A praia estava vazia àquela hora, enquanto esperávamos que o sol nascesse, sentados ao fundo das escadas, as bicicletas encostadas no pilar do passadiço lá no alto. À nossa frente, ouvíamos o incessante ribombar das ondas coroadas de espuma que rebentavam na areia. Esperávamos pela primeira aurora do mês de Dezembro, com as pernas encolhidas e o queixo assente nos joelhos. Tiritavas de frio, a gola levantada do casaco de bombazine e o gorro não eram suficientes. Por baixo do camisolão de lã, espreitava a tua camisola de pijama. Quinze minutos antes, tinha-te acordado com meia dúzia de pedrinhas atiradas ao vidro da janela do teu quarto. Abriste um pouco, consegui vislumbrar uma manga azul, acenaste e alguns minutos depois, arrastando a bicicleta, apareceste nas traseiras da casa.
Não tiravas os olhos da grande bola laranja que começava a crescer num céu de Inverno sem nuvens. Sem o saber, guardavas um tesouro no bolso de dentro do casaco. Na semana anterior, tinhas-me pedido o canivete emprestado. Encontraste um pedaço de madeira no pinhal ao pé da tua casa e talhaste uma âncora, o meu nome e a data do meu nascimento. Nesse dia, eu fazia quinze anos.
Durante muito tempo, eu não consegui dizer uma palavra, apertando-o até os nós dos dedos ficarem brancos.
Não tiravas os olhos da grande bola laranja que começava a crescer num céu de Inverno sem nuvens. Sem o saber, guardavas um tesouro no bolso de dentro do casaco. Na semana anterior, tinhas-me pedido o canivete emprestado. Encontraste um pedaço de madeira no pinhal ao pé da tua casa e talhaste uma âncora, o meu nome e a data do meu nascimento. Nesse dia, eu fazia quinze anos.
Durante muito tempo, eu não consegui dizer uma palavra, apertando-o até os nós dos dedos ficarem brancos.
Se não fosses meu amigo, hoje não estaria neste navio, no outro lado do mundo, onde é Verão. Faço quarenta anos e vejo o teu rosto no sol que agora nasce.