"(...) Não quero morrer como um imbecil, e uma vez que neste ou naquele dia terei mesmo de morrer, quero acima de tudo cuidar no meu tempo da única coisa que é certa e irremediável, mas quero sobretudo cuidar da forma da minha morte porque é a forma aquilo que em troca não é tão certo nem irremediável. É da forma da nossa morte que devemos cuidar, e para cuidar dela devemos cuidar da nossa vida, porque será esta, sem ser nada em si mesma quando terminar e for substituída, a única coisa que contudo será capaz de nos fazer saber no fim de contas se morremos como um imbecil ou se morremos aceitavelmente. Tu és a minha vida e o meu amor e a minha vida de conhecimento, e porque és a minha vida não quero ter a meu lado outra pessoa que não sejas tu quando morrer. Mas não quero que chegues subitamente ao meu leito de morte depois de saberes que estou agonizante, nem que vás ao meu enterro para te despedires de mim quando eu já não te veja nem possa cheirar-te nem possa beijar o teu rosto, e muito menos que aceites ou procures acompanhar-me nos meus últimos anos de vida porque os dois tenhamos sobrevivido às nossas respectivas e lastimosas ou separadas vidas, pois isso não me satisfaz. O que eu quero é que na hora da minha morte o que ali esteja seja a encarnação da minha vida, que não será outra coisa que aquilo que esta
tenha sido, e para que tu a tenhas sido é também necessário que hajas estado a meu lado desde agora e até esse meu momento definitivo. Não conseguiria suportar que nessa hora tu fosses apenas recordação e estivesses misturada, e pertencesses a um tempo remoto e confuso que é o nosso nítido tempo agora, porque é a recordação e o tempo remoto e a mistura o que mais detesto e o que sempre tentei diminuir e negar, e enterrar à medida que se iam formando, à medida que cada presente estimado e enaltecido deixava de o ser para ser passado, e ia sendo vencido por aquilo que não sei como chamar se não lhe chamo a sua própria e impaciente posteridade ou o seu não-agora. Por isso, não deves partir agora, porque se partes agora tiras-me não só a minha vida e o meu amor e a minha vida de conhecimento, mas também a forma da minha morte escolhida."
pp. 19-20.
Javier Marías,
O Homem Sentimental, Publicações Dom Quixote, 2002.