O Destino Absoluto: Apocalipse
Olhou-se ao espelho, dos lábios gretados aos olhos vermelhos, passando pelo nariz entupido e inchado. A cabeça latejava. Para terminar em beleza, notou a borbulha na testa ao passar com a ponta do dedo. Enorme, nem toneladas de corrector conseguiriam disfarçar.
Tentou inspirar profundamente pelo nariz congestionado, mas sentiu uma tontura e apoiou-se no lavatório, de olhos fechados.
Ao fundo, um barulho incessante de gargalhadas e diálogos de um filme manga; ouviu um grito estridente e imaginou as garras da gata fincadas na perna da vítima, o animal bufando, furibundo, com a cauda erecta como um espanador.
Tenham piedade de mim, só quero sopas e descanso, pensou. Canja da mamãe, isso, sim, é que me sabia bem.
Devagar, levantou a tampa da caixa e tirou o lápis. A mão tremeu-lhe; naquele estado, nenhum risco sairia direito, constatou. Nem para desembrulhar um presente teria forças.
Afastou-se do espelho a tempo. O espirro obrigou-o a sentar-se na borda da banheira, as lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, a base estragada. Minha santa Mac, acode-me, soluçou.
Levantou-se e atirou a caixa para a gaveta, fechando-a com um gesto brusco. Suspirou, impotente. Era o apocalipse. Teria de os enfrentar assim mesmo.
Assoou-se com força, mirou-se uma última vez e saiu do quarto-de-banho.
Minutos depois, encontrava-se numa sala silenciosa, deitado no sofá com a cabeça no colo da mãe.
Ela aconchegou-lhe a manta, inclinou-se e beijou-o na face húmida.
- Feliz Natal – a mãe sorriu.
Apertou-lhe a mão, grato, e fechou os olhos.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
O conto do Mikel Shiraha
Palavras Cruzadas, Destinos Cruzados
Sobre o tapete puído da sala, está uma velha mesa quadrada castanho-escura; o homem, sentado no banco, não levanta a cabeça. Uma caligrafia redonda, delicada, enche uma página de papel azul vincada ao meio; ao lado, um envelope imaculadamente branco, sem remetente, está aberto. Encontrara a carta minutos antes debaixo da porta da entrada.
Segura a folha com a mão direita e fixa o olhar, a respiração abranda a pouco e pouco, as letras esbatem-se.
A claridade do meio da manhã é substituída pelo entardecer. Um menino escreve numa folha pautada do caderno da escola. Tem a cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo, a testa franzida de concentração. Pede, não presentes, nem doces, nem um casaco novo que o seu já estava curto nos braços, mas as luvas tricotadas pela avó ainda tapavam o frio; pede, sim, que ela regresse a casa com saúde, ela e o seu riso, era tão bom ouvi-la a rir, a casa está tão silenciosa e fria, a avó longe que, para a visitar, um bocadinho apenas nas tardes de domingo, tem de atravessar um grande corredor de cor verde-clara a cheirar a desifectante.
O menino pede com tanto fervor, escreve com tanta força que o papel rasga.
No tampo da mesa, fica gravada a palavra «amor», a mesma que remata aquela carta anónima, com um traço mais comprido no último «r», como uma pequenina onda que se transforma numa vaga, inunda a sala e submerge o homem nas recordações.
Sobre o tapete puído da sala, está uma velha mesa quadrada castanho-escura; o homem, sentado no banco, não levanta a cabeça. Uma caligrafia redonda, delicada, enche uma página de papel azul vincada ao meio; ao lado, um envelope imaculadamente branco, sem remetente, está aberto. Encontrara a carta minutos antes debaixo da porta da entrada.
Segura a folha com a mão direita e fixa o olhar, a respiração abranda a pouco e pouco, as letras esbatem-se.
A claridade do meio da manhã é substituída pelo entardecer. Um menino escreve numa folha pautada do caderno da escola. Tem a cabeça levemente inclinada para o lado esquerdo, a testa franzida de concentração. Pede, não presentes, nem doces, nem um casaco novo que o seu já estava curto nos braços, mas as luvas tricotadas pela avó ainda tapavam o frio; pede, sim, que ela regresse a casa com saúde, ela e o seu riso, era tão bom ouvi-la a rir, a casa está tão silenciosa e fria, a avó longe que, para a visitar, um bocadinho apenas nas tardes de domingo, tem de atravessar um grande corredor de cor verde-clara a cheirar a desifectante.
O menino pede com tanto fervor, escreve com tanta força que o papel rasga.
No tampo da mesa, fica gravada a palavra «amor», a mesma que remata aquela carta anónima, com um traço mais comprido no último «r», como uma pequenina onda que se transforma numa vaga, inunda a sala e submerge o homem nas recordações.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
O conto do Horatius
Dói-me o dedo mindinho
A criança só parou de chorar junto ao moinho. O moleiro tirou a boina, limpou o suor da testa e voltou a colocá-la na cabeça. Abriu a porta e entraram.
O menino fungou e sentou-se no chão, a um canto, de pernas encolhidas e com o queixo pousado nos joelhos.
- Sabes que tens de ir para a escola – o homem puxou um pequeno banco de madeira e sentou-se ao seu lado.
- Aqui aprendo tudo – olhou-o com os olhos ainda húmidos e vermelhos. Estendeu-lhe uma mão rechonchuda fechada. Abriu-a um pouco e um fio de farinha deslizou para o chão. Espalmou o montinho, rabiscou algo e apagou-o de seguida com um gesto rápido.
Enquanto espalhava a farinha de um lado para o outro, fixou o olhar nas costas um pouco curvadas do avô, que se tinha levantado e começado a trabalhar.
Momentos depois, o avô sentiu-o ao seu lado. Olhou-o e reparou que apertava uma mão junto ao peito.
- Dói-me o dedo mindinho – a criança murmurou.
- Como te magoaste? – pegou na mão e viu um fiozinho de sangue.
- Bati na pedra.
Ele tirou o lenço da algibeira, enrolou-o na mãozinha, atou-o, e, com um gesto brincalhão, despenteou o menino.
O petiz colocou os bracitos à volta da cintura do avô. Assim ficaram um longo tempo, um moleiro, de mãos vermelhas e dedos calejados, e o seu neto, com um rasto de farinha nos caracóis negros e uma ferida já esquecida no dedo.
A criança só parou de chorar junto ao moinho. O moleiro tirou a boina, limpou o suor da testa e voltou a colocá-la na cabeça. Abriu a porta e entraram.
O menino fungou e sentou-se no chão, a um canto, de pernas encolhidas e com o queixo pousado nos joelhos.
- Sabes que tens de ir para a escola – o homem puxou um pequeno banco de madeira e sentou-se ao seu lado.
- Aqui aprendo tudo – olhou-o com os olhos ainda húmidos e vermelhos. Estendeu-lhe uma mão rechonchuda fechada. Abriu-a um pouco e um fio de farinha deslizou para o chão. Espalmou o montinho, rabiscou algo e apagou-o de seguida com um gesto rápido.
Enquanto espalhava a farinha de um lado para o outro, fixou o olhar nas costas um pouco curvadas do avô, que se tinha levantado e começado a trabalhar.
Momentos depois, o avô sentiu-o ao seu lado. Olhou-o e reparou que apertava uma mão junto ao peito.
- Dói-me o dedo mindinho – a criança murmurou.
- Como te magoaste? – pegou na mão e viu um fiozinho de sangue.
- Bati na pedra.
Ele tirou o lenço da algibeira, enrolou-o na mãozinha, atou-o, e, com um gesto brincalhão, despenteou o menino.
O petiz colocou os bracitos à volta da cintura do avô. Assim ficaram um longo tempo, um moleiro, de mãos vermelhas e dedos calejados, e o seu neto, com um rasto de farinha nos caracóis negros e uma ferida já esquecida no dedo.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
O conto do Rui Alex
No livro guardo a ilustração
Estendo o braço. O rapaz, embrulhado num xaile de lã, aceita-o com uma mão a tremer. Baixa a cabeça, segurando as lágrimas e aperta-o junto ao peito. Ao seu lado, a senhora abraça-o com ternura. Devagar, puxa-o, agarra na minha lapiseira que estava sobre a mesa, aproxima o candeeiro a petróleo, regula a chama, examina-o e assinala uma vinheta com uma cruz. Brinda-me com um sorriso e passa-o ao velhinho. Ele debruça-se sobre a página, com os óculos na ponta do nariz, levanta a cabeça, confuso, e volta a incliná-la. Estende o braço e o jovem agarra-o, vira a folha e observa a tira com a cena dos rapazes nas escadas. Emocionado, lê baixinho o poema que estava num balão e olha para mim, agradecido. O homem sentado no sofá em frente agarra-o antes de cair ao chão. Dá uma ligeira cotovelada no amigo ao seu lado, enquanto aponta para vinheta que mostra a mesa do restaurante junto a uma janela sombreada pela chuva. De repente, uma bengala cai estrondosamente no soalho. O snob arrebata-o das suas mãos com um gesto violento. Observo-o a procurar o desenho, até que o atira para cima do sofá e sai da sala, carrancudo. O cão, então, estica uma pata e tenta virar as páginas abertas; o dono puxa-o para o seu colo, pega nele e entrega-o, por fim, aos dois velhotes. Eles, como cinquenta anos antes, olham, cativados, para o cartaz da diva que ocupa a última página.
Estendo o braço. O rapaz, embrulhado num xaile de lã, aceita-o com uma mão a tremer. Baixa a cabeça, segurando as lágrimas e aperta-o junto ao peito. Ao seu lado, a senhora abraça-o com ternura. Devagar, puxa-o, agarra na minha lapiseira que estava sobre a mesa, aproxima o candeeiro a petróleo, regula a chama, examina-o e assinala uma vinheta com uma cruz. Brinda-me com um sorriso e passa-o ao velhinho. Ele debruça-se sobre a página, com os óculos na ponta do nariz, levanta a cabeça, confuso, e volta a incliná-la. Estende o braço e o jovem agarra-o, vira a folha e observa a tira com a cena dos rapazes nas escadas. Emocionado, lê baixinho o poema que estava num balão e olha para mim, agradecido. O homem sentado no sofá em frente agarra-o antes de cair ao chão. Dá uma ligeira cotovelada no amigo ao seu lado, enquanto aponta para vinheta que mostra a mesa do restaurante junto a uma janela sombreada pela chuva. De repente, uma bengala cai estrondosamente no soalho. O snob arrebata-o das suas mãos com um gesto violento. Observo-o a procurar o desenho, até que o atira para cima do sofá e sai da sala, carrancudo. O cão, então, estica uma pata e tenta virar as páginas abertas; o dono puxa-o para o seu colo, pega nele e entrega-o, por fim, aos dois velhotes. Eles, como cinquenta anos antes, olham, cativados, para o cartaz da diva que ocupa a última página.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
O conto do Namorado
Porque tenho medo da solidão
Caminho sem pressa. Espera-me uma casa vazia. Olho sem interesse uma velha sapataria, vejo os modelos ultrapassados, um espaço sem vida, como o reflexo que me olha pelo vidro da montra. Enfio as mãos nos bolsos do casaco, enquanto o meu olhar deambula pelo prédio ao lado. Acompanho o baloiçar de uma cortina transparente numa janela aberta. Páro em frente a um rés-do-chão. Espreito de viés e percorro a pequena divisão com um relance rápido.
Vejo-o sentado num sofá castanho. Apoia os cotovelos nos braços puídos e olha para a televisão. Por trás de si, na parede a descascar, está pendurada uma grande fotografia. Pende sobre o lado esquerdo e o velho caixilho de madeira dourada está rachado nos cantos. O vidro com manchas de humidade protege a imagem amarelecida pelos anos. Mostra um bebé, com um caracol loiro sobre a testa e vestido debruado a renda, ao colo de uma jovem mulher.
Não há som. Apenas um cone de luz branca, quebrado pela passagem incessante dos canais, bate naquele rosto sulcado pelas rugas. Um dedo mirrado pela artrite carrega no botão do comando.
A luz mortiça fixa-se de repente. Ele vira o rosto e olha para mim sem expressão. Tem um nariz com pequeninas veias roxas e os óculos pesados transformam os seus olhos em pequeninos pontos. Fixa-me durante uns breves segundos e, de seguida, torna a olhar em frente, alheado. As imagens tornam a passar no ecrã e eu ali fico, a mirar-me.
Caminho sem pressa. Espera-me uma casa vazia. Olho sem interesse uma velha sapataria, vejo os modelos ultrapassados, um espaço sem vida, como o reflexo que me olha pelo vidro da montra. Enfio as mãos nos bolsos do casaco, enquanto o meu olhar deambula pelo prédio ao lado. Acompanho o baloiçar de uma cortina transparente numa janela aberta. Páro em frente a um rés-do-chão. Espreito de viés e percorro a pequena divisão com um relance rápido.
Vejo-o sentado num sofá castanho. Apoia os cotovelos nos braços puídos e olha para a televisão. Por trás de si, na parede a descascar, está pendurada uma grande fotografia. Pende sobre o lado esquerdo e o velho caixilho de madeira dourada está rachado nos cantos. O vidro com manchas de humidade protege a imagem amarelecida pelos anos. Mostra um bebé, com um caracol loiro sobre a testa e vestido debruado a renda, ao colo de uma jovem mulher.
Não há som. Apenas um cone de luz branca, quebrado pela passagem incessante dos canais, bate naquele rosto sulcado pelas rugas. Um dedo mirrado pela artrite carrega no botão do comando.
A luz mortiça fixa-se de repente. Ele vira o rosto e olha para mim sem expressão. Tem um nariz com pequeninas veias roxas e os óculos pesados transformam os seus olhos em pequeninos pontos. Fixa-me durante uns breves segundos e, de seguida, torna a olhar em frente, alheado. As imagens tornam a passar no ecrã e eu ali fico, a mirar-me.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
O conto do Ribatejano
Leva contigo o meu coração
Devagar, como se estivesse a arrancar pedaço a pedaço, o coração, rasgo as folhas do calendário pendurado atrás da porta.
O som do picotado ecoa na enorme cozinha; ressoa-me nos ouvidos como uma serra a desmembrar-me. Tremo convulsamente. Escorrego para o chão, as pernas tortas, os braços pendentes, sou uma marioneta desengonçada.
Deslizo uma mão e apanho uma folha. O mês é Março. Tinhas marcado com um círculo a caneta de feltro verde, a tua cor preferida, a data do nosso aniversário. Seria o terceiro, a vinte e um. Vinte e um era o meu número da sorte. Até agora.
Sinto uma dor lancinante no peito e não consigo prender as lágrimas. Soluço sem parar, estupidamente abandonado, zangado. Bato com os punhos na tijoleira, como cheguei a este estado, pergunto-me, feito em frangalhos.
O cão aproxima-se de mim. Olha-me com os seus grandes e tristes olhos, as orelhas em baixo, estende uma pata e afaga-me um joelho.
Numa tarde de sábado chuvosa, naquele mês de Março, apareceste à porta com o cão nos braços. Tinhas encontrado, disseste, tremendo de frio, o pobre animal abandonado na estrada.
Acolhi-vos sem reservas. Nunca fora tão completo, tão feliz, a casa cheia de vida, gargalhadas, latidos, olho para as pernas da mesa roídas, lembro-me dos chinelos que te oferecera nesse natal, duraram um dia, eu gritei com o cão, tu fizeste-lhe festas e desculpaste-o, eu desisti, vencido.
Três anos depois, deixas-me o cão e levas contigo o meu coração.
Devagar, como se estivesse a arrancar pedaço a pedaço, o coração, rasgo as folhas do calendário pendurado atrás da porta.
O som do picotado ecoa na enorme cozinha; ressoa-me nos ouvidos como uma serra a desmembrar-me. Tremo convulsamente. Escorrego para o chão, as pernas tortas, os braços pendentes, sou uma marioneta desengonçada.
Deslizo uma mão e apanho uma folha. O mês é Março. Tinhas marcado com um círculo a caneta de feltro verde, a tua cor preferida, a data do nosso aniversário. Seria o terceiro, a vinte e um. Vinte e um era o meu número da sorte. Até agora.
Sinto uma dor lancinante no peito e não consigo prender as lágrimas. Soluço sem parar, estupidamente abandonado, zangado. Bato com os punhos na tijoleira, como cheguei a este estado, pergunto-me, feito em frangalhos.
O cão aproxima-se de mim. Olha-me com os seus grandes e tristes olhos, as orelhas em baixo, estende uma pata e afaga-me um joelho.
Numa tarde de sábado chuvosa, naquele mês de Março, apareceste à porta com o cão nos braços. Tinhas encontrado, disseste, tremendo de frio, o pobre animal abandonado na estrada.
Acolhi-vos sem reservas. Nunca fora tão completo, tão feliz, a casa cheia de vida, gargalhadas, latidos, olho para as pernas da mesa roídas, lembro-me dos chinelos que te oferecera nesse natal, duraram um dia, eu gritei com o cão, tu fizeste-lhe festas e desculpaste-o, eu desisti, vencido.
Três anos depois, deixas-me o cão e levas contigo o meu coração.
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
O conto do No Limite do Oceano
Meu Prozac e a avezinha
Como um objecto que acaba por ser esquecido, guardado no fundo de uma gaveta, o tempo encarregara-se de enterrar a dor. Muitos anos se passariam até voltar a senti-la.
Um dia, estava a caminhar num campo e reparei, ao longe, em três crianças ajoelhadas em frente a uma árvore. Curioso, aproximei-me e, de súbito, ela emergiu como uma erupção vulcânica.
Dois rapazes enterravam uma pequena caixa de cartão, um féretro níveo manchado por dedadas castanho-escuras; com as mãos, tinham escavado um buraco. Reparei que nos dedos magros e sujos de uma menina, que soluçava, uma pequena coleira cinzenta oscilava, o seu movimento como que a marcar o ritmo dos soluços.
Num episódio semelhante, um jovem, um pouco mais velho do que aqueles rapazes, soluçava ajoelhado junto a um monte coroado de folhas verdes e galhos entrançados. De um ramo mais resistente, espetado em cima, uma coleira e uma trela azuis assinalaram aquele sofrimento, balançando com uma súbita rajada de vento.
Fechei os olhos, triste; ao abri-los, encontrei as crianças abraçadas e a chorar em silêncio.
Depois, afastaram-se de mãos dadas e, à frente delas, o sol brilhou, num magnífico céu azul sem nuvens.
Aos poucos, as três figuras douradas esbateram-se. Uma imagem solar irrompeu, afastando a dor e aquecendo-me naquela tarde outonal: um jovem Prozac contemplava, com a cabeça um pouco inclinada e as patas empoleiradas no parapeito da sala, um pequenino melro suspenso num abeto do jardim, no longínquo Verão dos meus treze anos.
Como um objecto que acaba por ser esquecido, guardado no fundo de uma gaveta, o tempo encarregara-se de enterrar a dor. Muitos anos se passariam até voltar a senti-la.
Um dia, estava a caminhar num campo e reparei, ao longe, em três crianças ajoelhadas em frente a uma árvore. Curioso, aproximei-me e, de súbito, ela emergiu como uma erupção vulcânica.
Dois rapazes enterravam uma pequena caixa de cartão, um féretro níveo manchado por dedadas castanho-escuras; com as mãos, tinham escavado um buraco. Reparei que nos dedos magros e sujos de uma menina, que soluçava, uma pequena coleira cinzenta oscilava, o seu movimento como que a marcar o ritmo dos soluços.
Num episódio semelhante, um jovem, um pouco mais velho do que aqueles rapazes, soluçava ajoelhado junto a um monte coroado de folhas verdes e galhos entrançados. De um ramo mais resistente, espetado em cima, uma coleira e uma trela azuis assinalaram aquele sofrimento, balançando com uma súbita rajada de vento.
Fechei os olhos, triste; ao abri-los, encontrei as crianças abraçadas e a chorar em silêncio.
Depois, afastaram-se de mãos dadas e, à frente delas, o sol brilhou, num magnífico céu azul sem nuvens.
Aos poucos, as três figuras douradas esbateram-se. Uma imagem solar irrompeu, afastando a dor e aquecendo-me naquela tarde outonal: um jovem Prozac contemplava, com a cabeça um pouco inclinada e as patas empoleiradas no parapeito da sala, um pequenino melro suspenso num abeto do jardim, no longínquo Verão dos meus treze anos.
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
O conto do Mark
Enquanto os cães se demoram.
O tapete do corredor abafa o ruído dos seus passos. Só a chuva se ouve. Na ombreira da saleta, detém-se e observa-a. Mirrada, há muito que a sua grandiosidade desaparecera. Agora, está afundada num cadeirão antiquado, um pouco mais velho do que ela. O seu queixo pontiagudo pousa num peito liso, oculto pelo xaile de lã.
De olhos fechados, respira muito devagar, como se estivesse a dormir. Mas, tal como ele, escuta a chuva a tamborilar nas vidraças.
Vê a sua vida a passar por detrás das pálpebras fechadas quase transparentes. E aguarda. Não vai demorar.
Por fim, solta um longo suspiro, como se lhe desse permissão para entrar. Então, ele aproxima-se devagar e, gentilmente, passa a mão pelo seu cabelo branco do alto da cabeça. Ajoelha-se à sua frente, mas teme que os frágeis ossos se quebrem em inúmeros pedaços e não coloca a cabeça naquele delicado colo. Mantém-na no ar, os olhos rasos de água, e sente a vida prestes a desmoronar-se.
Ela abre os olhos, levanta a cabeça e sorri-lhe. Apazigua-o com o olhar terno. A custo, ergue um braço esquelético, tapado por um tecido escuro de seda; ele repara que no magro pulso está a pulseira de ouro que lhe oferecera no último aniversário.
E, enquanto os cães se demoram à porta pela derradeira vez, ela pousa a mão na testa dele e o abençoa.
Um último sopro de vida sai-lhe dos lábios engelhados. A mão inerte tomba para o lado.
O tapete do corredor abafa o ruído dos seus passos. Só a chuva se ouve. Na ombreira da saleta, detém-se e observa-a. Mirrada, há muito que a sua grandiosidade desaparecera. Agora, está afundada num cadeirão antiquado, um pouco mais velho do que ela. O seu queixo pontiagudo pousa num peito liso, oculto pelo xaile de lã.
De olhos fechados, respira muito devagar, como se estivesse a dormir. Mas, tal como ele, escuta a chuva a tamborilar nas vidraças.
Vê a sua vida a passar por detrás das pálpebras fechadas quase transparentes. E aguarda. Não vai demorar.
Por fim, solta um longo suspiro, como se lhe desse permissão para entrar. Então, ele aproxima-se devagar e, gentilmente, passa a mão pelo seu cabelo branco do alto da cabeça. Ajoelha-se à sua frente, mas teme que os frágeis ossos se quebrem em inúmeros pedaços e não coloca a cabeça naquele delicado colo. Mantém-na no ar, os olhos rasos de água, e sente a vida prestes a desmoronar-se.
Ela abre os olhos, levanta a cabeça e sorri-lhe. Apazigua-o com o olhar terno. A custo, ergue um braço esquelético, tapado por um tecido escuro de seda; ele repara que no magro pulso está a pulseira de ouro que lhe oferecera no último aniversário.
E, enquanto os cães se demoram à porta pela derradeira vez, ela pousa a mão na testa dele e o abençoa.
Um último sopro de vida sai-lhe dos lábios engelhados. A mão inerte tomba para o lado.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
O conto do Francisco
Quando eu menos esperava, apareceste…
Preparava-me para sair do bar, quando alguém se sentou no tamborete de madeira ao meu lado, no balcão. Esvaziei o copo e, discretamente, olhei-o. Com um aperto de mão, cumprimentou o barman e pediu o costume. Um cliente habitual, constatei.
Havia algo de diáfano naquele estranho, com o cabelo claro, a camisa branca, a pele pouco bronzeada, apesar de o Verão estar quase no fim.
Sorveu um pouco da bebida e, de seguida, retirou de uma embalagem de cartão um objecto. Maravilhado, mostrou-o ao barman. Reparei que as suas mãos pálidas como que brilhavam ao segurar, com extrema delicadeza, aquela peça.
Então, começou a contar a história, Estava a caminhar numa pequena rua, depois de uma reunião de trabalho ali perto, e parara diante da montra de uma loja de objectos usados. De uma parede, pendiam, quase até ao chão, uns pequenos focos, como uma silenciosa cascata de luz. E, em baixo, estava aquela peça. Ficou tão fascinado pela sua beleza que decidiu comprá-la naquele momento. E agora ali estava ela. Pousada no balcão profano e adorada como uma divindade.
Era um singelo candeeiro a petróleo com uma base de metal dourado e uma chaminé delicadamente ornamentada.
Interrompi-o. Disse-lhe que, quando era miúdo, acendera dezenas de vezes um candeeiro a petróleo exactamente igual àquele, na casa da minha avó.
Depois da terceira bebida, confidenciei-lhe, já sentados numa mesa longe do balcão, que ainda o tinha em casa, em lugar de honra, em cima da cómoda.
Preparava-me para sair do bar, quando alguém se sentou no tamborete de madeira ao meu lado, no balcão. Esvaziei o copo e, discretamente, olhei-o. Com um aperto de mão, cumprimentou o barman e pediu o costume. Um cliente habitual, constatei.
Havia algo de diáfano naquele estranho, com o cabelo claro, a camisa branca, a pele pouco bronzeada, apesar de o Verão estar quase no fim.
Sorveu um pouco da bebida e, de seguida, retirou de uma embalagem de cartão um objecto. Maravilhado, mostrou-o ao barman. Reparei que as suas mãos pálidas como que brilhavam ao segurar, com extrema delicadeza, aquela peça.
Então, começou a contar a história, Estava a caminhar numa pequena rua, depois de uma reunião de trabalho ali perto, e parara diante da montra de uma loja de objectos usados. De uma parede, pendiam, quase até ao chão, uns pequenos focos, como uma silenciosa cascata de luz. E, em baixo, estava aquela peça. Ficou tão fascinado pela sua beleza que decidiu comprá-la naquele momento. E agora ali estava ela. Pousada no balcão profano e adorada como uma divindade.
Era um singelo candeeiro a petróleo com uma base de metal dourado e uma chaminé delicadamente ornamentada.
Interrompi-o. Disse-lhe que, quando era miúdo, acendera dezenas de vezes um candeeiro a petróleo exactamente igual àquele, na casa da minha avó.
Depois da terceira bebida, confidenciei-lhe, já sentados numa mesa longe do balcão, que ainda o tinha em casa, em lugar de honra, em cima da cómoda.
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
O conto do Miguel
São Pedro de Moel. Julho
O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.
O livro fechado sobre a mesa, o lápis marcando a página com as frases que tinha sublinhado. Com o lenço bordado que guardava no bolso do vestido, limpava os olhos lacrimejantes que recebiam a humidade do oceano.
Pedia-lhe, constantemente, que não estivesse tanto tempo na varanda, mas ao regressar, reparava sempre na sua figura, vagamente obscurecida pelo guarda-sol, a cabeça inclinada para baixo, com o livro no regaço. Ao lado, na mesa redonda de ferro, os companheiros daquelas tardes soalheiras: a chávena de chá, o bule e o solitário com a rosa vermelha que lhe trazia todas as manhãs.
Suspirava, abanando a cabeça, derrotado. Por fim, entrava, largava displicentemente no sofá da sala a toalha e o jornal meio lido e aproximava-se. Inclinava-se, depositava um beijo na face levemente oleosa do creme protector e perguntava-lhe como tinha passado a tarde. Por instantes, a resposta acalmava-o. Então, arrastava a cadeira para o seu lado, o que lhe valia a única reprimenda do dia, quando levava uma branda palmada no braço. Mas fazia-o todos os anos, naquela quinzena de férias junto ao mar, como se precisasse daquela punição, uma brincadeira entre os dois que mascarasse a angústia que se agarrava a ele como as lapas nos rochedos das falésias.
Naquele Verão, à medida que se aproximava, foram aquelas as imagens que lhe vieram à memória. Estacionou junto ao hotel. Saiu e caminhou pelo passadiço de madeira, em direcção ao farol, enquanto escutava, triste, o marulhar do Atlântico.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
O conto do João Máximo
Loiras, ruivas ou morenas?
“Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
“No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
Escutavam-no, cativados.
“Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
“Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”
“Nós, os desse tempo, ainda nos lembramos.”, declarou um velho, de repente.
Tinham-se refugiado da chuva naquele bar. Ao balcão, estavam dois velhos e o empregado, quase tão idoso como eles, limpava um copo com um pano da loiça amarelo.
Pediram dois finos e fizeram um sinal. As duas taças foram cheias. Os velhos olharam para eles e ergueram-nas numa saudação.
“No dia da inauguração, há cinquenta anos, a casa estava cheia.”, prosseguiu. Um gole. Satisfeito, deu um estalido com a língua. “Tinham colocado uma grande faixa à porta três dias antes. Na data marcada, as pessoas acotovelavam-se à entrada, à espera que abrissem as portas, com os bilhetes na mão. Sentámo-nos na grande sala nova em folha. O proprietário fez um pequeno discurso sobre o inesquecível espectáculo que íamos assistir nessa tarde. Depois, pediu silêncio e afastou-se. Os cortinados foram abertos e a grande tela branca apareceu. Os meus olhos brilhavam de expectativa. Ao fundo, ouviu-se um ruído estranho e uma fina claridade surgiu no alto da sala. O filme tinha começado.”
Escutavam-no, cativados.
“Assim se inaugurou o cinema do bairro. A faixa continuou pendurada até ao fim do Verão. As palavras já mal se viam, desbotadas, mas ninguém se tinha esquecido do que anunciava”. O velho acabou de beber o vinho.
O amigo suspirou e enleado naquelas recordações, terminou de olhos fechados:
“Loiras, ruivas ou morenas? As grandes divas do cinema agora ao pé de si. Sessão inaugural no dia 21, às 16 horas.”
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
O conto do João Roque
Eu fui à tua procura
Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.
Foi num sábado à tarde, recordou-lhe, enquanto liam aquele poema, mais uma vez, embora o soubessem de cor, depois de tantos anos. E, de novo, contou como tudo acontecera.
Tinha acabado de chover e resolvera sair de casa, andar sem rumo, como tantas vezes faziam os dois. Num jardim, descobrira, por acaso, uma feira de livros usados. Adorava passar os dedos pelas lombadas gastas, vincadas, abrir um livro, depois outro e outro.
De um caixote periclitante sobre uma desconjuntada mesa de campismo, um detalhe que guardou na memória, decidiu-se por um pequeno livro de poesia. Uma edição de autor, de pequeníssima tiragem, produzida uns vinte anos antes. Devagar, passou as páginas e leu alguns pequenos poemas de amor. “Jovem poeta apaixonado”, pensou, após ler, na contracapa, as três breves linhas que compunham a sua biografia.
Folheou-o até parar num poema com o título “Eu fui à tua procura”. De repente, o coração apertou-se, sentiu a boca seca, um desassossego. Quase sem dar conta, retirou umas moedas do bolso das calças, entregou-as ao vendedor e afastou-se. Nas mãos, segurava aquele tesouro, a cabeça inclinada para baixo, incapaz de afastar os olhos.
As pernas levaram-no a um prédio conhecido. Tocou à campainha. Do intercomunicador, saiu uma voz rouca que tão bem conhecia. Com um zumbido, a porta abriu-se. Entrou.
Encontraram-se a meio da escada. Retirou o livro do bolso do casaco, abriu-o na página marcada com um velho papel e, ali mesmo, leu-lhe aquela declaração de amor.
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