Porque tenho medo da solidão
Caminho sem pressa. Espera-me uma casa vazia. Olho sem interesse uma velha sapataria, vejo os modelos ultrapassados, um espaço sem vida, como o reflexo que me olha pelo vidro da montra. Enfio as mãos nos bolsos do casaco, enquanto o meu olhar deambula pelo prédio ao lado. Acompanho o baloiçar de uma cortina transparente numa janela aberta. Páro em frente a um rés-do-chão. Espreito de viés e percorro a pequena divisão com um relance rápido.
Vejo-o sentado num sofá castanho. Apoia os cotovelos nos braços puídos e olha para a televisão. Por trás de si, na parede a descascar, está pendurada uma grande fotografia. Pende sobre o lado esquerdo e o velho caixilho de madeira dourada está rachado nos cantos. O vidro com manchas de humidade protege a imagem amarelecida pelos anos. Mostra um bebé, com um caracol loiro sobre a testa e vestido debruado a renda, ao colo de uma jovem mulher.
Não há som. Apenas um cone de luz branca, quebrado pela passagem incessante dos canais, bate naquele rosto sulcado pelas rugas. Um dedo mirrado pela artrite carrega no botão do comando.
A luz mortiça fixa-se de repente. Ele vira o rosto e olha para mim sem expressão. Tem um nariz com pequeninas veias roxas e os óculos pesados transformam os seus olhos em pequeninos pontos. Fixa-me durante uns breves segundos e, de seguida, torna a olhar em frente, alheado. As imagens tornam a passar no ecrã e eu ali fico, a mirar-me.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
O conto do Ribatejano
Leva contigo o meu coração
Devagar, como se estivesse a arrancar pedaço a pedaço, o coração, rasgo as folhas do calendário pendurado atrás da porta.
O som do picotado ecoa na enorme cozinha; ressoa-me nos ouvidos como uma serra a desmembrar-me. Tremo convulsamente. Escorrego para o chão, as pernas tortas, os braços pendentes, sou uma marioneta desengonçada.
Deslizo uma mão e apanho uma folha. O mês é Março. Tinhas marcado com um círculo a caneta de feltro verde, a tua cor preferida, a data do nosso aniversário. Seria o terceiro, a vinte e um. Vinte e um era o meu número da sorte. Até agora.
Sinto uma dor lancinante no peito e não consigo prender as lágrimas. Soluço sem parar, estupidamente abandonado, zangado. Bato com os punhos na tijoleira, como cheguei a este estado, pergunto-me, feito em frangalhos.
O cão aproxima-se de mim. Olha-me com os seus grandes e tristes olhos, as orelhas em baixo, estende uma pata e afaga-me um joelho.
Numa tarde de sábado chuvosa, naquele mês de Março, apareceste à porta com o cão nos braços. Tinhas encontrado, disseste, tremendo de frio, o pobre animal abandonado na estrada.
Acolhi-vos sem reservas. Nunca fora tão completo, tão feliz, a casa cheia de vida, gargalhadas, latidos, olho para as pernas da mesa roídas, lembro-me dos chinelos que te oferecera nesse natal, duraram um dia, eu gritei com o cão, tu fizeste-lhe festas e desculpaste-o, eu desisti, vencido.
Três anos depois, deixas-me o cão e levas contigo o meu coração.
Devagar, como se estivesse a arrancar pedaço a pedaço, o coração, rasgo as folhas do calendário pendurado atrás da porta.
O som do picotado ecoa na enorme cozinha; ressoa-me nos ouvidos como uma serra a desmembrar-me. Tremo convulsamente. Escorrego para o chão, as pernas tortas, os braços pendentes, sou uma marioneta desengonçada.
Deslizo uma mão e apanho uma folha. O mês é Março. Tinhas marcado com um círculo a caneta de feltro verde, a tua cor preferida, a data do nosso aniversário. Seria o terceiro, a vinte e um. Vinte e um era o meu número da sorte. Até agora.
Sinto uma dor lancinante no peito e não consigo prender as lágrimas. Soluço sem parar, estupidamente abandonado, zangado. Bato com os punhos na tijoleira, como cheguei a este estado, pergunto-me, feito em frangalhos.
O cão aproxima-se de mim. Olha-me com os seus grandes e tristes olhos, as orelhas em baixo, estende uma pata e afaga-me um joelho.
Numa tarde de sábado chuvosa, naquele mês de Março, apareceste à porta com o cão nos braços. Tinhas encontrado, disseste, tremendo de frio, o pobre animal abandonado na estrada.
Acolhi-vos sem reservas. Nunca fora tão completo, tão feliz, a casa cheia de vida, gargalhadas, latidos, olho para as pernas da mesa roídas, lembro-me dos chinelos que te oferecera nesse natal, duraram um dia, eu gritei com o cão, tu fizeste-lhe festas e desculpaste-o, eu desisti, vencido.
Três anos depois, deixas-me o cão e levas contigo o meu coração.
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
O conto do No Limite do Oceano
Meu Prozac e a avezinha
Como um objecto que acaba por ser esquecido, guardado no fundo de uma gaveta, o tempo encarregara-se de enterrar a dor. Muitos anos se passariam até voltar a senti-la.
Um dia, estava a caminhar num campo e reparei, ao longe, em três crianças ajoelhadas em frente a uma árvore. Curioso, aproximei-me e, de súbito, ela emergiu como uma erupção vulcânica.
Dois rapazes enterravam uma pequena caixa de cartão, um féretro níveo manchado por dedadas castanho-escuras; com as mãos, tinham escavado um buraco. Reparei que nos dedos magros e sujos de uma menina, que soluçava, uma pequena coleira cinzenta oscilava, o seu movimento como que a marcar o ritmo dos soluços.
Num episódio semelhante, um jovem, um pouco mais velho do que aqueles rapazes, soluçava ajoelhado junto a um monte coroado de folhas verdes e galhos entrançados. De um ramo mais resistente, espetado em cima, uma coleira e uma trela azuis assinalaram aquele sofrimento, balançando com uma súbita rajada de vento.
Fechei os olhos, triste; ao abri-los, encontrei as crianças abraçadas e a chorar em silêncio.
Depois, afastaram-se de mãos dadas e, à frente delas, o sol brilhou, num magnífico céu azul sem nuvens.
Aos poucos, as três figuras douradas esbateram-se. Uma imagem solar irrompeu, afastando a dor e aquecendo-me naquela tarde outonal: um jovem Prozac contemplava, com a cabeça um pouco inclinada e as patas empoleiradas no parapeito da sala, um pequenino melro suspenso num abeto do jardim, no longínquo Verão dos meus treze anos.
Como um objecto que acaba por ser esquecido, guardado no fundo de uma gaveta, o tempo encarregara-se de enterrar a dor. Muitos anos se passariam até voltar a senti-la.
Um dia, estava a caminhar num campo e reparei, ao longe, em três crianças ajoelhadas em frente a uma árvore. Curioso, aproximei-me e, de súbito, ela emergiu como uma erupção vulcânica.
Dois rapazes enterravam uma pequena caixa de cartão, um féretro níveo manchado por dedadas castanho-escuras; com as mãos, tinham escavado um buraco. Reparei que nos dedos magros e sujos de uma menina, que soluçava, uma pequena coleira cinzenta oscilava, o seu movimento como que a marcar o ritmo dos soluços.
Num episódio semelhante, um jovem, um pouco mais velho do que aqueles rapazes, soluçava ajoelhado junto a um monte coroado de folhas verdes e galhos entrançados. De um ramo mais resistente, espetado em cima, uma coleira e uma trela azuis assinalaram aquele sofrimento, balançando com uma súbita rajada de vento.
Fechei os olhos, triste; ao abri-los, encontrei as crianças abraçadas e a chorar em silêncio.
Depois, afastaram-se de mãos dadas e, à frente delas, o sol brilhou, num magnífico céu azul sem nuvens.
Aos poucos, as três figuras douradas esbateram-se. Uma imagem solar irrompeu, afastando a dor e aquecendo-me naquela tarde outonal: um jovem Prozac contemplava, com a cabeça um pouco inclinada e as patas empoleiradas no parapeito da sala, um pequenino melro suspenso num abeto do jardim, no longínquo Verão dos meus treze anos.
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
O conto do Mark
Enquanto os cães se demoram.
O tapete do corredor abafa o ruído dos seus passos. Só a chuva se ouve. Na ombreira da saleta, detém-se e observa-a. Mirrada, há muito que a sua grandiosidade desaparecera. Agora, está afundada num cadeirão antiquado, um pouco mais velho do que ela. O seu queixo pontiagudo pousa num peito liso, oculto pelo xaile de lã.
De olhos fechados, respira muito devagar, como se estivesse a dormir. Mas, tal como ele, escuta a chuva a tamborilar nas vidraças.
Vê a sua vida a passar por detrás das pálpebras fechadas quase transparentes. E aguarda. Não vai demorar.
Por fim, solta um longo suspiro, como se lhe desse permissão para entrar. Então, ele aproxima-se devagar e, gentilmente, passa a mão pelo seu cabelo branco do alto da cabeça. Ajoelha-se à sua frente, mas teme que os frágeis ossos se quebrem em inúmeros pedaços e não coloca a cabeça naquele delicado colo. Mantém-na no ar, os olhos rasos de água, e sente a vida prestes a desmoronar-se.
Ela abre os olhos, levanta a cabeça e sorri-lhe. Apazigua-o com o olhar terno. A custo, ergue um braço esquelético, tapado por um tecido escuro de seda; ele repara que no magro pulso está a pulseira de ouro que lhe oferecera no último aniversário.
E, enquanto os cães se demoram à porta pela derradeira vez, ela pousa a mão na testa dele e o abençoa.
Um último sopro de vida sai-lhe dos lábios engelhados. A mão inerte tomba para o lado.
O tapete do corredor abafa o ruído dos seus passos. Só a chuva se ouve. Na ombreira da saleta, detém-se e observa-a. Mirrada, há muito que a sua grandiosidade desaparecera. Agora, está afundada num cadeirão antiquado, um pouco mais velho do que ela. O seu queixo pontiagudo pousa num peito liso, oculto pelo xaile de lã.
De olhos fechados, respira muito devagar, como se estivesse a dormir. Mas, tal como ele, escuta a chuva a tamborilar nas vidraças.
Vê a sua vida a passar por detrás das pálpebras fechadas quase transparentes. E aguarda. Não vai demorar.
Por fim, solta um longo suspiro, como se lhe desse permissão para entrar. Então, ele aproxima-se devagar e, gentilmente, passa a mão pelo seu cabelo branco do alto da cabeça. Ajoelha-se à sua frente, mas teme que os frágeis ossos se quebrem em inúmeros pedaços e não coloca a cabeça naquele delicado colo. Mantém-na no ar, os olhos rasos de água, e sente a vida prestes a desmoronar-se.
Ela abre os olhos, levanta a cabeça e sorri-lhe. Apazigua-o com o olhar terno. A custo, ergue um braço esquelético, tapado por um tecido escuro de seda; ele repara que no magro pulso está a pulseira de ouro que lhe oferecera no último aniversário.
E, enquanto os cães se demoram à porta pela derradeira vez, ela pousa a mão na testa dele e o abençoa.
Um último sopro de vida sai-lhe dos lábios engelhados. A mão inerte tomba para o lado.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
O conto do Francisco
Quando eu menos esperava, apareceste…
Preparava-me para sair do bar, quando alguém se sentou no tamborete de madeira ao meu lado, no balcão. Esvaziei o copo e, discretamente, olhei-o. Com um aperto de mão, cumprimentou o barman e pediu o costume. Um cliente habitual, constatei.
Havia algo de diáfano naquele estranho, com o cabelo claro, a camisa branca, a pele pouco bronzeada, apesar de o Verão estar quase no fim.
Sorveu um pouco da bebida e, de seguida, retirou de uma embalagem de cartão um objecto. Maravilhado, mostrou-o ao barman. Reparei que as suas mãos pálidas como que brilhavam ao segurar, com extrema delicadeza, aquela peça.
Então, começou a contar a história, Estava a caminhar numa pequena rua, depois de uma reunião de trabalho ali perto, e parara diante da montra de uma loja de objectos usados. De uma parede, pendiam, quase até ao chão, uns pequenos focos, como uma silenciosa cascata de luz. E, em baixo, estava aquela peça. Ficou tão fascinado pela sua beleza que decidiu comprá-la naquele momento. E agora ali estava ela. Pousada no balcão profano e adorada como uma divindade.
Era um singelo candeeiro a petróleo com uma base de metal dourado e uma chaminé delicadamente ornamentada.
Interrompi-o. Disse-lhe que, quando era miúdo, acendera dezenas de vezes um candeeiro a petróleo exactamente igual àquele, na casa da minha avó.
Depois da terceira bebida, confidenciei-lhe, já sentados numa mesa longe do balcão, que ainda o tinha em casa, em lugar de honra, em cima da cómoda.
Preparava-me para sair do bar, quando alguém se sentou no tamborete de madeira ao meu lado, no balcão. Esvaziei o copo e, discretamente, olhei-o. Com um aperto de mão, cumprimentou o barman e pediu o costume. Um cliente habitual, constatei.
Havia algo de diáfano naquele estranho, com o cabelo claro, a camisa branca, a pele pouco bronzeada, apesar de o Verão estar quase no fim.
Sorveu um pouco da bebida e, de seguida, retirou de uma embalagem de cartão um objecto. Maravilhado, mostrou-o ao barman. Reparei que as suas mãos pálidas como que brilhavam ao segurar, com extrema delicadeza, aquela peça.
Então, começou a contar a história, Estava a caminhar numa pequena rua, depois de uma reunião de trabalho ali perto, e parara diante da montra de uma loja de objectos usados. De uma parede, pendiam, quase até ao chão, uns pequenos focos, como uma silenciosa cascata de luz. E, em baixo, estava aquela peça. Ficou tão fascinado pela sua beleza que decidiu comprá-la naquele momento. E agora ali estava ela. Pousada no balcão profano e adorada como uma divindade.
Era um singelo candeeiro a petróleo com uma base de metal dourado e uma chaminé delicadamente ornamentada.
Interrompi-o. Disse-lhe que, quando era miúdo, acendera dezenas de vezes um candeeiro a petróleo exactamente igual àquele, na casa da minha avó.
Depois da terceira bebida, confidenciei-lhe, já sentados numa mesa longe do balcão, que ainda o tinha em casa, em lugar de honra, em cima da cómoda.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
O conto do Miguel
São Pedro de Moel. Julho
O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.
O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
O conto do João Máximo
Loiras, ruivas ou morenas?
“Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
“No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
Escutavam-no, cativados.
“Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
“Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”
“Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
“No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
Escutavam-no, cativados.
“Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
“Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
O conto do João Roque
Eu fui à tua procura
Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.
Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
O conto do Silvestre
O pernóstico capcioso vituperador
Uma noite, à saída do restaurante, um homem velho, magro, de sobretudo escuro e laço ao pescoço, ergueu uma bengala à frente deles.
“Péssima escolha.”, declarou, abruptamente, barrando-lhes a passagem. Apontou para o restaurante com a ponta da bengala. Depois, disse, com um tom altivo, que conhecia um clube de bridge com um óptimo serviço. “Os senhores seriam bem-vindos. Convido-vos.”
Com a confiança de um homem que sabia dar ordens e ser obedecido prontamente, fixou-lhes um olhar astuto. Mantinha a bengala no ar.
Olharam-no, emudecidos. O estranho interpretou como se fosse submissão.
Um deles abanou a cabeça.
“Lamento, mas acabamos de jantar. Estamos cansados. Mas podemos oferecer-lhe uma bebida rápida aqui”, respondeu.
“É um lugar repugnante. Jamais entraria aí dentro.”, foi a resposta do estranho.
Empertigado e agitando com maneirismos a bengala, viram-no afastar-se.
Algum tempo depois, foram jantar ao mesmo restaurante. Recordaram-se do episódio estranho e perguntaram ao dono se conhecia o velhote.
“Um louco que se julga um barão!”, exclamou. “Só porque, um dia, há alguns anos, não o servimos com o requinte que desejava. Isto é um estabelecimento familiar. De vez em quando, aparece por aqui. Engraça comigo e desgraça-me a casa, essa é a verdade. Espalha boatos na rua.”
Por fim, acalmou-se e sorriu. “Mas os senhores gostam de cá vir”.
Anos depois, continuam a jantar naquele restaurante. De vez em quando, ainda se recordam do barão que não era barão, do clube de bridge que não existia e trocam sorrisos cúmplices.
Uma noite, à saída do restaurante, um homem velho, magro, de sobretudo escuro e laço ao pescoço, ergueu uma bengala à frente deles.
“Péssima escolha.”, declarou, abruptamente, barrando-lhes a passagem. Apontou para o restaurante com a ponta da bengala. Depois, disse, com um tom altivo, que conhecia um clube de bridge com um óptimo serviço. “Os senhores seriam bem-vindos. Convido-vos.”
Com a confiança de um homem que sabia dar ordens e ser obedecido prontamente, fixou-lhes um olhar astuto. Mantinha a bengala no ar.
Olharam-no, emudecidos. O estranho interpretou como se fosse submissão.
Um deles abanou a cabeça.
“Lamento, mas acabamos de jantar. Estamos cansados. Mas podemos oferecer-lhe uma bebida rápida aqui”, respondeu.
“É um lugar repugnante. Jamais entraria aí dentro.”, foi a resposta do estranho.
Empertigado e agitando com maneirismos a bengala, viram-no afastar-se.
Algum tempo depois, foram jantar ao mesmo restaurante. Recordaram-se do episódio estranho e perguntaram ao dono se conhecia o velhote.
“Um louco que se julga um barão!”, exclamou. “Só porque, um dia, há alguns anos, não o servimos com o requinte que desejava. Isto é um estabelecimento familiar. De vez em quando, aparece por aqui. Engraça comigo e desgraça-me a casa, essa é a verdade. Espalha boatos na rua.”
Por fim, acalmou-se e sorriu. “Mas os senhores gostam de cá vir”.
Anos depois, continuam a jantar naquele restaurante. De vez em quando, ainda se recordam do barão que não era barão, do clube de bridge que não existia e trocam sorrisos cúmplices.
domingo, 27 de setembro de 2015
O conto do Ricardo
Se o amor acontecesse
Fora há doze anos.
Tinham-se conhecido no trabalho. Departamentos diferentes, três andares de distância, encetaram uma conversa de circunstância num dos elevadores. “Cheguei na semana anterior”, respondera a uma pergunta mais curiosa. “Ainda não conheço muita gente”. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, voltaram a encontrar-se à porta do escritório. Sorrisos de reconhecimento, casacos apertados, os dias começavam a arrefecer, um cachecol fora enrolado, uma gola do casaco levantada.
Lembrava-se de todos os pormenores, de como caminharam sem destino durante muito tempo, de como a conversa acabava de repente e um silêncio, que começava a ser familiar, se instalava entre eles, enquanto se iam afastando do centro.
Anoiteceu devagar. Os candeeiros da rua acenderam-se, o trânsito tornou-se mais intenso. Hora de ponta. A um dado momento, declarou que era a altura do dia que preferia, quando as pessoas se apressavam para chegar a casa. “Sinto-me a nadar contra a corrente, como o salmão a subir o rio”. Riram.
Depois, sem saber como, tinham parado à porta daquele pequeno restaurante. Entraram, sentaram-se numa mesa junto à janela e jantaram.
Sete meses depois do primeiro encontro, a pergunta interrompeu um dos muitos silêncios que habitava entre eles desde o início.
“O que farias, se o amor acontecesse?”
Nunca tinham discutido o assunto e ficou surpreendido com a pergunta. Não ousou responder logo. Olhou pela janela a rua deserta. Chovia nessa noite, uma chuva puxada a vento, que batia no vidro sem cessar. Comoveu-se.
“Caminhava”, murmurou, por fim.
Fora há doze anos.
Tinham-se conhecido no trabalho. Departamentos diferentes, três andares de distância, encetaram uma conversa de circunstância num dos elevadores. “Cheguei na semana anterior”, respondera a uma pergunta mais curiosa. “Ainda não conheço muita gente”. Nesse mesmo dia, ao fim da tarde, voltaram a encontrar-se à porta do escritório. Sorrisos de reconhecimento, casacos apertados, os dias começavam a arrefecer, um cachecol fora enrolado, uma gola do casaco levantada.
Lembrava-se de todos os pormenores, de como caminharam sem destino durante muito tempo, de como a conversa acabava de repente e um silêncio, que começava a ser familiar, se instalava entre eles, enquanto se iam afastando do centro.
Anoiteceu devagar. Os candeeiros da rua acenderam-se, o trânsito tornou-se mais intenso. Hora de ponta. A um dado momento, declarou que era a altura do dia que preferia, quando as pessoas se apressavam para chegar a casa. “Sinto-me a nadar contra a corrente, como o salmão a subir o rio”. Riram.
Depois, sem saber como, tinham parado à porta daquele pequeno restaurante. Entraram, sentaram-se numa mesa junto à janela e jantaram.
Sete meses depois do primeiro encontro, a pergunta interrompeu um dos muitos silêncios que habitava entre eles desde o início.
“O que farias, se o amor acontecesse?”
Nunca tinham discutido o assunto e ficou surpreendido com a pergunta. Não ousou responder logo. Olhou pela janela a rua deserta. Chovia nessa noite, uma chuva puxada a vento, que batia no vidro sem cessar. Comoveu-se.
“Caminhava”, murmurou, por fim.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Bette Davis 2015
Está aberta a 4.ª edição do Bette Davis. Quem quiser participar, só tem de me dar um título até 5 palavras e eu escreverei um micro-conto com 250 palavras, incluindo o título. A caixa de comentários é vossa.
domingo, 20 de setembro de 2015
Para Além das Montanhas
Através de um monólogo pungente, sofredor, carregado de amor, um imenso amor por um irmão doente, por onde pulsam as recordações, 'Para Além das Montanhas' transporta-nos para uma terra no nordeste de Portugal, para outros tempos, para um lugar onde desliza um rio, para um milheiral, para uma casa velha, pobre, para trabalhos duros, para uma vida, afinal, difícil de gente simples, para dois irmãos inseparáveis, para uma avó sábia e protectora.
Um romance rico em palavras e expressões típicas, em descrições que me fizeram recordar a infância, a aldeia, para aquele tempo em que, mesmo na dificuldade, fui feliz.
O autor, Ricardo, é filho da minha amiga Lídia. Obrigada ao Ricardo pela dedicatória e à Lídia pela generosa oferta.
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