quarta-feira, 3 de junho de 2015

Escolhas futuras

   "Ao que parece o país em que vivo, este pequeno rectângulo à beira mar plantado, está de pernas para o ar. Os escândalos fazem fila indiana, como que a quererem ser notícia de capa de jornal ou abertura de noticiário televisivo em horário nobre. Verdadeiro parece ser o facto de o tema base para tudo estar já tão gasto. Infelizmente não podemos viver sem aquela bicha solitária que no final das contas de solitária nada parece ser.
   A conclusão final é que é a mais desconcertante: continuemos ao som dos passos do coelho ou com aquele antónio que dê à costa, a verdade é que será apenas mais do mesmo. E não existe porta mágica que nos salve, pois o povo já não presta cavaco a soluções milagrosas.
   Não existem ruborizados avôs suficientes nem sequer blocos experientes que construam um país melhor. Os cérebros ou estão enjaulados ou fogem como o Diabo à cruz, dando realmente a entender que afinal a massa cinzenta que devia encher aquelas cavidades cranianas não passa de massa da verde, que trama o pobre mas que arreganha os dentes aos afortunados.
   Valha-nos o calor que se entremeia com o vento e laivos de frio. Porque o calor aquece o corpo, enche as esplanadas de ávidos sedentos de água de cevada gaseificada e de chupadores de lesmas com casa, porém potencia o efeito contrário que é o de provocar o esquecimento, cobrindo com um véu as decisões futuras e os escândalos mais dispendiosos, já que os outros são alimentados pelo mesmo calor e escarrapachados nas revistas em que qualquer tuga que se preze, lá investe os parcos euros que ainda sobram.
   Passe a onda de calor e volte-se à contestação, pois o futuro a Deus pertence e o que é de Deus nem sempre está ao alcance de qualquer um."

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Reviver o Passado em Brideshead

   O sub-título deste livro é 'As memórias sagradas e profanas do Capitão Charles Ryder' e foi publicado em 1945 por Evelyn Waugh.
   'Reviver o Passado em Brideshead' conta a história da amizade entre Charles e o peculiar Sebastian, em Oxford, nos inícios dos anos 1920, sendo Charles agnóstico e Sebastin oriundo de uma família católica. Influenciado pela sua mãe, profundamente católica, aos poucos Sebastian vai perdendo o seu comportamento infantil e afunda a sua tristeza num constante estado ébrio, enquanto Charles encontra a sua vocação como pintor, desistindo de Oxford e indo estudar para Paris.
   O tempo é de mudanças; dos exuberantes anos pós-Primeira Guerra Mundial, com bailes de debutantes, festas, alegria, sucedem-se greves e movimentos sociais. Os anos passam. Charles é um reconhecido artista, casado, e a sua antiga amizade com a família é retomada quando encontra Julia, a irmã de Sebastian, que era tão parecida com ele, numa viagem de barco de regresso a Inglaterra. Brideshead encanta, novamente, Charles, mas, tal como acontecera anteriormente entre ele e Sebastian, a religião católica coloca entraves a esta nova relação.
   Sendo um excelente romance - e de 1945, logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial -, a revisão da tradução para português deixa muito a desejar. A edição que tenho é a mais recente, com a capa do filme de 2008; a Relógio D'Água publicou-o pela primeira vez em 2002. Nesta reedição, a editora deveria ter realizado uma revisão mais profunda: deixou passar erros como 'coxa' em vez de '' (quando Sebastian parte um dedo do pé - e não da coxa), ou 'encontrar-mo-nos', para além de algumas gralhas que empobrecem o livro.
   Em 1981, a Granada Television produziu a notável mini-série 'Reviver o Passado em Brideshead', que passou em Portugal em meados daquela década. Encontrei a versão restaurada no youtube, num canal criado com este nome. As interpretações de Jeremy Irons (como Charles Ryder - tão novo que ele é aqui) e de Anthony Andrews como Sebastian Flyte são extraordinárias. A série é fiel ao livro, pelo que sugiro que leiam umas dezenas de páginas e depois vejam os episódios. Vale a pena.
   Aqui fica um vídeo do primeiro episódio (cada um tem a duração de dez minutos e passa para o seguinte automaticamente):

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Tigre Branco


   O escritor indiano Aravind Adiga, nascido em 1974, com este romance de estreia, ganhou o Man Booker Prize em 2008.
   Este é o retrato do grande país que é a Índia, mas a Índia corrupta, violenta, onde as diferenças entre as classes sociais, onde os ricos mandam e desmandam, e os pobres, os mendigos, os sem-abrigo sobrevivem em bairros de lata, sob os viadutos, nas bermas das estradas. Esta é a história, contada na primeira pessoa, do ex-criado Balram Halwai, ex-motorista de um empresário rico, que tinha o sonho de sair da Escuridão, de não permanecer sempre de cócoras, de ser, também ele, um empresário.
   Balram, que antes dos dezoito anos, não tinha nome, era o 'Rapaz', foi 'baptizado' pelo seu professor, corrupto, sim, também ele, aquando das eleições. Porque aos dezoito anos já se podia votar, se bem que o jovem (e toda a população da sua aldeia maior de idade) já tinha votado e nem se tinha apercebido.
   A sua aldeia na Escuridão, Laxmangarth:
   "Vossa Excelência, é com orgulho que o informo de que Laxmangarth constitui um exemplo da típica aldeia paradisíaca indiana, adequadamente provida de electricidade, água corrente e telefones e que as crianças da minha aldeia, criadas com uma dieta nutritiva à base de carne, ovos, vegetais e lentilhas, quando examinadas com fita métrica e balança, preenchem os critérios de altura e peso mínimos estabelecidos pelas Nações Unidas e por outros organismos cujos tratados o nosso primeiro-ministro assinou e em cujos fóruns ele com tanta pompa e regularidade faz questão de marcar presença.", pode ler-se nas primeiras páginas. E é com este constante registo irónico, mordaz, ilustrando o grande poder de observação do autor, que vivemos a vida de Balram, os seus conflitos, dilemas, sonhos e luta por uma vida melhor, no quarto cheio de baratas na cave do condomínio de luxo onde o seu patrão vive.
   Esta é uma obra de ficção, toda a semelhança com a realidade é pura coincidência, lê-se no início da história. E, assim, a Índia romântica, magnífica, a Índia do espiritualismo, da aventura, é totalmente arrasada com este poderoso, mordaz e negro romance.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Lygia e Mário

   
     Dois pequenos grandes livros terminados no fim-de-semana: Antes do Baile Verde, de Lygia Fagundes Telles, e Ursamaior, de Mário Cláudio. Ambos classificados com 5* no goodreads.
 
   Antes do Baile Verde foi publicado pela primeira vez em 1970. O ebook que li é de 2009, da editora brasileira Companhia das Letras. Reúne dezoito contos, o primeiro escrito em 1949 e o último em 1970.
   São dezoito pequenas ficções intituladas 'Os Objetos'; 'Verde Lagarto Amarelo'; 'Apenas um Saxofone'; 'Helga'; 'O Moço do Saxofone'; 'Antes do Baile Verde'; 'A Caçada'; 'A Chave'; 'Meia-Noite em Ponto em Xangai'; 'A Janela'; 'Um Chá Bem Forte e Três Xícaras'; 'O Jardim Selvagem'; 'Natal na Barca'; 'A Ceia'; 'Venha Ver o Pôr-do-Sol'; 'Eu Era Mudo e Só'; 'As Pérolas' e 'O Menino'. O meu conto preferido é 'A Caçada', seguindo-se 'Natal na Barca', 'Eu Era Mudo e Só' e 'O Menino'.
   As páginas finais do livro reúnem algumas críticas literárias, uma carta de Carlos Drummond de Andrade, redigida em 1966, e um depoimento de Urbano Tavares Rodrigues, quando a autora foi galardoada com o Prémio Camões, em 2005.
   É um dos melhores livros de contos que já li, aconselho vivamente.


   Ursamaior, um presente que muito agradeço ao João Roque, foi publicado em 2000. Apresenta sete personagens encarceradas, do jovem assassino Henrique ao transformista Cristiana, passando pelo burlão Rogério e por Geraldo, o jogador, por exemplo.
   Através das narrativas ora na terceira pessoa, ora na primeira, intercalando-se as vidas dos sete homens presos umas nas outras, com os discursos e comportamentos muito próprios do nível de vida de cada um, o autor consegue transmitir um profundo conhecimento da língua portuguesa.
   A história inicial é a mais brutal, como brutal é o fim da última personagem apresentada.
   Mário Cláudio, de quem nunca tinha lido nada antes, é, com justiça, um dos grandes escritores portugueses da actualidade.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Frase do dia no goodreads

   No goodreads, leio a frase escolhida para hoje, segunda-feira: "Woke up this morning with a terrific urge to lie in bed all day and read", de Raymond Carver.
   Substituo a cama pela praia. Encontrei no folheto do Lidl esta espreguiçadeira e só me apetece meter baixa por deficiência de vitamina D.


  Ainda faltam dois meses para as minhas férias grandes.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Granta Portugal 5

   A Granta Portugal 5 tem como tema 'Falhar melhor' e os doze textos apresentados e um ensaio fotográfico abordam o desencanto, o pessimismo, a morte e outras coisas que não revelo para não desapontar os seus fiéis leitores.
   Paulo Varela Gomes é o primeiro autor. Um murro no estômago a frase inicial. O resto? Um texto pungente e de grande coragem.
   Os meus textos preferidos são de Jonathan Franzen, de Simon Schama - se pudesse escolher seria este o preferido dos que classifiquei com 5*, embora o mais longo que a Granta PT publicou até ao momento - e de Joana Bértholo. Fiquei agradavelmente surpreendida com a sua narrativa, embora seja algum densa.
   Gore Vidal? Ah, já escrevi um post sobre o seu texto. Adorei. :)
   Os outros autores que me agradaram foram Pedro Mexia, Herta Müller, Bruno Vieira Amaral e Patrícia Almeida/David-Alexandre Guéniot (ensaio fotográfico).
   Ora, esta poderia ter sido a primeira Granta que li de fio a pavio, sem interrupções, se não terminasse com um texto de Jacinto Lucas Pires. Acho que fica aquém dos outros. Li-o muito rapidamente.
   Na globalidade, este é um excelente número. A capa é de Jorge Colombo e as ilustrações são de Catarina Sobral.
   Uma revista muito mais pequena do que a anterior, a Granta Pt África, mas julgo que a superou. O que quer dizer que quantidade não significa qualidade.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Meio sol amarelo


   Romance vencedor do Orange Prize, descreve a guerra civil entre a Nigéria e a República do Biafra (1967-1970).
   Um drama, duas histórias de amor, centrados em dois núcleos: por um lado, Ollana, Odenigbo (professor na Universidade de Nsukka), Ugwo, o criado (extraordinária personagem), e Bebé (a filha do casal); por outro, Kainene, irmã gémea de Ollana, uma empresária que lida com os governantes corruptos da Nigéria, e o seu namorado inglês Richard, jornalista e aspirante a escritor. Duas irmãs tão diferentes que irão lutar pela mesma causa, o Biafra independente.
   O primeiro capítulo de 'Meio sol amarelo', o livro fora lançado em Portugal em 2009, foi recentemente publicado na Granta Portugal 4 - África. Graças a esta revista, pude comprovar a excelência da escrita desta autora nigeriana, que nunca tinha lido.
   Chimamanda Ngozi Adichie, da etnia ibo, inspirou-se nas histórias dos seus familiares que lutaram na guerra e em 2013 foi produzido um filme nigeriano baseado no seu romance.

   Outras informações sobre o Biafra podem ser consultadas na Wikipédia.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Epístola à Nova Era

   Eu juro, ontem, se não estivesse no comboio, tinha-me escangalhado a rir com a história do Gore Vidal, publicada na última Granta Portugal. Ok, comecei com um pé atrás, não dou mais do que 3*, mas depois a rábula vai crescendo, crescendo, num ritmo alucinante, que de 3* passou a 4* e terminou com 5* e um smile e eu a chegar a casa com um sorriso estampado no rosto.
   É  fabuloso quando uma história me faz sentir tão bem disposta depois de um longo dia de trabalho.
   Para quem tiver interesse, aqui está o original em inglês, publicado em 1990 (clicar neste link).

domingo, 17 de maio de 2015

Hoje, o namorado sou eu

   Foi com o texto abaixo apresentado que participei nesta iniciativa do Namorado. Reescrevi o que ele me enviou.
   Acertei em quatro dos seis bloggers. Suponho que não é mau, considerando que não sou leitora assídua dos respectivos blogues. Mas foi graças a uma outra brincadeira do Namorado que eu passei a seguir um.

***

   Quisesse parar o Tempo. Como num passe de magia, os dedos esvoaçando no ar, um meneio de leque. Apanhava-o com os dedos e guardava-o no bolso das jardineiras, junto do bilhete de cinema, da primeira vez que vi o ET, do berlinde da cor do arco-íris, da pastilha ainda por encetar, da carica com o número “1” desenhado a marcador Molin.
   Quisesse parar o Tempo. Congelá-lo no espelho do quarto grande, sentada em frente à cómoda. A Mãe a pentear-me com força, uma careta a deformar-me a cara. Por entre as pálpebras semicerradas, a espreitar no reflexo o seu pulso gordo virando o elástico uma, duas vezes.
   Quisesse parar o Tempo. Nesta velha fotografia a preto e branco, ao lado de colegas da escola primária que, meio século depois, continuam com oito anos. E eu, numa das raras vezes que usei saia, a mostrar uns joelhos ossudos enfarruscados, nódoas negras de quedas e esfoladelas das subidas às árvores.
   Olho pela vidraça da janela da sala o jardim banhado pelo luar. O vento do fim do outono solta mais umas folhas do velho castanheiro. Ergo a cabeça e vejo-me lá em cima, sentada num grosso ramo, puxando os ouriços com cuidado. Dias frios, noites quentes na cama de ferro pintada de branco, os lençóis de flanela, sonos sem sobressalto.
   Hoje, pelo contrário, as memórias enchem as noites em branco e, por estas horas silenciosas, desliza a minha alma. "Até quando? E porquê?"



Original:
   "Reflexivamente, observamos alguns cabelos brancos, enleados noutros pretos, que ganham jeitos furtivos. Vemos rugas expressivas de velhice. Verificamos uns olhos castanhos, a fundirem-se com um verde qualquer, isentos de emoções.
   Reflexivamente, percebemos tudo. Uma alma torturada pela ansiedade, provocante e inquisidora. Materializamos o vazio e uma perpétua indiferença, após uma noite de sonhos inquietos.
   Reflexivamente, surgem vozes, coloridas por perguntas sem resposta. Questões, que cozem as verdadeiras curiosidades. Até quando? E porquê?"