O nosso Miguel publicou mais um livro.
Começando pela capa e terminado no 'Soneto para um Fado de Coimbra', uma edição de luxo. Este pequenino grande livro reúne 18 poemas para letras de fados que abordam os temas que todos conhecemos: amor, saudade, perda ou a dor.
Uma publicação para imprimir e guardar. A maravilha da escrita do Miguel aliada ao profissionalismo da INDEX ebooks.
Podem encomendar o livro aqui, na página da editora.
Aqui deixo três poemas para aguçar o apetite.
Fado da Rima
Fosse coreografia
E tivesse um final feliz,
A vida seria um dia
Como a noite que se cria
Pelo nome que se diz
Asa, voo de perdiz,
Anjo de melancolia,
Ou foco traçado a giz,
Se a vida como ela diz
Fosse coreografia
***
Fado da Metade
Se do que tenho, a metade
Do que me dás, é o meio
De ti, só tenho a saudade
O vento vazio da tarde
O livro em branco que leio
Inteira é a minha lembrança
Das muitas noites que tive
Mas da folia da dança
Não resta ténue esperança
No pouco que sobrevive
Tu dás-me pouco, e receio
Que da tua mão aberta
Escorra por entre o veio
Da metade, só o meio
Que entre os dedos se liberta
***
Fado do Abraço
Nunca negues um abraço
A quem o queres oferecer
No desenho do teu braço
O gesto imprime o traço
Fica impresso o teu querer
Quisera eu dar-te um abraço
Apertado e com ternura
Mas hesito se te maço
E temo o gelo do aço
Que respondas com secura
Mas à noite armo o laço
Se a sombra te sinto cruzar
Sem cuidar que me desgraço
Desvairado, estugo o passo
E corro para te abraçar
Um abraço apertado e com ternura ao Miguel.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
domingo, 4 de janeiro de 2015
O Segundo Armário: diário de um jovem soropositivo
De início, era o medo, a negação, o preconceito da doença, o sentimento de impotência, a angústia, a tristeza. Com o passar do tempo, Gabriel foi aprendendo a lidar com a situação de seropositivo, apesar de a manter escondida dos familiares e da maior parte dos amigos, bem como no trabalho.
Intercalado por vídeos musicais e links para páginas com informação científica sobre o HIV/SIDA e para um blogue brasileiro cujo autor se encontrava (em 2011) na mesma situação, 'O Segundo Armário: Diário de um Jovem Soropositivo' é um testemunho comovedor de um jovem infectado pelo vírus da SIDA, terminando com uma mensagem de esperança para os que se encontram na mesma situação.
Para assinalar o Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, no passado dia 1 de Dezembro a INDEX ebooks publicou este livro.
Intercalado por vídeos musicais e links para páginas com informação científica sobre o HIV/SIDA e para um blogue brasileiro cujo autor se encontrava (em 2011) na mesma situação, 'O Segundo Armário: Diário de um Jovem Soropositivo' é um testemunho comovedor de um jovem infectado pelo vírus da SIDA, terminando com uma mensagem de esperança para os que se encontram na mesma situação.
Para assinalar o Dia Mundial de Luta Contra a SIDA, no passado dia 1 de Dezembro a INDEX ebooks publicou este livro.
Para encomendar, basta aceder aqui, à página que a INDEX ebooks criou para esta publicação.
sábado, 3 de janeiro de 2015
A autoajuda do Lenine
«Autoajuda? Lenine? Está bom! Mas é mais ou menos isso. Longe de ser Augusto Cury, o Lenine indica, de forma objetiva, as soluções para alguns problemas. Um jogo de verbos e ações que deixa tudo mais fácil e simples. Sei que os problemas complexos têm quase sempre soluções complexas, mas a autoajuda do Lenine encanta-me.
Tá cansada, senta
Se acredita, tenta
Se tá frio, esquenta
Se tá fora, entra
Se pediu, aguenta
Se pediu, aguenta...»
Gabriel de Souza Abreu, O Segundo Armário, diário de um jovem soropositivo, INDEX ebooks, 2014.
Tá cansada, senta
Se acredita, tenta
Se tá frio, esquenta
Se tá fora, entra
Se pediu, aguenta
Se pediu, aguenta...»
Gabriel de Souza Abreu, O Segundo Armário, diário de um jovem soropositivo, INDEX ebooks, 2014.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
O Homem Sentimental
Um livro apaixonante, uma escrita intimista, sensível, narrada na primeira pessoa por um cantor de ópera, um tenor espanhol. Quase em forma de diário, o protagonista descreve o sonho que tivera nessa noite, com as mesmas pessoas que conheceu quatro anos antes, durante uma viagem de comboio.
'E no entanto resisto a contar-vos tudo. Um pobre tenor que tem medo do seu próprio relato ou dos seus próprios sonhos, como se utilizar palavras em vez de letras, vocábulos não ditados, frases inventadas em vez de textos já escritos, aprendidos, memorizados, repetitivos, paralisasse a sua poderosa voz, que só conheceu até agora o estilo recitativo. É-me difícil falar sem libreto.'Não travaram diálogo no comboio, o tenor limitara-se a observar os três desconhecidos mas, posteriormente, ficaram hospedados no mesmo hotel de luxo, em Madrid.
É a história de um triângulo amoroso, já que a mulher era casada com um dos homens, um poderoso banqueiro, é uma história de um amor que ainda não tinha acontecido, ao mesmo tempo que o tenor discorre sobre caixeiros-viajantes, a solidão das viagens, a sua relação com a companheira da altura e sobre ópera, claro.
Uma excelente narrativa pontuada por longos, longuíssimos parágrafos, sendo necessário voltar atrás e reler as frases, mas que prazer é a nova leitura.
Uma estreia sublime, já que nunca tinha lido nada deste autor.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
2014: balanço literário
Com o precioso auxílio do desafio do Goodreads, aqui está a lista dos livros que li este ano. Não me recordo de ler tanto num ano; a maior parte são romances, uns quantos policiais, poesia, teatro, que descobri este ano e adorei. Balancei entre ebooks, livros que eu tenho, que me foram emprestados e oferecidos e algumas idas à biblioteca municipal do Seixal.
Os livros não estão pela ordem que li, mas por ordem alfabética, divididos por dois temas: lusófonos (autores de língua portuguesa) e estrangeiros e agrupados por autor.
Lusófonos:
- A Casa dos Budas Ditosos – João Ubaldo Ribeiro (ebook)
- A Confraria dos Espadas – Rubem Fonseca (ebook)
- Agosto – Rubem Fonseca (ebook)
- E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto – Rubem Fonseca (ebook)
- O Caso Morel – Rubem Fonseca (ebook)
- A Filha do Papa – Luís Miguel Rocha
- A Traição do Padre Martinho – Bernardo Santareno (biblioteca) – teatro
- O Pecado de João Agonia – Bernardo Santareno (biblioteca) – teatro
- Os Marginais e a Revolução – Bernardo Santareno (João Máximo – foi com este livrinho que me iniciei neste dramaturgo) - teatro
- A Vida no Céu – José Eduardo Agualusa (ebook)
- Achados e Perdidos - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Berenice Procura – Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Céu de Origamis -Luiz Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Espinosa Sem Saída – Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Na Multidão - Luiz Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- O Silêncio da Chuva - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Perseguido - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Uma Janela em Copacabana – Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Vento Sudoeste - Luis Alfredo Garcia-Roza (ebook)
- Antigas e Novas Andanças do Demónio – Jorge de Sena (biblioteca)
- Ara – Ana Luísa Amaral
- Canções e Outros Poemas – António Botto
- Castelo de Sombras – Judith Teixeira (poesia)
- Decadência, Poemas – Judith Teixeira (digitalizado, oferta do João Roque)
- Confundir a Cidade com o Mar – Richard Zimler (é americano mas tem dupla nacionalidade, embora escreva em inglês. Assim, optei por o colocar nesta secção) (biblioteca)
- Meia-noite ou o Princípio do Mundo – Richard Zimler (emprestado por uma amiga)
- Deixem Falar as Pedras – David Machado
- Dicionário de Literatura Gay – (ebook – Index ebooks)
- Dois Mundos, A Paz – Pedro Xavier (ebook – Index ebooks)
- Dois Mundos, Um Inimigo – Pedro Xavier (ebook – Index ebooks)
- Esteiros -Soeiro Pereira Gomes
- Granta Portugal 4 – África
- Granta Portugal 3 – Casa
- Histórias de Amor – José Cardoso Pires
- Ilha de Metarica – memórias da guerra colonial – João Carlos Roque (ebook – Index ebooks)
- Mayombe – Pepetela
- Montedor – J. Rentes de Carvalho
- Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu (ebook)
- Novelas Nada Exemplares – Dalton Trevisan (ebook)
- O Livro de Agustina Bessa-Luís – Agustina Bessa-Luís (biblioteca)
- O Livro do Pedro – Manuela Bacelar (João Máximo)
- O Pecado de Porto Negro – Norberto Morais (João Máximo)
- O Ponto de Vista dos Demónios – Ana Teresa Pereira
- O Retorno – Dulce Maria Cardoso
- O Sr. Ganimedes – Alfredo Gallis (ebook – Index ebooks)
- Os Memoráveis – Lídia Jorge
- Os Transparentes – Ondjaki (biblioteca)
- Partilha-te – vários autores (digitalizado, oferta do João Roque)
- Poemas Homoeróticos Escolhidos – Paulo Azevedo Chaves e Raimundo de Moraes (ebook – Index ebooks)
- Poesia Reunida – Maria do Rosário Pedreira - poesia
- Primeiros Poemas, As Mãos e os Frutos, Os Amantes Sem Dinheiro – Eugénio de Andrade - poesia
- Propaganda – Joana Estrela – B.D. digitalizada pela autora
- Rua Descalça – José Mauro de Vasconcelos (emprestado por uma amiga)
- Vamos Aquecer o Sol – José Mauro de Vasconcelos (emprestado por uma amiga)
- Uma Outra Voz – Gabriela Ruivo Trindade
- USA Wild West – João Máximo e Luís Chainho (ebook – Index ebooks)
O recorde vai para 9 livros de Garcia-Roza; depois, li 4 de Rubem Fonseca; 3 de Bernardo Santareno; 2 volumes da saga ‘Dois Mundos’, de Pedro Xavier; 2 de Richard Zimler; 2 de José Mauro de Vasconcelos; 2 ‘Grantas’ e 2 livros de poemas de Judith Teixeira.
Destes, levaria para a ilha Bernardo Santareno e Jorge de Sena. O livro deste último autor tem uns contos fantásticos, como o último, intitulado ‘Os amantes’.
Estrangeiros:
- (57.) A Caminhada – Richard Paul Evans
- (58.) A Canção de Tróia – Colleen McCulough (biblioteca)
- (59.) A Falsa Pista – Henning Mankel
- (60.) A Leoa Branca – Henning Mankel
- (61.) Os Cães de Riga – Henning Mankel
- (62.) A Obra ao Negro – Marguerite Yourcenar (biblioteca)
- (63.) A Peregrinação do Rapaz Sem Cor – Haruki Murakami
- (64.) A Porta Estreita – André Gide (biblioteca)
- (65.) A Tormenta das Espadas – George R.R. Martin
- (66.) A Trégua – Mario Benedetti (ebook)
- (67.) A Volta no Parafuso – Henry James
- (68.) Anjos Perdidos em Terra Queimada – Mons Kallentoft (ebook)
- (69.) Blue is the Warmest Color – Julie Maroh
- (70.) Boneca de Luxo – Truman Capote (biblioteca)
- (71.) Confissões de Uma Máscara – Yukio Mishima
- (72.) Morte em Pleno Verão e Outros Contos – Yukio Mishima
- (73.) Clube Dumas – Arturo Pérez-Reverte
- (74.) O Assédio – Arturo Pérez-Reverte (Miguel)
- (75.) O Tango da Velha Guarda – Arturo Pérez-Reverte (Miguel)
- (76.) Deixai a Chuva Cair – Paul Bowles (biblioteca)
- (77.) Viagens – Paul Bowles (oferta do Miguel)
- (78.) É Assim Que A Perdes – Junot Díaz
- (79.) Engano – Philip Roth (biblioteca)
- (80.) Manhattan Transfer – John Dos Passos
- (81.) Mentiras no Divã – Yrvin D. Yalom
- (82.) Middlesex – Jeffrey Eugenides (biblioteca)
- (83.) O Canto de Aquiles – Madeline Miller (oferta do João Máximo)
- (84.) O Homem Sentimental – Javier Marías (biblioteca)
- (85.) O Mestre – Colm Tóibín
- (86.) O Quarteto de Alexandria - Lawrence Durrell (ebook)
- (87.) O Sonho Mais Doce – Doris Lessing
- (88.) O Vigilante – Sarah Waters
- (89.) Palmeiras Bravas; Rio Bravo – William Faulkner (biblioteca)
- (90.) Poemas e Prosas – Konstandinos Kavafis
- (91.) Stoner – John Williams
- (92.) Sua Senhoria – Jaume Cabré (oferta da Tinta-da-China pela assinatura da Granta)
- (93.) Um Eléctrico Chamado Desejo e Outras Peças – Tennessee Williams (João Máximo)
- (94.) Want to Play – P.J. Tracy (única lido em inglês, já agora)
- (95.) White Jazz – James Ellroy
Então, li 3 de Pérez-Reverte (2 deles do Miguel); 3 de Henning Mankel; 2 de Paul Bowles e 2 de Yukio Mishima.
Levaria para a ilha Marguerite Yourcenar e Tennessee Williams (gostei tanto do livro que comprei um igual e só me falta ver um filme de uma das peças).
Boas leituras em 2015!
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Mr. Turner
Grande biópico sobre a vida do pintor inglês William Turner, o último filme de Mike Leigh.
Timothy Spall é extraordinário, tendo ganho o prémio de melhor actor no Festival de Cinema de Cannes. Descrevendo os últimos 25 anos da vida de Turner, um pintor de paisagens, principalmente marinhas, encontramos um artista obsessivo, solitário, que disfarça o seu génio através de grunhidos e uma postura algo bruta.
Imperdível este filme, pelos actores, pela fotografia, pelos figurinos e por uma cena intensa da ária 'Dido e Eneias', de Henry Purcell. Num cravo toca uma mulher e Turner, emocionado, canta o lamento de Dido, a rainha de Cartago, abandonada por Eneias, o troiano.
Timothy Spall é extraordinário, tendo ganho o prémio de melhor actor no Festival de Cinema de Cannes. Descrevendo os últimos 25 anos da vida de Turner, um pintor de paisagens, principalmente marinhas, encontramos um artista obsessivo, solitário, que disfarça o seu génio através de grunhidos e uma postura algo bruta.
Imperdível este filme, pelos actores, pela fotografia, pelos figurinos e por uma cena intensa da ária 'Dido e Eneias', de Henry Purcell. Num cravo toca uma mulher e Turner, emocionado, canta o lamento de Dido, a rainha de Cartago, abandonada por Eneias, o troiano.
domingo, 28 de dezembro de 2014
A Peregrinação do Rapaz Sem Cor
Nem sei por onde começar. Eu, uma murakamiana confessa, fiquei desiludida com este último romance de HM. Encontrei pouco, enfim, uns laivos de Murakami, mas onde está a narrativa surreal que tanto me prendera em 'Kafka à beira-mar', ou em 'Crónica do Pássaro de Fogo' ou em 'Em Busca do Carneiro Selvagem', entre outros dos seus livros? Pouco, muito pouco a encontrei. Talvez em Midorikawa, o pianista da história do pai de Haida, nas termas perdidas na floresta, com o seu saquinho misterioso.
Os ingredientes estão lá, a música clássica, neste caso, Liszt e os seus 'Anos de Peregrinação', principalmente a peça 'Le mal du pays'; o personagem principal, o homem solitário de 36 anos, que vive em Tóquio; a prosa de vez em quando verdadeira poesia e os sonhos eróticos (a novidade é começar um sonho com duas raparigas e terminar no amigo Haida, sendo esta a primeira vez nos seus romances em que existem referências homossexuais. Uma outra personagem, na continuação na história, também é homossexual).
O enredo, basicamente, é este: acontecera algo na juventude e os seus amigos, quatro com nomes de cores, afastaram-se abruptamente. E aqui fica muita coisa no ar. A justificação do afastamento parece-me forçada, ficam muitas pontas soltas (o caso da amiga, por exemplo, ou o desaparecimento de Haida na faculdade); o jovem cai numa profunda depressão, longe da personagem forte, embora só, dos seus anteriores romances.
E assim, no presente, graças a uma rapariga por quem nutre fortes sentimentos, terá de enfrentar o passado, procurar os seus antigos amigos e saber a razão do afastamento.
Tsukuru Taszaki, é este o seu nome, é engenheiro e a sua paixão são as estações de comboios. Nada contra, eu também gosto de estações. Todavia, pelo meio, há muita conversa para encher, literalmente, chouriços.
A amizade da adolescência, a nostalgia dos tempos passados, a dor da separação, a sobrevivência no presente fazem parte deste romance, que me soube a pouco, muito a pouco.
Os ingredientes estão lá, a música clássica, neste caso, Liszt e os seus 'Anos de Peregrinação', principalmente a peça 'Le mal du pays'; o personagem principal, o homem solitário de 36 anos, que vive em Tóquio; a prosa de vez em quando verdadeira poesia e os sonhos eróticos (a novidade é começar um sonho com duas raparigas e terminar no amigo Haida, sendo esta a primeira vez nos seus romances em que existem referências homossexuais. Uma outra personagem, na continuação na história, também é homossexual).
O enredo, basicamente, é este: acontecera algo na juventude e os seus amigos, quatro com nomes de cores, afastaram-se abruptamente. E aqui fica muita coisa no ar. A justificação do afastamento parece-me forçada, ficam muitas pontas soltas (o caso da amiga, por exemplo, ou o desaparecimento de Haida na faculdade); o jovem cai numa profunda depressão, longe da personagem forte, embora só, dos seus anteriores romances.
E assim, no presente, graças a uma rapariga por quem nutre fortes sentimentos, terá de enfrentar o passado, procurar os seus antigos amigos e saber a razão do afastamento.
Tsukuru Taszaki, é este o seu nome, é engenheiro e a sua paixão são as estações de comboios. Nada contra, eu também gosto de estações. Todavia, pelo meio, há muita conversa para encher, literalmente, chouriços.
A amizade da adolescência, a nostalgia dos tempos passados, a dor da separação, a sobrevivência no presente fazem parte deste romance, que me soube a pouco, muito a pouco.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
Não quero morrer como um imbecil
"(...) Não quero morrer como um imbecil, e uma vez que neste ou naquele dia terei mesmo de morrer, quero acima de tudo cuidar no meu tempo da única coisa que é certa e irremediável, mas quero sobretudo cuidar da forma da minha morte porque é a forma aquilo que em troca não é tão certo nem irremediável. É da forma da nossa morte que devemos cuidar, e para cuidar dela devemos cuidar da nossa vida, porque será esta, sem ser nada em si mesma quando terminar e for substituída, a única coisa que contudo será capaz de nos fazer saber no fim de contas se morremos como um imbecil ou se morremos aceitavelmente. Tu és a minha vida e o meu amor e a minha vida de conhecimento, e porque és a minha vida não quero ter a meu lado outra pessoa que não sejas tu quando morrer. Mas não quero que chegues subitamente ao meu leito de morte depois de saberes que estou agonizante, nem que vás ao meu enterro para te despedires de mim quando eu já não te veja nem possa cheirar-te nem possa beijar o teu rosto, e muito menos que aceites ou procures acompanhar-me nos meus últimos anos de vida porque os dois tenhamos sobrevivido às nossas respectivas e lastimosas ou separadas vidas, pois isso não me satisfaz. O que eu quero é que na hora da minha morte o que ali esteja seja a encarnação da minha vida, que não será outra coisa que aquilo que esta tenha sido, e para que tu a tenhas sido é também necessário que hajas estado a meu lado desde agora e até esse meu momento definitivo. Não conseguiria suportar que nessa hora tu fosses apenas recordação e estivesses misturada, e pertencesses a um tempo remoto e confuso que é o nosso nítido tempo agora, porque é a recordação e o tempo remoto e a mistura o que mais detesto e o que sempre tentei diminuir e negar, e enterrar à medida que se iam formando, à medida que cada presente estimado e enaltecido deixava de o ser para ser passado, e ia sendo vencido por aquilo que não sei como chamar se não lhe chamo a sua própria e impaciente posteridade ou o seu não-agora. Por isso, não deves partir agora, porque se partes agora tiras-me não só a minha vida e o meu amor e a minha vida de conhecimento, mas também a forma da minha morte escolhida."
Javier Marías, O Homem Sentimental, Publicações Dom Quixote, 2002.
pp. 19-20.
Javier Marías, O Homem Sentimental, Publicações Dom Quixote, 2002.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Algumas proposições com crianças
A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz
Ruy Belo, Homem de Palavra[s], Todos os Poemas.
***
Desejo a todos um Feliz Natal. Sejam crianças de vez em quando.
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz
Ruy Belo, Homem de Palavra[s], Todos os Poemas.
***
Desejo a todos um Feliz Natal. Sejam crianças de vez em quando.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Covilhã IV - na cidade
Domingo, sete de dezembro. É o último dia na Covilhã.
A sala do pequeno-almoço encontra-se cheia. Há um campeonato desportivo, mas desconheço a modalidade. Reparo em duas equipas patrocinadas por estabelecimentos comerciais de Paio Pires e de Pinhal de Frades. São meus vizinhos. Sinto-me em casa.
Eu e o Miguel fazemos o check-out. Ele arruma a bagagem no seu carro, que continua estacionado junto ao hotel, eu acomodo a minha na mala do carro do Duarte.
Hoje é dia de conhecer a Covilhã. O João estaciona o automóvel no centro histórico, caminhamos devagar pelas ruas estreitas, está um dia lindo, o céu muito azul, azul é a cor da cidade, na Igreja de Santa Maria Maior e na arte urbana, nas paredes.
Uma cidade riquíssima em património histórico e cultural!
Esta é a antiga casa do João. Imponente!
Uma volta final de carro pelas aldeias no sopé da serra. Apanhamos a Mãe do João, que almoça connosco num restaurante fora da cidade. Uma refeição opípara, típica da zona, e o João deixa-me na estação do Fundão, mais perto do restaurante do que a da Covilhã.
Um fim-de-semana intenso, inesquecível. A companhia, excelente; a cidade, maravilhosa, desenvolvida, mas acolhedora; as histórias, deliciosas, como só o João sabe contar, e que, de braços abertos, nos recebeu, feliz.
A sala do pequeno-almoço encontra-se cheia. Há um campeonato desportivo, mas desconheço a modalidade. Reparo em duas equipas patrocinadas por estabelecimentos comerciais de Paio Pires e de Pinhal de Frades. São meus vizinhos. Sinto-me em casa.
Eu e o Miguel fazemos o check-out. Ele arruma a bagagem no seu carro, que continua estacionado junto ao hotel, eu acomodo a minha na mala do carro do Duarte.
Hoje é dia de conhecer a Covilhã. O João estaciona o automóvel no centro histórico, caminhamos devagar pelas ruas estreitas, está um dia lindo, o céu muito azul, azul é a cor da cidade, na Igreja de Santa Maria Maior e na arte urbana, nas paredes.
Uma cidade riquíssima em património histórico e cultural!
Esta é a antiga casa do João. Imponente!
Uma volta final de carro pelas aldeias no sopé da serra. Apanhamos a Mãe do João, que almoça connosco num restaurante fora da cidade. Uma refeição opípara, típica da zona, e o João deixa-me na estação do Fundão, mais perto do restaurante do que a da Covilhã.
Um fim-de-semana intenso, inesquecível. A companhia, excelente; a cidade, maravilhosa, desenvolvida, mas acolhedora; as histórias, deliciosas, como só o João sabe contar, e que, de braços abertos, nos recebeu, feliz.
domingo, 21 de dezembro de 2014
Granta Portugal 4 - África
Excelentes algumas das histórias deste 4.º volume da Granta Pt, dedicado a África. Conheci grandes autores, reli outros dos meus favoritos, mas confesso que ainda não entranhei na história da 'Laura', da Hélia Correia. Foi lida na diagonal. E, apesar das loas por esse mundo fora, não é uma das minhas preferidas a da Taiye Selasi.
Os escritores de que gostei mais são Teju Cole, Martin Kimani, Chimamanda Ngozi Adichie, Mia Couto, Aminatta Forna, Sandro William Junqueira, Binyavanga Wainaina e José Tolentino Mendonça.
Os escritores de que gostei mais são Teju Cole, Martin Kimani, Chimamanda Ngozi Adichie, Mia Couto, Aminatta Forna, Sandro William Junqueira, Binyavanga Wainaina e José Tolentino Mendonça.
'Quem era a minha avó? Era uma saia preta e redonda. Era um bordado sobre o colo. Era uma trança como uma ponte de corda, que as mulheres da sua idade usavam. Era o silêncio de muitas expedições. Era a posição central, o diâmetro imaginário, o regulador religioso e o social das nossas casas. Era onde eu estava de manhã e à noite. Era um modo todo seu de nomear e guardar segredo sobre a sua arte.'
José Tolentino Mendonça, 'A Quem Deixas o Teu Oiro?', p. 310.
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