segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Quarenta e dois

   Sentou-se numa fila de três cadeiras, na ponta esquerda e retirou o livro da mala. O auditório estava, ainda, quase vazio, apesar de faltarem poucos minutos para a hora marcada. Minutos atrás, cumprimentara um director de serviços, uma assessora e umas quantas funcionárias das relações públicas. Relações públicas não seriam as palavras apropriadas, pensou, no instante em que mal recebera sorrisos das funcionárias. Não seriam antipáticas, mas afastaram-se dela momentos depois. Segundos para receberem os convidados, de sorrisos plásticos e dedos frios. Frios mas de unhas revestidas a verniz de gel, como está na moda. Cronometrariam os segundos consoante os convidados? A sua recepção não durara mais do que cinco.
   Sentada, virou a cabeça para a direita e reparou nas unhas. A funcionária voltava a receber os convidados, mas perdia mais tempo com aquele grupo. Seria dela. Olhou para as suas próprias unhas, curtas, uma cutícula inflamada, a do indicador esquerdo. Roera uma pele. Pensou numa colega de um curso que fizera meses antes. «Seria incapaz de usar dedos carecas.», dissera ela, num almoço qualquer. «Dedos carecas e andar no rés-do-chão.» A colega usava sapatos de salto alto e era tão alta como ela. Mas falava muito mais do que ela, enquanto olhava os colegas lá do alto.
   Ouvia pedaços da conversa do grupo. Era inevitável, estando tão próximo dela. Falava-se de Atlanta. Uma convidada conversava com o Presidente do instituto, sabia quem ele era, claro, embora nunca o tivesse cumprimentado. Que tinha muita pena em faltar ao congresso que o instituto estava a organizar, mas o de Atlanta realizava-se exactamente, mas exactamente nos mesmos dias que o nosso. E já se tinha inscrito. «Claro que o nosso tem uma qualidade superior, basta ver o elenco.», ouviu. Elenco, pensou. Parecia que estava a falar da telenovela das nove. Ergueu a cabeça do livro aberto nos joelhos e viu a convidada de costas. Calças de ganga, marca igual à que vestia, um número maior do que o seu, sem dúvida. Um número 42 a caminho de Atlanta. Qual seria a conversão da roupa nos Estados Unidos da América?

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Festa da Amizade

   Domingo, 12h (mais ou menos). Tinha combinado com o Francisco que, da próxima vez que o Carlos (Limite do Oceano) regressasse a Lisboa, eu almoçaria com eles e dávamos 'uma volta' pela cidade. Bem, digamos que 'a volta' de ontem demorou umas cinco horas e calcorreámos uns 10 km, tendo começado na Casa dos Bicos e terminado em Sete Rios.
   Da Casa dos Bicos, subimos pela Rua da Madalena até ao Poço do Borratém, passámos na rua onde morei alguns anos, no início dos anos '90 (já lá não ia há muitos anos, as drogarias já não existem, nem os armazéns de atoalhados, muitas portas fechadas e vandalizadas, o armazém ruiu, só ficou a fachada, há mini-cafés, alguns prédios antigos restaurados, menos mal, apontei a casa onde morei, ali, 2.º andar (restaurada, agora, no 'meu tempo' era muito velha), ela chamava-se D. Alice, ele, Sr. Fernando, naquela altura tinham quase idade para serem meus avós, ele era reformado do Porto de Lisboa, ela, doméstica. Nunca mais soube deles. Há alguns anos, encontrei o Sr. Fernando na rua e disse-me que tinha ganho a lotaria, 50.000 €, e ajudou a filha a amortizar parte do empréstimo da casa (vivia na linha de Sintra, chamava-se Fernanda, a filha, e trabalhava, naquele tempo, na Sorefame). Confesso que esta parte da conversa ficou por dizer ontem. Fica o registo. Depois deste quarto, arrendei uma casa, também um segundo andar, pequeníssimo, na Mouraria, por coincidência, relativamente perto da antiga casa, no outro lado da Praça do Martim Moniz, junto à Rua do Benformoso. A Vila onde morei continua em mau estado, mas os prédios ao lado receberam obras e a calçada está mais bonita. O cheiro a especiarias também é mais notório agora que há vinte anos. Continuámos a subir, devagar em dia de calor, e parámos, finalmente, no Largo da Graça. A fome já apertava, estávamos cansados e cheios de sede. Procurámos um restaurante barato para almoçar e encontrámos um café que servia refeições, bem em conta. Sopa de nabiças, deliciosa, filetes com arroz de feijão, escalopes, alheira, batatas fritas caseiras, redondas, muito bem servido, água com fartura e a cereja no topo do bolo foi uma dose extra-gigante, 'é para acabar', de molotof. Quando regressei à mesa, depois da refeição, estava um prato com mais ou menos meio molotof. Repartido a régua e esquadro - pronto, a olho, mas tentou-se :p - por três - o Francisco comeu do prato e eu ajudei a rapar o caramelo :D . Chegada a conta, foi cobrada apenas uma dose de molotof, a tal 'é para acabar'. Claro que deixámos uma gorjeta, chegou para pagar as duas doses de sobremesa, saímos e seguimos viagem. Ao fundo, à esquerda, visitámos o Miradouro da Senhora do Monte, regressámos ao largo, fomos até à Vila Berta, depois, à Vila Souza e parámos no Miradouro da Graça. Descemos até ao Panteão, mas não entrámos, e acabámos esta volta na Estação de Santa Apolónia. Engraçado, não há muitos dias tinha passado por lá :p
   Como ainda faltava algum tempo para o Carlos apanhar o expresso em Sete Rios, resolvemos ir até ao jardim da Gulbenkian. Metro linha azul e uns minutos depois o Francisco colocou o seu francês à prova - e muito bem - com uns turistas no metro de S. Sebastião. Iam para a Gulbenkian. Passámos o CAM e embrenhámo-nos no belo jardim. Terminámos a passeata em beleza com gelados da gelataria do Centro Interpretativo, alfarroba, amendoim, oreo, conversa e fotos, muitas, para mais tarde recordar.
   No último dia do Avante (para o ano há mais, fui lá sexta e sábado), preferi passá-lo com estes meus amigos muito especiais. Conheço o Francisco há mais de dois anos, o Carlos há poucas semanas, são bons rapazes, e a eles dedico este vídeo (a versão curta do documentário 'Kora' passou no Cineavante - porque a Festa é mais que concertos e eu adorei a música do kora e só me apetece ouvi-la sem parar).



Trailer 1 Documentário Kora from Jorge Carvalho on Vimeo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Com um brilhozinho nos olhos

   A Lídia e eu tínhamos combinado um almoço com o Miguel há uns tempos. Convidei o Mark, que não conhecia a Lídia, e ontem, finalmente, almoçámos os quatro. O Miguel e a Lídia não se viam há bastante tempo e reuniram-se mais cedo.
   Eu fui ter com eles à hora do almoço. Tínhamos combinado mais ou menos um ponto de encontro, na Rua Marquês da Fronteira, no Bairro Azul. Mal eu subi as escadas do metro de S. Sebastião, avistei o Mark e, segundos depois, ouvi chamar por mim. Era a Lídia e o Miguel, que estavam mais atrás.
   A conversa prolongou-se muito depois da hora do almoço. Fomos os últimos a sair da sala do restaurante. Não tínhamos planos, ou melhor, os planos que havia envolvia estarmos ainda juntos até à hora de o Miguel ir apanhar o comboio de regresso a casa.
   A felicidade é um dia como o de ontem.

   E com um brilhozinho nos olhos
   Guardei um amigo
   Que é coisa que vale milhões.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Meu Tio - Verão com Jacques Tati

 

   Um Nimas muito bem composto ontem, na sessão das 19 h de 'O Meu Tio'. Como tinha sido a sessão anterior e, previa-se pelo público à entrada, sala igualmente quase cheia na da noite. Segunda-feira é dia mais barato e Tati bem merece este ciclo que a Medeia proporciona.
   Cenas deliciosas, um Monsieur Hulot grandioso, e não falo apenas da altura de Jacques Tati. Muitas risadas na sala e muitas crianças, neste fim de férias grandes.
   Verão com Jacques Tati a não perder. Se não todos os filmes, pelo menos à segunda-feira.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Taci e riposa: qui si spegne il canto

   A Lídia e eu almoçámos no início do mês, numa quarta-feira, num pequeno restaurante no Bairro Azul; trocámos livros, trocámos novidades, a Lídia, a sua viagem à Grécia, eu, as minhas férias.
   Já na passada terça-feira, disse, praticamente, 'Olá e adeus' a um blogger em Sete Rios, na companhia do Francisco. Depois, caminhámos, nesse fim de tarde ventoso, até pararmos na mesma rua onde tinha almoçado raia com arroz de pimentos com a Lídia. Eu e o Francisco partilhámos uma tosta de queijo e um chá de frutos vermelhos e muita conversa. Regressámos a Sete Rios quase pelo mesmo caminho passavam poucos minutos das oito da noite. 
   Já não estava com estes amigos há uns tempos. Gosto destes pequenos grandes encontros, espaçados assim no tempo, com comida caseira e boa conversa, sem pressas.
   E agora? Bem, estou quase, quase a terminar o livro que a Lídia me emprestou, 'O Pintor de Batalhas', de Arturo Pérez-Reverte. Um livro poderoso, sobre um ex-fotógrafo de guerra que decide a pintar um mural circular sobre o horror, a maldade, o caos, tendo por fonte as guerras por onde passou em trinta anos de actividade e a perda da mulher que amava, Olvido. Olvido é uma grande personagem; Pérez-Reverte desenha sempre mulheres fortes, destemidas, aventureiras, grandiosas e além da sua época. Estou a lembrar-me, por exemplo, de Lolita Palma, do extraordinário 'O Assédio', que se desenrola em 1811.
   Esta Olvido, por seu lado, é sombria, só o seu nome diz tudo. E foi Olvido, a dada altura, que referiu a Faulques, a personagem deste romance, o pintor de batalhas, este verso: 'Taci e riposa: qui se spegne il canto'. Cala-te e repousa: aqui se acaba o canto, assim está no romance.
  Este livro bebe em muitas fontes, desde pinturas de batalhas ao longo dos séculos, a poemas como este, de Andrea de Chirico/Alberto Savìnio) (no romance, é mencionado como Alberto de Chirico); é uma pequena maravilha.
   Fui pesquisar. Não conhecia. A obra chama-se 'Tragedia dell'infanzia'; o primeiro verso referido por Olvido faz parte deste poema que encontrei na p. 21 da tese de doutoramento «Tra Morte e verbo: la metafora saviniana della morte dalla Poesia al Teatro», de Leili Maria Kalamian (em pdf), pesquisada na internet (consegui guardar).

Taci e riposa Qui si spegne il canto
Della tua vita Dell'antico pianto
Torna più grave l'eco affievolita
In questa sosta in cui l'incanto
Muore Cedi alla serena
Pace la fronte in cui si smaga
La voce di sirena.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Férias


   Vou fazer como a Batá. Continuação de bom trabalho/boas férias (riscar o que não interessa).

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Taxi


   Segunda semana consecutiva no cinema, ontem, ao fim da tarde, dia do espectador nos UCI, sala bastante composta.
   Proíbe-se um realizador de exercer a sua profissão, mas o realizador, engenhosamente, filma clandestinamente; nasce um manifesto de liberdade, de crítica ao regime, um grito rebelde contra a intolerância do Irão. Um filme político, corajoso, divertido, vencedor do Urso de Ouro em Berlim.
   As cenas divertidas e caricatas são substituídas, à medida que o filme avança, por episódios sérios, intensos, tendo o sexo feminino (a sobrinha, a mulher das rosas) um papel preponderante.
   

    Omitindo os créditos finais e eventuais represálias aos actores amadores,  'Taxi' é um filme a não perder.
   Fica a crítica do jornal online Observador (link aqui).

segunda-feira, 13 de julho de 2015

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Reading

   Há uns dias, fui à biblioteca devolver o Paul e a Flannery e trouxe o Jo para fazer companhia ao Edmund e à sua famosa trilogia autobiográfica (estou a ler ao mesmo tempo 'A Vida Privada de Um Rapaz' e 'Um Belo Quarto Vazio', que termina com 'Sinfonia A Despedida'. 
   Depois destes livros, vou esconder o cartão da biblioteca. Quero colocar em dia a minha pilha até ao fim do ano.

(título roubado descaradamente ao Eolo).

quarta-feira, 8 de julho de 2015

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Céu Que Nos Protege


   Escrito em 1949 e publicado em 1989 pela Assírio & Alvim, narra em três partes a viagem de Port, Kit, casados, e Tunner, um amigo, pelo vasto e misterioso deserto do Sahara: Livro Primeiro: 'Chá no Sahara'; Livro Segundo: 'A Aresta Aguda da Terra' e Livro Terceiro: 'O Céu'. Os primeiros são viajantes, o segundo, turista, essa é a diferença.
   Até ler este romance, nunca me tinha deparado com uma descrição tão dolorosa sobre a morte, a morte mais dilacerante e solitária de um ser humano: «Sinto-me muito doente. Sinto-me horrível. Não há razão para medos, mas tenho medo. Por vezes não me encontro aqui, e não gosto disso. Porque estou tão longe e sozinho. Ninguém consegue lá chegar. É demasiado longe. E aí estou só. » (...) «Tão só que nem me ocorre a ideia de estar só »...
   Incapaz de lidar com essa morte, ela nega a realidade e refugia-se no deserto. A relação com os dois árabes, a submissão de uma ocidental num mundo masculino, é a única forma de sobrevivência. A narrativa de Bowles consegue contornar o abuso do acto. Não há adjectivos violentos, mas uma entrega em busca de protecção. E disfarçada de um jovem, a relação do árabe com esse 'aparente' homem torna-se normal aos olhos das outras mulheres.
   As marcas ficam para sempre, o terror da perda, a loucura, solidão dali para a frente e um refúgio naquele mundo tão diferente do seu.
   Bernardo Bertolucci adaptou este romance em 1990. Deixo três vídeos de 'Um Chá no Deserto': o início do filme, a maravilhosa banda sonora e parte do fim, onde aparece o autor do livro, Paul Bowles. O monólogo está descrito na p. 197 do romance, logo após a tragédia:
   'Esquecera aquela tarde de Agosto, há pouco mais de um ano, quando se tinham sentado sozinhos sobre a relva debaixo dos bordos, vendo o temporal a varrer o vale do rio e a subir na direcção deles, e então o tema fora a morte. E Port dissera: «A morte vem sempre a caminho mas o facto de não sabermos quando chegará parece afastar a natureza finita da vida. É essa terrível precisão que odiamos tanto. Mas, como não sabemos, pensamos que a vida é um poço inesgotável. No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um número muito reduzido. Quantas vezes mais recordarás uma certa tarde da tua infância, uma tarde que é, tão profundamente, uma parte do teu ser que nem podes conceber a tua vida sem ela? Talvez mais quatro ou cinco vezes. Talvez nem tanto. Quantas vezes mais contemplarás a lua cheia a erguer-se? talvez vinte. E, no entanto, tudo parece ilimitado.»