'Lembro-me muito bem de um pormenor curioso: a última canção que punham todas as noites, como um aviso discreto aos clientes habituais de que o bar ia fechar, era It's alright (I'm only bleeding), uma velha canção de Bob Dylan que Rodney adorava porque, tal como a mim os ZZ Top me devolviam o desconsolo sem horizontes da minha juventude, a ele era-lhe devolvido o júbilo hippy da sua juventude, ainda que se tratasse de uma canção tristíssima que falava de palavras desiludidas que ecoam como balas e de cemitérios a abarrotar de falsos deuses e de gente solitária que chora e tem medo e vive num poço sabendo que tudo é mentira e que compreendeu cedo de mais o que não vale a pena tentar compreender, esse júbilo era-lhe talvez devolvido graças a um verso que eu também não consegui esquecer: «Quem não está ocupado em nascer está ocupado em morrer».'
Javier Cercas, A Velocidade da Luz, Edições Asa, p. 30.
Javier Cercas, A Velocidade da Luz, Edições Asa, p. 30.

