Quando eu menos esperava, apareceste…
Preparava-me para sair do bar, quando alguém se sentou no tamborete de madeira ao meu lado, no balcão. Esvaziei o copo e, discretamente, olhei-o. Com um aperto de mão, cumprimentou o barman e pediu o costume. Um cliente habitual, constatei.
Havia algo de diáfano naquele estranho, com o cabelo claro, a camisa branca, a pele pouco bronzeada, apesar de o Verão estar quase no fim.
Sorveu um pouco da bebida e, de seguida, retirou de uma embalagem de cartão um objecto. Maravilhado, mostrou-o ao barman. Reparei que as suas mãos pálidas como que brilhavam ao segurar, com extrema delicadeza, aquela peça.
Então, começou a contar a história, Estava a caminhar numa pequena rua, depois de uma reunião de trabalho ali perto, e parara diante da montra de uma loja de objectos usados. De uma parede, pendiam, quase até ao chão, uns pequenos focos, como uma silenciosa cascata de luz. E, em baixo, estava aquela peça. Ficou tão fascinado pela sua beleza que decidiu comprá-la naquele momento. E agora ali estava ela. Pousada no balcão profano e adorada como uma divindade.
Era um singelo candeeiro a petróleo com uma base de metal dourado e uma chaminé delicadamente ornamentada.
Interrompi-o. Disse-lhe que, quando era miúdo, acendera dezenas de vezes um candeeiro a petróleo exactamente igual àquele, na casa da minha avó.
Depois da terceira bebida, confidenciei-lhe, já sentados numa mesa longe do balcão, que ainda o tinha em casa, em lugar de honra, em cima da cómoda.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
O conto do Miguel
São Pedro de Moel. Julho
O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.
O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
O conto do João Máximo
Loiras, ruivas ou morenas?
“Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
“No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
Escutavam-no, cativados.
“Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
“Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”
“Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
“No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
Escutavam-no, cativados.
“Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
“Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
O conto do João Roque
Eu fui à tua procura
Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.
Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
O conto do Silvestre
O pernóstico capcioso vituperador
Uma noite, à saída do restaurante, um homem velho, magro, de sobretudo escuro e laço ao pescoço, ergueu uma bengala à frente deles.
“Péssima escolha.”, declarou, abruptamente, barrando-lhes a passagem. Apontou para o restaurante com a ponta da bengala. Depois, disse, com um tom altivo, que conhecia um clube de bridge com um óptimo serviço. “Os senhores seriam bem-vindos. Convido-vos.”
Com a confiança de um homem que sabia dar ordens e ser obedecido prontamente, fixou-lhes um olhar astuto. Mantinha a bengala no ar.
Olharam-no, emudecidos. O estranho interpretou como se fosse submissão.
Um deles abanou a cabeça.
“Lamento, mas acabamos de jantar. Estamos cansados. Mas podemos oferecer-lhe uma bebida rápida aqui”, respondeu.
“É um lugar repugnante. Jamais entraria aí dentro.”, foi a resposta do estranho.
Empertigado e agitando com maneirismos a bengala, viram-no afastar-se.
Algum tempo depois, foram jantar ao mesmo restaurante. Recordaram-se do episódio estranho e perguntaram ao dono se conhecia o velhote.
“Um louco que se julga um barão!”, exclamou. “Só porque, um dia, há alguns anos, não o servimos com o requinte que desejava. Isto é um estabelecimento familiar. De vez em quando, aparece por aqui. Engraça comigo e desgraça-me a casa, essa é a verdade. Espalha boatos na rua.”
Por fim, acalmou-se e sorriu. “Mas os senhores gostam de cá vir”.
Anos depois, continuam a jantar naquele restaurante. De vez em quando, ainda se recordam do barão que não era barão, do clube de bridge que não existia e trocam sorrisos cúmplices.
Uma noite, à saída do restaurante, um homem velho, magro, de sobretudo escuro e laço ao pescoço, ergueu uma bengala à frente deles.
“Péssima escolha.”, declarou, abruptamente, barrando-lhes a passagem. Apontou para o restaurante com a ponta da bengala. Depois, disse, com um tom altivo, que conhecia um clube de bridge com um óptimo serviço. “Os senhores seriam bem-vindos. Convido-vos.”
Com a confiança de um homem que sabia dar ordens e ser obedecido prontamente, fixou-lhes um olhar astuto. Mantinha a bengala no ar.
Olharam-no, emudecidos. O estranho interpretou como se fosse submissão.
Um deles abanou a cabeça.
“Lamento, mas acabamos de jantar. Estamos cansados. Mas podemos oferecer-lhe uma bebida rápida aqui”, respondeu.
“É um lugar repugnante. Jamais entraria aí dentro.”, foi a resposta do estranho.
Empertigado e agitando com maneirismos a bengala, viram-no afastar-se.
Algum tempo depois, foram jantar ao mesmo restaurante. Recordaram-se do episódio estranho e perguntaram ao dono se conhecia o velhote.
“Um louco que se julga um barão!”, exclamou. “Só porque, um dia, há alguns anos, não o servimos com o requinte que desejava. Isto é um estabelecimento familiar. De vez em quando, aparece por aqui. Engraça comigo e desgraça-me a casa, essa é a verdade. Espalha boatos na rua.”
Por fim, acalmou-se e sorriu. “Mas os senhores gostam de cá vir”.
Anos depois, continuam a jantar naquele restaurante. De vez em quando, ainda se recordam do barão que não era barão, do clube de bridge que não existia e trocam sorrisos cúmplices.
domingo, 27 de setembro de 2015
O conto do Ricardo
Se o amor acontecesse
Fora há doze anos.
Tinham-se conhecido no trabalho. Departamentos diferentes, três andares de distância, encetaram uma conversa de circunstância num dos elevadores. “Cheguei na semana anterior”, respondera a uma pergunta mais curiosa. “Ainda não conheço muita gente”. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, voltaram a encontrar-se à porta do escritório. Sorrisos de reconhecimento, casacos apertados, os dias começavam a arrefecer, um cachecol fora enrolado, uma gola do casaco levantada.
Lembrava-se de todos os pormenores, de como caminharam sem destino durante muito tempo, de como a conversa acabava de repente e um silêncio, que começava a ser familiar, se instalava entre eles, enquanto se iam afastando do centro.
Anoiteceu devagar. Os candeeiros da rua acenderam-se, o trânsito tornou-se mais intenso. Hora de ponta. A um dado momento, declarou que era a altura do dia que preferia, quando as pessoas se apressavam para chegar a casa. “Sinto-me a nadar contra a corrente, como o salmão a subir o rio”. Riram.
Depois, sem saber como, tinham parado à porta daquele pequeno restaurante. Entraram, sentaram-se numa mesa junto à janela e jantaram.
Sete meses depois do primeiro encontro, a pergunta interrompeu um dos muitos silêncios que habitava entre eles desde o início.
“O que farias, se o amor acontecesse?”
Nunca tinham discutido o assunto e ficou surpreendido com a pergunta. Não ousou responder logo. Olhou pela janela a rua deserta. Chovia nessa noite, uma chuva puxada a vento, que batia no vidro sem cessar. Comoveu-se.
“Caminhava”, murmurou, por fim.
Fora há doze anos.
Tinham-se conhecido no trabalho. Departamentos diferentes, três andares de distância, encetaram uma conversa de circunstância num dos elevadores. “Cheguei na semana anterior”, respondera a uma pergunta mais curiosa. “Ainda não conheço muita gente”. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, voltaram a encontrar-se à porta do escritório. Sorrisos de reconhecimento, casacos apertados, os dias começavam a arrefecer, um cachecol fora enrolado, uma gola do casaco levantada.
Lembrava-se de todos os pormenores, de como caminharam sem destino durante muito tempo, de como a conversa acabava de repente e um silêncio, que começava a ser familiar, se instalava entre eles, enquanto se iam afastando do centro.
Anoiteceu devagar. Os candeeiros da rua acenderam-se, o trânsito tornou-se mais intenso. Hora de ponta. A um dado momento, declarou que era a altura do dia que preferia, quando as pessoas se apressavam para chegar a casa. “Sinto-me a nadar contra a corrente, como o salmão a subir o rio”. Riram.
Depois, sem saber como, tinham parado à porta daquele pequeno restaurante. Entraram, sentaram-se numa mesa junto à janela e jantaram.
Sete meses depois do primeiro encontro, a pergunta interrompeu um dos muitos silêncios que habitava entre eles desde o início.
“O que farias, se o amor acontecesse?”
Nunca tinham discutido o assunto e ficou surpreendido com a pergunta. Não ousou responder logo. Olhou pela janela a rua deserta. Chovia nessa noite, uma chuva puxada a vento, que batia no vidro sem cessar. Comoveu-se.
“Caminhava”, murmurou, por fim.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Bette Davis 2015
Está aberta a 4.ª edição do Bette Davis. Quem quiser participar, só tem de me dar um título até 5 palavras e eu escreverei um micro-conto com 250 palavras, incluindo o título. A caixa de comentários é vossa.
domingo, 20 de setembro de 2015
Para Além das Montanhas
Através de um monólogo pungente, sofredor, carregado de amor, um imenso amor por um irmão doente, por onde pulsam as recordações, 'Para Além das Montanhas' transporta-nos para uma terra no nordeste de Portugal, para outros tempos, para um lugar onde desliza um rio, para um milheiral, para uma casa velha, pobre, para trabalhos duros, para uma vida, afinal, difícil de gente simples, para dois irmãos inseparáveis, para uma avó sábia e protectora.
Um romance rico em palavras e expressões típicas, em descrições que me fizeram recordar a infância, a aldeia, para aquele tempo em que, mesmo na dificuldade, fui feliz.
O autor, Ricardo, é filho da minha amiga Lídia. Obrigada ao Ricardo pela dedicatória e à Lídia pela generosa oferta.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Quarenta e dois
Sentou-se numa fila de três cadeiras, na ponta esquerda e retirou o livro da mala. O auditório estava, ainda, quase vazio, apesar de faltarem poucos minutos para a hora marcada. Minutos atrás, cumprimentara um director de serviços, uma assessora e umas quantas funcionárias das relações públicas. Relações públicas não seriam as palavras apropriadas, pensou, no instante em que mal recebera sorrisos das funcionárias. Não seriam antipáticas, mas afastaram-se dela momentos depois. Segundos para receberem os convidados, de sorrisos plásticos e dedos frios. Frios mas de unhas revestidas a verniz de gel, como está na moda. Cronometrariam os segundos consoante os convidados? A sua recepção não durara mais do que cinco.
Sentada, virou a cabeça para a direita e reparou nas unhas. A funcionária voltava a receber os convidados, mas perdia mais tempo com aquele grupo. Seria dela. Olhou para as suas próprias unhas, curtas, uma cutícula inflamada, a do indicador esquerdo. Roera uma pele. Pensou numa colega de um curso que fizera meses antes. «Seria incapaz de usar dedos carecas.», dissera ela, num almoço qualquer. «Dedos carecas e andar no rés-do-chão.» A colega usava sapatos de salto alto e era tão alta como ela. Mas falava muito mais do que ela, enquanto olhava os colegas lá do alto.
Ouvia pedaços da conversa do grupo. Era inevitável, estando tão próximo dela. Falava-se de Atlanta. Uma convidada conversava com o Presidente do instituto, sabia quem ele era, claro, embora nunca o tivesse cumprimentado. Que tinha muita pena em faltar ao congresso que o instituto estava a organizar, mas o de Atlanta realizava-se exactamente, mas exactamente nos mesmos dias que o nosso. E já se tinha inscrito. «Claro que o nosso tem uma qualidade superior, basta ver o elenco.», ouviu. Elenco, pensou. Parecia que estava a falar da telenovela das nove. Ergueu a cabeça do livro aberto nos joelhos e viu a convidada de costas. Calças de ganga, marca igual à que vestia, um número maior do que o seu, sem dúvida. Um número 42 a caminho de Atlanta. Qual seria a conversão da roupa nos Estados Unidos da América?
Sentada, virou a cabeça para a direita e reparou nas unhas. A funcionária voltava a receber os convidados, mas perdia mais tempo com aquele grupo. Seria dela. Olhou para as suas próprias unhas, curtas, uma cutícula inflamada, a do indicador esquerdo. Roera uma pele. Pensou numa colega de um curso que fizera meses antes. «Seria incapaz de usar dedos carecas.», dissera ela, num almoço qualquer. «Dedos carecas e andar no rés-do-chão.» A colega usava sapatos de salto alto e era tão alta como ela. Mas falava muito mais do que ela, enquanto olhava os colegas lá do alto.
Ouvia pedaços da conversa do grupo. Era inevitável, estando tão próximo dela. Falava-se de Atlanta. Uma convidada conversava com o Presidente do instituto, sabia quem ele era, claro, embora nunca o tivesse cumprimentado. Que tinha muita pena em faltar ao congresso que o instituto estava a organizar, mas o de Atlanta realizava-se exactamente, mas exactamente nos mesmos dias que o nosso. E já se tinha inscrito. «Claro que o nosso tem uma qualidade superior, basta ver o elenco.», ouviu. Elenco, pensou. Parecia que estava a falar da telenovela das nove. Ergueu a cabeça do livro aberto nos joelhos e viu a convidada de costas. Calças de ganga, marca igual à que vestia, um número maior do que o seu, sem dúvida. Um número 42 a caminho de Atlanta. Qual seria a conversão da roupa nos Estados Unidos da América?
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Festa da Amizade
Domingo, 12h (mais ou menos). Tinha combinado com o Francisco que, da próxima vez que o Carlos (Limite do Oceano) regressasse a Lisboa, eu almoçaria com eles e dávamos 'uma volta' pela cidade. Bem, digamos que 'a volta' de ontem demorou umas cinco horas e calcorreámos uns 10 km, tendo começado na Casa dos Bicos e terminado em Sete Rios.
Da Casa dos Bicos, subimos pela Rua da Madalena até ao Poço do Borratém, passámos na rua onde morei alguns anos, no início dos anos '90 (já lá não ia há muitos anos, as drogarias já não existem, nem os armazéns de atoalhados, muitas portas fechadas e vandalizadas, o armazém ruiu, só ficou a fachada, há mini-cafés, alguns prédios antigos restaurados, menos mal, apontei a casa onde morei, ali, 2.º andar (restaurada, agora, no 'meu tempo' era muito velha), ela chamava-se D. Alice, ele, Sr. Fernando, naquela altura tinham quase idade para serem meus avós, ele era reformado do Porto de Lisboa, ela, doméstica. Nunca mais soube deles. Há alguns anos, encontrei o Sr. Fernando na rua e disse-me que tinha ganho a lotaria, 50.000 €, e ajudou a filha a amortizar parte do empréstimo da casa (vivia na linha de Sintra, chamava-se Fernanda, a filha, e trabalhava, naquele tempo, na Sorefame). Confesso que esta parte da conversa ficou por dizer ontem. Fica o registo. Depois deste quarto, arrendei uma casa, também um segundo andar, pequeníssimo, na Mouraria, por coincidência, relativamente perto da antiga casa, no outro lado da Praça do Martim Moniz, junto à Rua do Benformoso. A Vila onde morei continua em mau estado, mas os prédios ao lado receberam obras e a calçada está mais bonita. O cheiro a especiarias também é mais notório agora que há vinte anos. Continuámos a subir, devagar em dia de calor, e parámos, finalmente, no Largo da Graça. A fome já apertava, estávamos cansados e cheios de sede. Procurámos um restaurante barato para almoçar e encontrámos um café que servia refeições, bem em conta. Sopa de nabiças, deliciosa, filetes com arroz de feijão, escalopes, alheira, batatas fritas caseiras, redondas, muito bem servido, água com fartura e a cereja no topo do bolo foi uma dose extra-gigante, 'é para acabar', de molotof. Quando regressei à mesa, depois da refeição, estava um prato com mais ou menos meio molotof. Repartido a régua e esquadro - pronto, a olho, mas tentou-se :p - por três - o Francisco comeu do prato e eu ajudei a rapar o caramelo :D . Chegada a conta, foi cobrada apenas uma dose de molotof, a tal 'é para acabar'. Claro que deixámos uma gorjeta, chegou para pagar as duas doses de sobremesa, saímos e seguimos viagem. Ao fundo, à esquerda, visitámos o Miradouro da Senhora do Monte, regressámos ao largo, fomos até à Vila Berta, depois, à Vila Souza e parámos no Miradouro da Graça. Descemos até ao Panteão, mas não entrámos, e acabámos esta volta na Estação de Santa Apolónia. Engraçado, não há muitos dias tinha passado por lá :p
Como ainda faltava algum tempo para o Carlos apanhar o expresso em Sete Rios, resolvemos ir até ao jardim da Gulbenkian. Metro linha azul e uns minutos depois o Francisco colocou o seu francês à prova - e muito bem - com uns turistas no metro de S. Sebastião. Iam para a Gulbenkian. Passámos o CAM e embrenhámo-nos no belo jardim. Terminámos a passeata em beleza com gelados da gelataria do Centro Interpretativo, alfarroba, amendoim, oreo, conversa e fotos, muitas, para mais tarde recordar.
No último dia do Avante (para o ano há mais, fui lá sexta e sábado), preferi passá-lo com estes meus amigos muito especiais. Conheço o Francisco há mais de dois anos, o Carlos há poucas semanas, são bons rapazes, e a eles dedico este vídeo (a versão curta do documentário 'Kora' passou no Cineavante - porque a Festa é mais que concertos e eu adorei a música do kora e só me apetece ouvi-la sem parar).
Trailer 1 Documentário Kora from Jorge Carvalho on Vimeo.
Da Casa dos Bicos, subimos pela Rua da Madalena até ao Poço do Borratém, passámos na rua onde morei alguns anos, no início dos anos '90 (já lá não ia há muitos anos, as drogarias já não existem, nem os armazéns de atoalhados, muitas portas fechadas e vandalizadas, o armazém ruiu, só ficou a fachada, há mini-cafés, alguns prédios antigos restaurados, menos mal, apontei a casa onde morei, ali, 2.º andar (restaurada, agora, no 'meu tempo' era muito velha), ela chamava-se D. Alice, ele, Sr. Fernando, naquela altura tinham quase idade para serem meus avós, ele era reformado do Porto de Lisboa, ela, doméstica. Nunca mais soube deles. Há alguns anos, encontrei o Sr. Fernando na rua e disse-me que tinha ganho a lotaria, 50.000 €, e ajudou a filha a amortizar parte do empréstimo da casa (vivia na linha de Sintra, chamava-se Fernanda, a filha, e trabalhava, naquele tempo, na Sorefame). Confesso que esta parte da conversa ficou por dizer ontem. Fica o registo. Depois deste quarto, arrendei uma casa, também um segundo andar, pequeníssimo, na Mouraria, por coincidência, relativamente perto da antiga casa, no outro lado da Praça do Martim Moniz, junto à Rua do Benformoso. A Vila onde morei continua em mau estado, mas os prédios ao lado receberam obras e a calçada está mais bonita. O cheiro a especiarias também é mais notório agora que há vinte anos. Continuámos a subir, devagar em dia de calor, e parámos, finalmente, no Largo da Graça. A fome já apertava, estávamos cansados e cheios de sede. Procurámos um restaurante barato para almoçar e encontrámos um café que servia refeições, bem em conta. Sopa de nabiças, deliciosa, filetes com arroz de feijão, escalopes, alheira, batatas fritas caseiras, redondas, muito bem servido, água com fartura e a cereja no topo do bolo foi uma dose extra-gigante, 'é para acabar', de molotof. Quando regressei à mesa, depois da refeição, estava um prato com mais ou menos meio molotof. Repartido a régua e esquadro - pronto, a olho, mas tentou-se :p - por três - o Francisco comeu do prato e eu ajudei a rapar o caramelo :D . Chegada a conta, foi cobrada apenas uma dose de molotof, a tal 'é para acabar'. Claro que deixámos uma gorjeta, chegou para pagar as duas doses de sobremesa, saímos e seguimos viagem. Ao fundo, à esquerda, visitámos o Miradouro da Senhora do Monte, regressámos ao largo, fomos até à Vila Berta, depois, à Vila Souza e parámos no Miradouro da Graça. Descemos até ao Panteão, mas não entrámos, e acabámos esta volta na Estação de Santa Apolónia. Engraçado, não há muitos dias tinha passado por lá :p
Como ainda faltava algum tempo para o Carlos apanhar o expresso em Sete Rios, resolvemos ir até ao jardim da Gulbenkian. Metro linha azul e uns minutos depois o Francisco colocou o seu francês à prova - e muito bem - com uns turistas no metro de S. Sebastião. Iam para a Gulbenkian. Passámos o CAM e embrenhámo-nos no belo jardim. Terminámos a passeata em beleza com gelados da gelataria do Centro Interpretativo, alfarroba, amendoim, oreo, conversa e fotos, muitas, para mais tarde recordar.
No último dia do Avante (para o ano há mais, fui lá sexta e sábado), preferi passá-lo com estes meus amigos muito especiais. Conheço o Francisco há mais de dois anos, o Carlos há poucas semanas, são bons rapazes, e a eles dedico este vídeo (a versão curta do documentário 'Kora' passou no Cineavante - porque a Festa é mais que concertos e eu adorei a música do kora e só me apetece ouvi-la sem parar).
Trailer 1 Documentário Kora from Jorge Carvalho on Vimeo.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Com um brilhozinho nos olhos
A Lídia e eu tínhamos combinado um almoço com o Miguel há uns tempos. Convidei o Mark, que não conhecia a Lídia, e ontem, finalmente, almoçámos os quatro. O Miguel e a Lídia não se viam há bastante tempo e reuniram-se mais cedo.
Eu fui ter com eles à hora do almoço. Tínhamos combinado mais ou menos um ponto de encontro, na Rua Marquês da Fronteira, no Bairro Azul. Mal eu subi as escadas do metro de S. Sebastião, avistei o Mark e, segundos depois, ouvi chamar por mim. Era a Lídia e o Miguel, que estavam mais atrás.
A conversa prolongou-se muito depois da hora do almoço. Fomos os últimos a sair da sala do restaurante. Não tínhamos planos, ou melhor, os planos que havia envolvia estarmos ainda juntos até à hora de o Miguel ir apanhar o comboio de regresso a casa.
A felicidade é um dia como o de ontem.
Eu fui ter com eles à hora do almoço. Tínhamos combinado mais ou menos um ponto de encontro, na Rua Marquês da Fronteira, no Bairro Azul. Mal eu subi as escadas do metro de S. Sebastião, avistei o Mark e, segundos depois, ouvi chamar por mim. Era a Lídia e o Miguel, que estavam mais atrás.
A conversa prolongou-se muito depois da hora do almoço. Fomos os últimos a sair da sala do restaurante. Não tínhamos planos, ou melhor, os planos que havia envolvia estarmos ainda juntos até à hora de o Miguel ir apanhar o comboio de regresso a casa.
A felicidade é um dia como o de ontem.
E com um brilhozinho nos olhos
Guardei um amigo
Que é coisa que vale milhões.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
O Meu Tio - Verão com Jacques Tati
Um Nimas muito bem composto ontem, na sessão das 19 h de 'O Meu Tio'. Como tinha sido a sessão anterior e, previa-se pelo público à entrada, sala igualmente quase cheia na da noite. Segunda-feira é dia mais barato e Tati bem merece este ciclo que a Medeia proporciona.
Cenas deliciosas, um Monsieur Hulot grandioso, e não falo apenas da altura de Jacques Tati. Muitas risadas na sala e muitas crianças, neste fim de férias grandes.
Verão com Jacques Tati a não perder. Se não todos os filmes, pelo menos à segunda-feira.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

