quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Chéri

   Brilhante. Uma bela cortesã de quarenta e nove anos, Leónie Vallon, Léa de Lonval, deixa-se conquistar por Fred, Chéri, um jovem de vinte e cinco anos, mimado, petulante e infantil, e ele entrega-se sem tréguas a esta experiente mulher. No entanto, ela continua uma mulher independente, de personalidade forte e segura, até que o casamento por interesse dele coloca um ponto final na relação.
   Paixão, sedução e volúpia pairam neste pequeno romance fascinante de Colette, numa excelente tradução de José Saramago.
   Foi adaptado ao cinema por Stephen Frears.
   No site da Editorial Presença (aqui), podem encontrar um excerto do livro, para aguçar o interesse. Lê-se muito bem, rapidamente e a edição é muito boa, com as páginas grossas. E prefiro a capa original, esta (a que está em cima é o cartaz do filme):

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Uma prosa sobre os meus gatos

Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.

31/3/99

Manuel António Pina, Todas as Palavras; Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança, p. 271.

Parabéns, Miguel.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

A Biblioteca da Piscina

   'A Biblioteca da Piscina' não é o primeiro livro de AH que li; contudo, é o retrato mais fidedigno e sem subtilezas da vida de um jovem adulto homossexual na Londres do início dos anos 80. Desde os engates nos urinóis públicos - onde conhece o velho Charles - até ao clube Corry, onde pratica natação e se entretém a engatar outros homens. De Arthur, o adolescente negro, a Phil, o jovem empregado de hotel que se exercita no Corry, este livro descreve sem antolhos os relacionamentos de Will, ao mesmo tempo que, ao ler os diários de Charles, descobre uma perturbante revelação que envolveu a sua família ao abrigo da legislação anti-homossexual dos anos 50 do passado.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

César, take 28º

   Acabei de ler o post do Miguel e lembrei-me do meu gato. Mas o César não quer brincadeiras. Mal eu abro a porta, às 7h05 da matina, esgueira-se pelas minhas pernas e foge. Não são os seis quilos que agora pesa que o atrasam. Não, nem o vejo. É um foguete pelas escadas abaixo. Bem que tento abrir apenas uma frincha, para eu e a mochila passarmos, mas ele consegue escapulir-se. Ontem, lá fui, mais uma vez, a correr até ao primeiro andar, enquanto murmurava baixinho, para não assustar os vizinhos 'César, ó César, sacana do gato, olha lá as horas que ainda me fazes perder o comboio!' Hoje, ficou pelo segundo, pois ouviu a vizinha a preparar-se para abrir a porta da sua casa.
   Eu nem me importo que o gato queira sair, sendo curioso por natureza. Importo-me é que seja em dia de trabalho.
   O César não tem medo de nada. Vivesse eu no campo e o gato estaria livre, no seu ambiente natural. Aqui, salta para cima dos armários, corre com a Dalila, são autênticas corridas de fórmula 1 entre a sala e o seu quarto, quer impor-se à Alice, a mais velha, ela não o suporta, dá-lhe uma patada, ele vinca-lhe as presas no lombo, ela mia desalmadamente.
   Ah, mas nunca há monotonia com os meus gatos e não posso imaginar a minha vida sem eles, :)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Boyhood

Olivia a ler Harry Potter

   Ontem, finalmente, fui ver "Boyhood - Momentos de uma Vida". Sim, gostei, como seria de esperar. Filmado ao longo de doze anos com o mesmo núcleo de quatro actores: Ethan Hawke, Patricia Arquette (os pais Olivia e Mason Sr.), Ellar Coltrane (Mason Jr.) e Loreilei Linklater (Samantha). Os pais estão separados, os filhos vivem com a mãe, os miúdos convivem com o pai de vez em quando; a mãe retoma os estudos e acaba por dar aulas numa faculdade.
   Richard Linklater conseguiu a proeza de manter todos os actores e só na grande tela é que dei conta que não foram só os pais que envelheceram e os filhos cresceram. Eu envelheci com eles, naqueles doze anos condensados em quase 3 horas de filme. Doze anos de mudanças, de cortes de cabelo, da passagem da infância para a adolescência, com as dúvidas, as batalhas, as relações falhadas, a primeira paixão, as desilusões, a amizade.
   Confesso que não me recordava da Patricia Arquette enquanto jovem, mas lembrava-me bem do Ethan Hawke, por a trilogia "Antes" ainda estar bem presente na minha cabeça. E o realizador ser o mesmo (engraçado que RL começou a filmar Boyhood em 94 e realizou Antes do Amanhecer em 95 em 2013, o último Antes da Meia-Noite e no ano passado acabou Boyhood.
   Deixo este link do Sapo-cinema com um artigo e fotos muito interessantes.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Yo sé que el tierno amor escoge sus ciudades...

Yo sé
que el tierno amor escoge sus ciudades
y cada pasión toma un domicilio,
un modo diferente de andar por los pasillos
o de apagar las luces.

Y sé
que hay un portal dormido en cada labio,
un ascensor sin números,
una escalera llena de pequeños paréntesis.

Sé que cada ilusión
tiene formas distintas
de inventar corazones o pronunciar los nombres
al coger el teléfono.
Sé que cada esperanza
busca siempre un camino
para tapar su sombra desnuda con las sábanas
cuando va a despertarse.

Y sé
que hay una fecha, un día, detrás de cada calle,
un rencor deseable,
un arrepentimiento, a medias, en el cuerpo.

Yo sé
que el amor tiene letras diferentes
para escribir: me voy, para decir:
regreso de improviso. Cada tiempo de dudas
necesita un paisaje.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

No creo en brujas, pero que las hay, las hay

   Na passada sexta, às 11 horas, fui, então, à entrevista. Com tanta conversa com a minha antiga colega e esqueci-me de lhe perguntar como se chamava a dirigente dos recursos humanos com quem eu iria me encontrar. Qual não foi a minha surpresa quando ela disse o nome. Fiquei siderada e até pensei que não seria a mesma; afinal, há muitas Marias na terra. Quando o elevador chegou ao rés-do-chão e de lá saiu uma mulher, eu pensei, 'Sim, não é a mesma pessoa'. Afinal, era uma técnica que trabalhava na mesma unidade orgânica e que veio buscar-me à recepção. E, sim, era a mesma pessoa! Ela recordava-se bem de mim, até perguntara se a Margarida não era uma pessoa gordinha? :D Bem, há dez anos, de facto, eu pesava mais de setenta quilos. 'Não', respondera a minha antiga colega, 'não deve ser a mesma pessoa'.
   Era, era, quero dizer, sou eu, e a dirigente foi minha superiora há dez anos, num outro organismo. Ela trabalhou nos recursos humanos, por pouco tempo foi minha directora de serviços, até que saiu em 2005.
   Lá nos reunimos, ela falou no perfil do técnico que desejava para os recursos humanos, eu nunca trabalhei em recursos humanos, mas que tal não fosse impedimento, eu iria fazer o meu melhor. E correu muito bem. Deu-me o email, o número de telemóvel, pediu que eu formalizasse o pedido por escrito e eu saí de lá a pensar que grande coincidência esta. Mais uma.
   Todavia, fiquei um pouco preocupada, porque seriam funções novas e eu em RH, numa área específica, estou a zeros. Lá me mexi, pesquisei e não é que encontrei um curso de formação exactamente nessa área? E, mais uma coincidência, as inscrições estão abertas até meio deste mês. A formação não é propriamente barata, mas, enfim, o que tem de ser, tem de ser. Ontem à noitinha, fiz a inscrição online, recebi no email o formulário com os meus dados em pdf e, esta tarde, enviei por email o pedido de mobilidade, anexando diversos documentos (CV, certificado de habilitações, declaração do serviço, enfim, tinha tudo digitalizado), incluindo o formulário desse curso e uma referência no requerimento de mobilidade.
   Quando referi num post anterior que não estava nada fácil eu ir trabalhar para Viseu, por não conhecer ninguém num serviço público, bem, neste caso específico de me mudar para Lisboa, ainda por cima para uma instituição a dois passos da Cinemateca, da Politécnica, do metro,dizia eu, que neste caso, o factor C sou eu! :D

sábado, 31 de janeiro de 2015

O segundo gato


Em cada gato há outro gato
um pouco menos exacto
e um pouco menos opaco.

Um gato incoincidente
com o gato, iridescente,
caminhando à sua frente

ou a seu lado,
espírito alado
do que é terrestre no gato.

É o segundo gato
que permanece acordado
com o gato afundado

em sono abstracto,
aos seus pés enrolado,
espécie de gato do gato.

Ou que, mais tardo,
deambula pela sala
enquanto o gato se lava,

às vezes assomando
nos olhos do gato
como um passado imóvel e

enclausurado.
O próprio gato
não sabe

que anda por ali
algo que não cabe
dentro nem fora de si.


Manuel António Pina, Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974-2011), Assírio & Alvim, 2012.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

As Ilhas Desconhecidas, Notas e paisagens

   Um belo, emocionante e poético livro de viagens que homenageia os Açores e a Madeira, com trechos verdadeiramente preciosos, como este: 
   "Há momentos em que o choro é doirado e transparente - o chuveiro cai doirado e muito leve, cai em fiapos de aranha - e logo a cor desaparece no cinzento e só fica diante de mim a floresta gotejando, todas as formas dissolvidas, à medida que o vale foge azul e húmido e se converte em som, até que da paisagem casta e encerrada entre montes, da paisagem oculta e inútil, fica só saudade e o ruído de quem não acaba de chorar - de quem chora devagarinho, doirado e cinzento. Não é uma grande dor. Há mesmo nesta tristeza não sei que inocência. É o momento único em que as crianças passam do choro para o riso, que começa a abrir-se-lhes nos olhos entre a água e na face cheia de lágrimas que a gente tem vontade de limpar..." -  p. 74.

Raul Brandão, As Ilhas Desconhecidas, Notas e paisagens, Quetzal, 2013 (1.ª edição, Março 2011).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Vida

   O meu coração está a bater mais rápido do que bateu ontem, quando passei a manhã a dar uma formação a professores (com mais duas colegas) numa escola em Odivelas. Na sexta, vou a uma entrevista num organismo público em Lisboa, para uma possível mobilidade, organismo esse que tem um pólo na minha cidade.
   Ah, sim, aproveito a deixa para informar que obtive uma resposta negativa de uma instituição de Viseu e de outra para onde enviei o pedido há meses nem resposta recebi.
   Mas acredito que está tudo alinhado. Ou este é o meu ano :)
   Estive três semanas fora do serviço, em formação, regressei na segunda, passei o dia todo, com as duas colegas sentadas ao meu lado em redor do pc, a fazer a apresentação, a arranjar vídeos, legislação, etc, ainda a levei para casa para os últimos retoques e leituras. Antes de sair do trabalho, encontrei no corredor (pois a caminho do wc, claro, que melhor lugar), uma antiga colega que está nesse organismo, sito em Lisboa, que quer regressar ao meu serviço por ficar mais perto de casa. Olha que coisa. Assim como me levanto às 6 da matina para chegar ao taguspark às 8.20, também ela se levanta à mesma hora, fazendo o percurso contrário. E conversa puxa conversa, lá vou à tal entrevista com a chefe dela, num local que fica no centro de Lisboa, próximo do marquês de pombal. Será um trabalho diferente, totalmente diferente, sei lá se me aceitam, mas é pensar positivo!
   Posso não ir para a terrinha tão cedo quanto queria (é verdade que em termos de mobilidade, ou conhecemos alguém e é rápido, ou se não conhecemos, ui, se demora, ou então, temos sorte e estamos no lugar certo no momento certo). Mas o desejo que regressar à minha linda cidade continua, não o perdi. Pode é demorar um bocadinho mais de tempo :)
   Até lá, é esperar por sexta de manhã e cruzar os dedos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A Tábua de Flandres


   É o quarto livro que li deste autor. Escrito em 1990, já evidencia as técnicas narrativas que aprimorou em 'O Assédio' ou 'O Tango da Velha Guarda', por exemplo, e nas quais igualmente surgem as suas paixões: o xadrez, a aventura, o mistério e uma ou outra personagem fascinante. Neste romance, César, o antiquário homossexual, merece uma vénia, pela surpreendente reviravolta no final.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi

Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi,
cruzo a desmedida realidade
de fevereiro para ver-te,
o mundo transitório que me oferece
no assento de trás
uma oculta abóbada de sonhos,
luzes intermitentes como conversas,
letreiros acesos na brisa,
que não são destino,
mas que estão escritos por cima de nós.

Eu sei que as tuas palavras não terão
esse tom luxuoso, que os ares
inquietos do teu cabelo
guardarão a nostalgia artificial
do sótão sem luz onde me esperas,
e que por fim de manhã
ao acordar-te,
entre esquecimentos a meias e detalhes
fora de contexto,
terás piedade ou medo de ti mesma,
vergonha ou dignidade, incerteza
e talvez o luxurioso mal-estar,
o golpe que nos deixam
as histórias contadas numa noite de insónia.

Mas também sabemos que seria
pior e mais custoso
levá-las a casa, não esconder o seu cadáver
no fumo dum bar.
Eu venho sem idiomas desde a minha solidão,
e sem idiomas vou até à tua.
Não há nada a dizer,
mas suponho
que falaremos nus sobre isto,
pouco depois, tirando-lhe importância,
avivando os ritmos do passado,
as coisas que estão longe
e que já não nos doem.
Luis García Montero

Jorge Sousa Braga, org., Qual é a Minha Ou a Tua Língua? Cem poemas de amor de outras línguas, Assírio e Alvim, Março 2008, 2.ª edição.


Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi...

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,
cruzo la desmedida realidad
de febrero por verte,
el mundo transitorio que me ofrece
un asiento de atrás,
su refugiada bóveda de sueños,
luces intermitentes como conversaciones,
letreros encendidos en la brisa,
que no son el destino,
pero que están escritos encima de nosotros.

Ya sé que tus palabras no tendrán
ese tono lujoso, que los aires
inquietos de tu pelo
guardarán la nostalgia artificial
del sótano sin luz donde me esperas,
y que, por fin, mañana
al despertarte,
entre olvidos a medias y detalles
sacados de contexto,
tendrás piedad o miedo de ti misma,
vergüenza o dignidad, incertidumbre
y acaso el lujurioso malestar,
el golpe que nos dejan
las historias contadas una noche de insomnio.

Pero también sabemos que sería
peor y más costoso
llevárselas a casa, no esconder su cadáver
en el humo de un bar.

Yo vengo sin idiomas desde mi soledad,
y sin idiomas voy hacia la tuya.
No hay nada que decir,
                                pero supongo
que hablaremos desnudos sobre esto,
algo después, quitándole importancia,
avivando los ritmos del pasado,
las cosas que están lejos
y que ya no nos duelen.