terça-feira, 14 de abril de 2015

Salto Mortal


  A história decorre nos anos quarenta e inícios da década de cinquenta do século passado, numa América intolerante e preconceituosa. 
Papa Tony, Ângelo, Mario e Tommy são os Santellis Voadores, uma família de trapezistas, três gerações a actuar juntas. Mas os Santellis são também Lúcia, Liss, Joe, Johnny e a sua mulher Stella, uma família italiana católica, que lutam entre manter as tradições ou preferir técnicas mais modernas.
   Um romance rico em detalhes sobre o mundo circense, mais especificamente sobre a arte do trapézio, um amor da autora, que não se privou de uma pesquisa rigorosa sobre este tema.
   A narrativa é fluida e a autora conseguiu captar as emoções, medos e pressões do casal de trapezistas, Mario e Tommy, um amor que desafia convenções, a que se juntam brigas quase constantes e uma árdua separação. Vemos o crescimento das personagens principais e a consciência de se ser diferente e de ter direito a amar, no meio do sonho que é voar no trapézio.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O Pássaro de Peito Vermelho

   O primeiro policial de Jó Nesbø que li, o primeiro publicado em Portugal, embora seja o terceiro da série "Harry Hole". Harry, um inspector da polícia norueguesa, anti-herói, alcoólico, uma personagem clássica. Uma leitura compulsiva, um autor nórdico a devorar. 
   Os outros policiais desta série já publicados por cá são: O Morcego (#1); Vingança a Sangue Frio (#4); A Estrela do Diabo (#5); O Redentor (#6); O Boneco de Neve (#7) e O Leopardo (#8). O Morcego, embora tenha sido o primeiro livro, foi o último a ser editado em português, há poucas semanas.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Prémios Cigno - nomeação Melhor Blogue LGBT Friendly

   Em primeiro de tudo, aqui está a imagem. Espectacular. Gosto imenso, tem muito charme, embora seja sóbria.  Em segundo, ainda vou a tempo de agradecer e de divulgar esta iniciativa, não vou?  :) Agradeço a quem me nomeou, não estava à espera, este blogue é tão ecléctico, tanto escrevo sobre os meus gatos como sobre livros, a minha vida, os meus desastres domésticos, como registo umas linhas de índole lgbt, é certo. A provar está o meu singelo livro ali à direita (já o leram?) :)
   A votação nos Cigno 2015 encontra-se aberta até dia 24 de Abril, neste link aqui.
   E para comprovar a vertente lgbt deste canto, deixo-vos o vídeo do 'Alta Definição' do sábado passado, que contou com o fabuloso e simpatiquíssimo Marco da Silva. É uma entrevista maravilhosa. :)

Arturo Pérez-Reverte

   Ele é Coy, suspenso do seu trabalho na marinha mercante, um marinheiro introvertido, pouco sociável, calado, perdido em terra. Ela é Tânger, uma historiadora que trabalha no Museu Naval, em Madrid. E há um tesouro perdido num naufrágio dois séculos antes. Esta é mais do que uma história de amor e aventura. Cheia de ternura, melancolia, encerra um final surpreendente.
   Uma narrativa fascinante. Um escritor que se tornou num dos meus favoritos.

   Teresa Mendoza, a Mexicana. De namorada de um narcotraficante de Sinaloa, México, a chefe de um império de tráfico de droga na Costa del Sol, Espanha. De miúda analfabeta a leitora voraz, de rapariga frágil a mulher implacável. Para sobreviver num mundo de homens, há que ser melhor do que eles. Muito melhor.
   Entre "corridos" e tequila, regado com um humor perverso, um escritor - alter ego de Pérez-Reverte - investiga a história de Teresa Mendoza.
   Uma ficção espantosa, confirmando o autor como um dos grandes romancistas espanhóis da actualidade.
   Este é o sexto romance de Pérez-Reverte que leio. Um escritor que recomendo, naturalmente. E é notável a capacidade deste autor de escrever histórias tão diferentes e de apresentar personagens femininas sempre muito fortes.

domingo, 5 de abril de 2015

Feliz páscoa e tal

  Afinal, a máquina de lavar a roupa também quinou. Pois é, passei o fim-de-semana a lavar cuecas e meias e deixei a roupa mais pesada para o pacote da lavandaria. Se o seguro não me pagar, vou abrir um crowdfunding aqui no blogue. E a ajudar à brincadeira, o portátil não aceita o modem novo. Estar a escrever no tablet é dose, mas, vá, pelo menos tenho um :-P
   A vossa páscoa também foi supimpa?

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Vida

   "Se calhar, o que acontece é que isto é a vida, dizia para consigo desconcentrada, e o passar dos anos, a velhice, quando chegar, não é mais do que olhar para trás e ver as muitas pessoas estranhas que fomos e nas quais não nos reconhecemos." - p. 192.

   Arturo Pérez-Reverte, A Rainha do Sul, Edições Asa, 2003.

terça-feira, 31 de março de 2015

Karma is a... II

   Ontem ao fim da tarde, quando cheguei a casa, não tinha electricidade. A primeira coisa que faço quando abro a porta é acender a luz do hall. Nada. Pensei de imediato que estivesse fundida, aliás, foi isso mesmo que comentei com os gatos quando me cumprimentaram: 'Olhem, a lâmpada fundiu-se. Tenho que a mudar. Que chatice ter de subir ao escadote...'. Pronto, desabafo feito, fui para a cozinha e poisei o saco das compras em cima da bancada. Nem abri a luz. Fui ao quarto-de-banho e reparei que o rádio-despertador estava desligado. Ok. Faltou a luz. Voltei à cozinha, abri o frigorífico. Estava quente. Tinha mesmo faltado a luz. Pensei que fosse geral, no prédio, na rua, mas por via das dúvidas, fui ao quadro da electricidade, que está no hall. Pois, o disjuntor estava em baixo. Tive uma sobrecarga de energia. Não sei. Não faço ideia como aconteceu. Liguei-o, voltei ao frigorífico, abri o congelador, estava cheio de caixas com a minha sopa e com a carne da Batá (sim, dou carne picada à bicha, de vez em quando). Não estavam descongeladas, ou seja, o problema deve ter acontecido pela manhã ou ao princípio da tarde.
   Mas estoirou com três aparelhos eléctricos: o rádio-despertador do quarto-de-banho, o router e o esquentador eléctrico. Pensei que fosse das tomadas, ora vá lá desligar e experimentar noutro sítio, usar uma extensão para o esquentador, ligar o micro-ondas, a torradeira, tudo funcionou excepto aqueles três aparelhos. O rádio, pacífico, o do quarto funcionava, o wireless, a internet não me faz assim tanta falta em casa, mas o esquentador, sim. Só pensei em como iria tomar banho nos dias seguintes. E pronto. Esta manhã, fui de chaleira para o duche. Calma, que é daquelas de fogão e que silvam quando a água ferve. Uma primeira molhadela com água fria, ensaboadela e chaleira para cima de mim. Se fosse no Verão, até ia um duchezinho frio, mas não agora, embora prevejam um aumento simpático de temperatura.
   Não sei como aconteceu isto. É a primeira vez. Um curto-circuito, uma sobrecarga de energia, não faço ideia. Tenho de ligar ao Seguro e tratar disto o mais rápido possível.
   Maldito karma. O universo está a devolver. Ontem fui ao hipermercado e paguei as compras nas caixas rápidas. Em casa, reparei que passei apenas um pacote de leite de 200 ml na caixa em vez da embalagem de três. Passei o primeiro código de barras que encontrei e foi o do pacote. Tenho que fazer algo. Ou regresso ao hiper e vou à caixa central e pago os 2 pacotes ou ajudo uma velhinha a atravessar a estrada. Mas as velhinhas não precisam de ajuda. São todas activas e estão no facebook até de madrugada. Vou à caixa central.

domingo, 29 de março de 2015

Domingo de Ramos

   Aos domingos de manhã, a minha Mãe, eu e o meu irmão íamos à missa. Vestíamos a roupa de domingo. Era assim que a minha Mãe dizia, “A roupa de domingo”. Recordo-me bem de uma camisola de losangos verdes e amarelos que recebi num Natal, quando tinha sete ou oito anos, e que usei até me ficar curta, mas bastante curta nos braços. Adorava aquela camisola.
   Recordo-me, também, que, aos domingos, depois do almoço, íamos ao café e a minha Mãe comprava um nougat para mim e outro para o meu irmão; tal como a roupa de domingo, os nougats estavam reservados para aquele dia.
   E, todos os anos, no Domingo de Ramos, a minha Mãe espalhava alecrim à porta de casa.
   Hoje é Domingo de Ramos. Já não há alecrim no chão nem roupa de domingo. Tenho saudades. Tenho saudades da minha Mãe, daqueles domingos especiais e do nougat.

quinta-feira, 26 de março de 2015

WS de tecelagem

   No ciclo preparatório, tive Trabalhos Manuais. Fiz uma base para a mesa em ráfia, um cinzeiro de barro e uma tábua de cozinha. Do 7.º ao 9.º, tive disciplinas como madeiras e horto-floricultura. Nunca mexera num tear, nem no mais simples, de pregos.
   Há uns tempos, inscrevi-me num workshop de tecelagem. Conheci a tecelã no curso de formação pedagógica de formadores, em Janeiro passado. Ela tem um atelier no Seixal e, para dar formação, necessitava do curso.
   Na terça-feira, foi o último dia. Passava das onze da noite quando acabou. Confesso que deixei umas pontas por rematar, finalizando-as em casa (coisa que ainda não o fiz).
   Em certas alturas, tive vontade de desistir. Não é fácil. Exige muita concentração. No início, é pura matemática, temos de calcular os fios para a teia e para a trama, de acordo com a medida da peça. Depois, é fixar os quadros, seguir os gráficos, ter muito cuidado para a naveta não entrar no fio errado.
   Teia, trama, urdir, marcar a cruz dos cadilhos, liços, restilho, órgão, remissa, naveta, puas, quadros, marchas, ourelas, pouca ou muita batida, embebimento, passeta, tantos termos que desconhecia. O mais importante, aprendi. Aprendi saindo da minha zona de conforto. Até janeiro, nunca tinha pensado em fazer este tipo de formação. Estava muito longe de querer aprender a trabalhar num tear. Nem sabia que no Seixal havia um atelier.
   Foi cansativo, mas gostei muito. E ter sido realizado perto de casa foi óptimo.








quarta-feira, 25 de março de 2015

Era como o jazz... sobre isso também não se podia ler nos livros

   - Tratei de estudar. É o meu trabalho. Se procurares bem, podes encontrar tudo nos livros.
   Coy manteve-se em silêncio, mas tinha as suas dúvidas. Tinha lido sobre o mar durante toda a sua vida, e nunca encontrara ali nada sobre o grito de angústia de uma toninha que salta na água com o flanco arrancado pela dentada de uma orca. Nem sobre a noite mais curta da sua vida, com a aurora iniciando-se encadeada ao crepúsculo no horizonte avermelhado da enseada de Oulu, a poucas milhas do círculo polar árctico. Nem sobre o canto dos kroomen, os estivadores pretos, no castelo de proa em noite de lua, diante de Pointe-Noire, no Gabão, com os porões e a coberta cheios de troncos empilhados de ocumé e cajueiro. Nem sobre o estrépito aterrador de um Cantábrico onde céu e mar se confundem sob uma cortina de espuma cinzenta, depressões de catorze metros e vento de oitenta nós, com as ondas deformando os contentores, acorrentados na coberta como se fossem de papel, antes de os arrancarem, levando-os borda fora; a tripulação de vigia amarrada em qualquer sítio da ponte, aterrada, e os restantes nos camarotes, rolando pelo chão contra as portas, vomitando como porcos. Era como o jazz, no fim de contas: os improvisos de Duke Ellington, o saxofone-tenor de John Coltrane ou a bateria de Elvin Jones. Sobre isso também não se podia ler nos livros.

Arturo Pérez-Reverte, O Cemitério dos Barcos Sem Nome, Círculo de Leitores, 2000, pp. 134-135.