aparelho portátil de bilhetes e lhe arranjava um lugar. '
Arranjo-lhe um que vaga no Entroncamento. Até lá, sente-se num lugar vazio'.
Por fim, tudo se resolve. O Rubim, mais calmo, aproxima-se de nós, de mim e da mulher ao meu lado, e deseja-nos boa viagem e um feliz natal. Agradecemos, respondemos e cada uma regressa ao seu livro. A viagem continua sem percalços até à Covilhã.
Pelas 23h08, chega o comboio. Na estação, estão à minha espera o João, que será o nosso guia neste fim-de-semana, o Duarte e o Miguel.